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A consciência histórica do Cristianismo

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

IV Panorama moral do mundo ante Cristão - a vida prática

No momento em que o Cristianismo surge e afirma-se como tal passava a Sociedade por uma crise sem precedentes e comparada apenas com a que passamos no tempo presente, após 1820.

Segundo Nordau a única diferença significativa entre uma e outra crise é que hoje quase todos são atingidos pelo 'mal estar'e estão de certo modo conscientes de que algo 'não vai bem' ou 'não esta certo'. O mal estar hoje ou a percepção da crise é mais amplo e mais generalizado. Durante os primeiros séculos desta nossa Era apenas os espiritos de escol percebiam o fim para o qual as coisas se encaminhavam... recorrendo os 'epicuristas' a bebida, a glutonaria e ao sexo e os estóicos - como lemingues - ao suicidio ou abandono da vida, face ao futuro que lhes estava reservado.

Foi um momento trágico porque a civilização romana representa de algum modo uma solução de continuidade que se estende ininterruptamente, desde o antigo Egito e da antiga Suméria... É Roma a derradeira representante e última herdeira de tais civilizações, passando naturalmente pela Fenícia, Pérsia, Grécia e Etrúria... Todos este cadinho cultural aflui para a metropole do Tibre e parabra das sete colunas, mas não para continuar sua tragetória milenar, mas para agonizar e morrer.

Eis porque o fim de Roma corresponde com propriedade ao fim da Idade antiga ou da Antiguidade. De certo modo, do ponto de vista das instituições econômicas, religiosas e sociais, a morte de Roma é a morte do Egito, da Suméria, da Fenicia, da Pérsia, da Helade, da Etrúria e de todas as civilizações antigas cujo padrão é destruido para ser superado.

Então devemos compreender que a crise teórica representada pelo neo platonismo, e que a crise econômica representada pelo escravismo, repercutissem moralmente produzindo todo um dilúvio de males sociais.

Se a um tempo as massas aderiam ao misticismo ou as religiões orientais como o mitracismo é necessário dizer que tal tipo de espiritualidade não correspondia aos mitos e fábulas sobre os quais estava constituida a vida política e social do Império e mesmo das civilizações antigas. Embora todos fossem avidos por novidades religiosas e cultos exóticos, não havia quem acreditasse mais que os julios fossem descendentes da deusas Vênus, alguns até fingiam, mas ninguém mais cria; como não criam mais na narrativa dos meninos amamentados pela loba, na apoteose de César, etc

E menos ainda nas narrativas de Hesiodo e Homero, postas já em dúvida pelo próprio Platão...

Ninguém mais cria na origem de Atenas, saida em ordem de batalha da cabeça de Zeus; na narrativa de Hera presa de cabeça para baixo, em Dionisio sendo gerado na batata da perna de Zeus, etc

E todos porfiavam-se, a semelhança dos alexandrinos, em deslindar o significado oculto de todas estas 'estórias'... ou parábolas.

E compunham explicações engenhosas, as quais no entanto seriam encaradas como heréticas ou blasfematórias pelos avoengos...

Outros como Luciano não conseguiam ocultar o riso cínico perante tudo quanto os antepassados haviam tido em conta de divino e sacrossanto.

Apesar disto a religião permanecera inalterada, bem como os ritos. E como a religião permeava toda vida social, do nascimento a morte - Cf Fustel de Coulanges 'A cidade antiga' - do cidadão, permeando todos os atos cívicos e políticos, segue-se que tudo estava fundamentado sobre a mentira ou sobre a farsa.

Nasciam, casavam, juravam e morriam os antigos sob o jugo de ritos nos quais já não acreditavam mas nos quais deviam fingir que acreditavam mantendo as aparências a todo custo. Não podiam dizer abertamente que consideravam a narrativa de Hera gerando Marte sentada sobre uma flor, como a mais supina idiotice; mas as ocultas riam-se do conto...

Toda esta artificialidade, para não dizermos hipocrisia, não podia deixar de exercer uma influência nefasta sobre os costumes do povo. Uma vez que as massas ao menos baseiam os atos da vida moral sobre a esfera religiosa, adotar uma religião de aparências não poderia deixar de produzir péssimo efeito.

Pela porta sagrada da religião entrava a duplicidade.

No que diz respeito a família, a principal chaga constituia a repudio dos nascituros. Que eram lançados a cloaca máxima ou abandonados em qualquer logradouro público onde morriam de fome ou eram pegos por vendedores de escravos e criados para serem vendidos.

É bem verdade que Musonius Rufo e os estóicos de seu circulo parecem ter condenado esta abominável prática, a qual, sem embargo, continuou a ser posta em prática no decorrer dos séculos seguintes. Apenas a conversão dos cidadãos ao Cristianismo no século VI foi capaz de por fim a este mal, bem como ao aborto.

A Idade Média, digam o que quizerem, ignorou tal gênero de crimes, os quais ressurgem e avolumam na mesma medida em que a sociedade afasta-se da fé ancestral ou seja da fé Católica. Pois o principio da fé Católica quando sinceramente cultivada, é incompátivel com o infanticidio.

Outro sério problema eram os jogos de gladiadores, um tido de esporte sanguinário e carniceiro que atraia as multidões ociosas.

Prisioneiros de guerra, escravos fugidos, cristãos e criminosos vulgares, além de animais ferozes, eram postos para lutar uns com os outros até a morte nos assim chamados circos.

Em cada solenidade milhares de almas eram imoladas e o sangue corria solto. O paganismo antigo jamais opoz-se a este tipo de 'distração', o qual acompanhou o império até seus estertores, até ser suprimido pelos bárbaros ou pelos Cristãos.

Devemos mencionar ainda o costume, disseminado mesmo entre os homens mais sabios e virtuosos, de recorrerem ao suicidio face a situações de relativa gravidade. Houve mesmo quem fizesse apologia desta prática, sem cogitar no entanto, de que ela implica certa concessão a fragilidade humana ou a covardia.

Este problema também só pode ser superado após a adoção do modelo Cristão.

Quanto aos sacrificios religiosos, é certo que se haviam diminuido consideravelmente mesmo antes da aparição do Cristianismo, por salutar influxo da filosofia, nem por isto haviam desaparecido por completo, sendo esporadicamente realizados por ocasião de invasões estrangeiras, catastrofes naturais e epidemias; mormente nas regiões mais afastadas do Império.

Basta dizer que após a derrota de Canas dois gauleses e dois gregos foram sepultados vivos no forum boarium. Em 81 a C foi sancionada uma lei probitória quanto a este gênero de sacrificios... um ano antes no entanto Marcus Marius Gratidianus foram torturado, seviciado, martirizado, decapitado e oferecido aos manes de Quinus Catulus pelas mãos de Sérgio Catilina conforme podemos ler nos fragmentos de Cícero e Salústio, na Petição de Quintus e em Seneca (De ira III,18)

No entanto, durante as invasões bárbaras do século V, a elite romana, em especial as familias senatoriais, solicitaram permissão dos papas Ciricio e Leão para oferecer tal gênero de sacrificios aos deuses marciais. Permissão que com grande agravo de tais famílias foi negada pelos Bispos de Roma.

Também os germanos e gauleses oficiavam tal gênero de sacrificios em suas ilhas e bosques, conservando como trófeus as cabeças das vítimas.

Num e outro caso, a supressão deste rito desumano e abominável deve-se a autoridade da Igreja Católica.

Convem mencionarmos ainda a chaga do argentarismo. Não poucos nobres e senadores romanos viviam de emprestar dinheiro a juros...  Mandando a principio escravizar e posteriormente assassinar os insolventes.

Formou a agiotagem romana verdadeira máfia na capital do Império, muitas vezes presidida pelo próprio Imperador ou por seus válidos.

Somente o triunfo da Igreja pode suprimir esta prática por algum tempo.

Assim, apesar dos progressos da filosofia, de Sócrates, de Platão e de Aristóteles... ainda assim o Império era achacado por vícios deploráveis como a agiotagem, os sacrificios humanos, os jogos sangrentos, a exposição de menores, a hipocrisia religiosa, a vadiagem, o deboche, o escravismo... e cada uma destas enfermidades cruéis ia tirando a vida do corpo social até converte-lo num cadaver.

Os bárbaros a semelhança de corvos foram atraidos pelo odor putrefado do cadaver. Porque moral, social e materialmente falando o império romano não passava dum cadaver nauseabundo.

III - Panorama moral... o escravismo

Não é preciso aderir a metafisica marxista para admitir a consideravel influência exercida pelos meios de produção econômica sobre o regime social.

Mesmo sem admitir que tal influência tenha correspondido ao mesmo gráu de intensidade representando pelo economicismo contemporâneo, convem encara-la como fato.

Pois se o homem não vive só de pão, mas como ente racional que é, da unidade divina; é fato que também não vive só da unidade divina, mas também de pão e vinho ou seja de alimento material.

Ser complexo vive o homem de graça e de pão, de pão e de graça. A graça é o pão do espírito e o pão a graça do corpo e assim dos dois alimentos se nutre o homem.

Erram os idealistas ao cuidarem que viva o homem da graça apenas e erram os materialistas supondo que viva apenas de pão.

Seja como for a preparação, aquisição e distribuição de bens materiais não pode deixar de nortear os rumos das sociedades humanas.

Menosprezar o fundamento econômico é menosprezar parte do homem ou sua condição física.

A luz do principio Cristão da encarnação nem pode o Cristão deixar-se seduzir pela voz da sereia que é o idealismo ou o espiritualismo descarnado.

Então caso nos perguntemos a respeito de qual era o fundamento econômico sobre o qual estava edificada a estrutura do mundo antigo, damos sempre e em toda parte com o escravismo sejam suas formas mais ou menos rigorosas.

A principio as tribos humanas e clãs dispersos pelo mundo combatiam-se uns aos outros e faziam prisioneiros tendo em vista aplacar a fúria dos deuses com sacríficios humanos. Degladiavam-se os homens na sanha de alimentar seus deuses cruéis e sanguinários e atacavam-se mutuamente tendo em vista a propriciação dos espíritos ancestrais!!!

Enquanto vigorou este modelo de pensamento não econômico, populações inteiras, inclusive idosos, mulheres e crianças, eram imoladas sob os altares e os templos sabiam a açougues. Dia raiou no entanto em que alguém teve a idéia, a principio humanitária e piedosa, de poupar alguns prisioneiros, consagrando-os a algum tipo de trabalho. Cogitam alguns autores que tal pessoa duvidava da existência dos deuses ou ao menos da eficácia de sacríficios...

As crônicas mais remotas no entanto parecem indicar que a principio tais pessoas foram consagradas ao serviço dos próprios deuses tornando-se escravas do templo ou dos sacerdotes, cuja posição tornou-se ainda mais poderosa e prestigiosa. Não tardou porém para que os senhores temporais revindicassem sua parte do quinhão fazendo concorrência aos templos dos deuses...

Destarte converteu-se a escravidão em instituição puramente secular e espalhou-se rapidamente pelas sociedade na medida em que implicava na posse do poder e na extração das riquezas.

E sujeito ou sociedade alguma desejava permanecer a parte... todos aspiravam por auferir algum tipo de proveito.

Foi assim que instituição tão corrupta passou da antiga China, da India, da Suméria e do Egito, a Pérsia, desta a Grécia e desta a Roma, acompanhando a própria herança e evolução cultural. Do surgimento da escrita, do calendário e das cidades a destruição do Império Romano fez-se o escravismo presente em maior ou menor gráu. Nem mesmos os israelitas, que alguns encaram como povo sagrado ou divino, fugiu a regra comum, embora suas instituições, sob este aspecto particular, pareçam mais avançadas.

Quanto a pessoa do escravo, se no antigo Egito, na antiga suméria e entre os israelitas; era objeto de certos direitos, como a vida e a constituição de uma família, noutras sociedades como a grega e a romana não eram sujeitos de direito algum. Sob este aspecto assemelhavam-se a animais ou melhor dizendo a instrumentos de trabalho como a marreta, o serrote, o martelo, etc sendo assim designados e tratados sem qualquer tipo de contemplação. Basta dizer que na sociedade clássica o senhor (domino) possuia poderes de vida ou morte sobre seus escravos... e que a vida deles nada valia em termos de essencialidade.

Já aludi, no ensaio pertinente a Superioridade do Cristianismo, ao assassinato de Pedânio Secundo. Tendo sido ele assassinado por um de seus escravos, todos as quatrocentas 'cabeças' que lhe pertenciam foram condenadas a morte e executadas consoante determinava a tradição romana.

Grosso modo os escravos eram apressados por ocasião das guerras, manietados, marcados com ferro em brasa, oferecidos em mercados especializados, comprados a 'resma' e submetidos aos mais duros trabalhos sob o regime da chibata. Eles não trabalhavam ou apanhavam mas trabalhavam e apanhavam, e caso se recusassem a trabalhar eram sujeitos a tortura ou a pena capital. Quando fugiam eram perseguidos e quando encontrados severamente castigados, inclusive com a mutilação de membros...

Não lhes era permitido constituir familia (Embora fossem levados a procriar - produzindo com isto novos escravos.) ou fortuna e tudo quanto ganhassem no execicio deste ou daquele oficio devia ser integralmente posto nas mãos do senhor. Não podiam votar nem ser votados, não podiam depor nos tribunais e sequer tinham direiro ao exercício da religião sendo sua presença expressamente proibida nos templos de diversas divindades...

Ao chegar a velhice ou a doença, quando não mais podiam trabalhar eram expostos ou abandonados para morrer nas ruas e praças dos bairros mais miseráveis. Mortos seus corpos eram lançados ao Tibre ou a cloaca maxima...

Apesar de tanta indignidade o número deles eram incrivel tanto em Atenas, quanto em Roma e nas principais cidades do império. Tanto que era expressamente proibido uniformiza-los para que não conhecessem seu número e força.

O Império romano fez do escravismo a base de sua econômia e de seu poder. Após a conquista de Cartago e o apressamento de um número considerável de prisioneiros, logo convertidos em mão de obra boa e barata, Roma não parou mais...

Assim sendo, guerra após guerra, vinha a aumentar o número de escravos e com isto a produção de bens e o poder econômico. Nem é preciso dizer que esta oferta excessiva de trabalho escravo acabou dando cabo do trabalho livre, digno e honesto... perdeu o trabalho livre todo seu valor e em seguida a própria dignidade uma vez que o cidadão livre já não cogitava em exercer qualquer trabalho duro para não ser confundido com um escravo...

Converteram-se os cidadãos livre e pobres em vagabundos até formarem uma massa de ociosos tão grande a ponto de exercer certa influência sobre os poderes constituidos e deles obter o regalo que desginamos com o titulo de 'pão e circo'. Alimentava o império tais massas de desocupados por termer que pudessem vir a ser manipuladas por demagogos profissionais turbando a ordem pública...

Quanto aos nobres e poderosos viviam de rendas, isto é, de terras cultivadas por miriades des escravos... daí o empenho dos mesmos em fazer guerras e obter mais terras e mais escravos, aumentando suas fortunas.

Acontece que a terra não é ilimitada.

Dilatando suas conquistas e conquistando todo circulo do mediterrâneo, teve o império romano de cogitar em límites, mormente porque confinava já com o Império dos persas sassânidas, e este com o povo do Indo, e este com o grande Império Chines... a oeste estava o Atlântico com suas águas... ao Norte as selvas e geleiras em que habitavam os bárbaros germânicos indomáveis, e ao Sul a África negra classificada por Aristóteles e Estrabão como a zona tórrida. Não havia mais para onde expandir-se...

Não havia mais para onde crescer...

Havia o gigante atingido o máximo de tamanho possível.

Aqui um problema bastante sério.

Sem expansão ou seja sem guerras e conflitos, donde viriam os escravos, a terra ou o ouro???

De fato não viriram e não vieram. Eis porque aos poucos, paralizado, o Império entrou em crise, numa crise de natureza econômica que veio a destrui-lo. Outro fato não menos exato é que ao menos aqui - como assevera Gibbons e sua memorável obra a respeito da decadência do Império Romano - o Cristianismo não permaneceu indiferente tomando parte ativa na determinação do rumo que as coisas vieram a tomar, a ponto de ser apontado e 'denunciado' como uma das causas responsáveis pela destruição do Império...

Aqui estamos de acordo. Pois como veremos mais a frente o Cristianismo foi a primeira força ou instituição a opor-se conscientemente ao escravismo. Basta dizer que na medida em que a fé Cristã se expandia o número de escravos diminuia, tendo em vista os que eram alforriados...

Esta redução sensível da mão de obra escrava durante o século II determinara uma sensivel diminuição do número de bens produzidos e oferecidos e consequentemente o encarecimento paulatino dos mesmos, ou seja, o aparecimento do fenômeno hoje conhecido como inflação; cujas verdadeiras causas, por nós assinaladas, passavam a largo das vistas do homem antigo.

Eles podiam ver o efeito, a constante subida dos preços e o consequente aumento da miséria; mas não podiam chegar as causas primeiras: o modelo escravista, a falta de guerras, o pão e circo, etc

E assim continuavam a caminhar para o abismo...

Cogitou o imperador Diocleciano, como o presidente Sarney nos anos 80, em tabelar os preços e proibir o aumento; como se as leis pudessem conter os fenômenos de ordem econômica... outros optaram por aumentar os impostos e por onerar os pequenos agricultores livres que ainda se obstinavam em lavrar a terra e em suprir o mercado alimentício.

Como não podiam quitar seus tributos, os pequenos agricultores abandonaram suas propriedades e afluiram as metropoles, especialmente a Roma, onde era distribuido o 'pão e circo' isto é rações e prebendas financiadas pelo erário. Disto resultou o êxodo urbano e o esvaziamento dos campos...

E consequentemente a diminuição do montante de gêneros alimentícios e o aumento de seus preços... e como até os escravos comiam, o preço do trabalho e de todos os outros bens...

Era um verdadeiro abismo que se abria a cada geração.

Os jovens nascidos em meio a este mórbido estado de coisas já não pensavam em sacrificar suas vidas nas fronteiras por um Império moribundo. Os discursos a respeito da deusa roma, de marte, de belona, do império, de augusto, do dever, da coragem, etc já não convenciam a quem quer que fosse porque o pão e circo satisfaziam as necessidades básicas que não tocavam ao ideal... O exemplo de um Aquiles ou de um Alexandre tocavam já os corações de poucos... os jovens, fossem patricios ou plebeus estavam já cientes de que toda elite dominante havia abraçado ao ceticismo, ao relativismo, ao pragmatismo ou mesmo a um epicurismo muito mal compreendido... e que ninguém cogitava mais em sacrificar-se pela República.

O tempo dos Scevola, dos Catões, dos Brutos e dos Cassios havia já se esgotado e sua sementeira tornara-se estéril... só em troca dum opulento salário concordava algum jovem de origem obscura em passar as fronteiras e opor-se aos germânicos, cada vez mais temidos e tidos em conta de invenciveis pelo populacho...

Tudo isto estava esgotando as riquezas pilhadas pelo império e exigindo certa moderação por parte dos próprios césares. No século II ou III nenhum deles cogitaria em gastar como um Calígula ou um Nero, o tempo dos palácios, templos, aquedutos e obras descomunais ia longe...

Foi quando o Imperador promulgou decreto que fixada os pequenos proprietários livres a terra, para que cessassem de passar as grandes cidades e acabassem por despovoar o campo por completo. E como eles não podiam pagar os impostos... o Império acabou por admitir o pagamento das tachas em gêneros ou por prestação de serviços.

Sistema que veio a predominar durante a assim chamada Idade Média. Barganhava já o poderoso império com gêneros de primeira necessidade tendo em vista a manutenção do 'pão e circo' e o pagamento dos oficiais, os quais no entanto aspiravam por ouro apenas... enquanto isto as massas citadinas, entregues ao ócio, engordavam como manadas de porcos e ignoravam todo e qualquer tipo de disciplina. Como observa Agostinho, dando apenas com o elo final da corrente, eles ignoravam por completo as virtudes de seus nobres ancestrais e não passavam de um bando de degenerados...

Tendo Alarico, exigido a rendição incondicional da cidade de Roma, responderam-lhe os Senadores dizendo que contavam com milhões de cidadãos dentro dos muros da cidade. Diante disto replicou o lider bárbaro: Quanto mais grossa for a erva, tanto melhor para afiar o gume de nossas espadas! Porque aquela carne mole e flacida era incapaz de fazer-lhe frente...

Tivesse Anibal dado com ela quinhentos anos antes e Roma teria pura e simplesmente acabado... Anibal no entanto dera com um povo ainda muito pouco corrompido pelo escravismo e já foi obervado que a conquista de Cartago pelos romanos, foi o primeiro passo rumo ao abismo. Pois Roma sendo uma simples cidade e tendo conquistado todo circuito do Mediterraneo, drenou para si toda riqueza da região... a semelhança de um corpo gigantesco que concentrando todo sangue na cabeça, acaba perecendo vitimado por uma congestão ou por um derrame.

Eliminando os mercados rivais, como Cartago, Alexandria, Antioquia, etc Roma sequer tinha como exercitar suas habilidades e virtudes...

O Dominio sobre todas as cidades rivais, associado ao escravismo e as filosofias cética e epicurista (segundo a versão popular ou corrente) deram cabo do Império. Também o Cristianismo contribuiu poderosamente com isto na medida em que apresentava outros principios e valores bastante distintos daqueles que haviam constituido o império, quais fossem a sacralidade da vida humana, a dignidade, a liberdade, o amor a paz, a justiça, a fraternidade, etc A principio a instituição Cristã condenava não apenas o escravismo mas a própria guerra e proibia seus membros de alistarem-se como soldados...

Ela também condenava o culto cívico tributado as divindades tutelares, ao gênio ou anjo de Roma, ao imperador, etc No qual os bem pensantes, como diz Origenes, igualmente não acreditavam, mas que teimavam em manter por ficção, tendo em vista a captação de recrutas i é de futuros soldados.

II - Panorama moral...

Do ponto de vista teórico o mundo antigo tinha tudo para dar certo.

E no entanto este belo mundo sossobrou fragosamente e de tal modo que hoje subsistem dele apenas uns fragmentos esparsos, cinzas frias que sucederam a ruínas fumengantes e escombros...

Havia Roma destruido todas as bibliotecas e Arquivos de sua rival Cartago, pagaram-lhe os germânicos destruindo a ferro e fogo suas quarenta bibliotecas públicas, a primeira das quais fora criada por Augusto e entregue a direção de Asinio Polião. Assim também a Biblioteca de Alexandria, com seus cerca de um milhão de volumes, foi encinerada por decreto do Calida Omar.

"Caso tais livros discordem do Corão, são heréticos; ao fogo com eles. Caso estejam de acordo com o Corão, são inuteis; ao fogo com eles." são as palavras transmitidas pelos próprios cronistas muçulmanos.

Filiponos no entanto, certifica que os monges fanáticos deram cabo de Hipátia. Filóstorgo, o ariano, revindica a façanha para seus correligionários... seja como for a investigação científica atingiu seus máximos limites no mundo antigo...

Justiniano, o imperador herético, seguidor de Juliano de Halicarnaso; é comumente execrado por ter mandado fechar a acadêmia e o líceu de Atenas, após quase mil anos de tradição...

Em que pesem os defeitos de Justiniano devemos compreender bem o que eram a acadêmia e o liceu no tempo em que foram mandados fechar por ele...

No frigir dos ovos, estas duas escolas comportam dois módulos bastante distintos de pensamento e contem em si, desde o principio, germes de um conflito cujas dimenssões haveriam de aumentar paulatinamente até dar origem a uma verdadeira guerra...

Tais as cosmovisões de Platão e de Aristóteles do ponto de vista epistemológico e científico.

Platão de certo modo conserva e amplia as tradições ancestrais, legadas pelos egipcios e fenicios, ao pensamento grego, com suas ilações místicas e quase que religiosas.

Tal conteúdo foi ampliado, por influência dos 'mistérios' - aos quais Platão era bastante afeiçoado - até o maniqueismo ou a compreenssão de que a matéria era má em si mesma ou no mínimo inferior ao elemento imaterial. Efetivamente se os platônicos não eram capazes de encarar este mundo sensivel senão como cópia ou plágio do mundo ideal, seus sucessores os neo platônicos não hesitaram em apresentar a matéria como algo de que os espírito deveria libertar-se a guiza de purificação.

Não é aos Cristãos e sim aos neoplatônicos que devemos atribuir os fundamentos mais remotos do que compreendemos sob a alcunha de idealismo. Pois sabemos que Platão era partidário do realismo absoluto e seu mundo ideal tão material quanto o nosso...

Plotino, Porfirio, Jamblico, Amônio, etc é que imaginaram o mundo de Platão como algo puramente imaterial ou espiritual. Os Cristãos deram continuidade a este padrão de pensamento...

Naturalmente que este modo de encarar o mundo sensivel tem consequências do ponto de vista epistemológico e ciêntifico.

O outro ponto de vista corresponde ao de Aristóteles e do Líceu.

Aristoteles era realista equilibrado, acreditando que o verdadeiro mundo ou o mundo real era este nosso próprio mundo e que os sentidos eram o aparelho adequado para devassa-lo.

Para ele a mente era como uma 'tabua rasa' a ser preenchida por nossas percepções sensoriais.

A inferência lógica é que este mundo merece ser observado, percebido, conhecido e compreendido por nós e que a melhor maneira de conhece-lo é aplicar a atenção dos sentidos. Daí a doutrina da experiência...

Posta em prática pelos já citados Straton, Teofrasto, Dikaiarkos, Arquimedes, Hiparco, Eratóstenes, Aristarco, etc legatários do pensamento aristotélico e 'filhos' do líceu. A tais homens devemos as primeiras descobertas e conquistas no plano científico, como o heliocentrismo por exemplo. Foi graças a eles que a física, a sociologia, a política, a biologia, etc converteram-se em conhecimentos seguros e certos.

Eles lançaram as bases do pensamento científico enquanto os partidários da acadêmia e os sucessores de Plotino chafurdavam cada vez mais no pântano do misticismo.

Durante cerca de três séculos houve, como já foi dito, uma espécie de combate ou duelo entre as duas correntes rivais. Ao fim deste duelo excepcional deu o pensamento aristotélico/empirista mostras de desgaste e esgotamento, caindo sob os golpes do ceticismo a um lado ou da credulidade a outro.

Moralistas declaravam que os domínios do conhecimento físico ou natural eram incertos e inseguros; neo platonizantes procuravam inserir a teúrgia ou seja a magia no santuário da filosofia. Disto tomaram pé os cultos de mistério primeiramente e em seguida os cultos de origem oriental quais sejam judaismo, mitraismo e o próprio Cristianismo... tudo sempre permeado pelo idealismo crasso ou por um espiritualismo absoluto, face ao qual a investigação científica perdia o sentido.

Os céticos descartavam a investigação e os esforços dos aristotélicos como vãos. Os platônicos acreditavam obter conhecimentos mais seguros por via de introspecção ou mesmo de bruxaria... Foi quando no século I desta nossa Era a investigação científica cessou, ao menos enquanto prática sistemática e organizada.

A tenssão social conduziu os ricos, nobres e poderosos as confortáveis pradarias do ceticismo, do relativismo, do sujetivismo, etc enquanto as massas precipitavam-se nos abismos deletérios do idealismo, dos misticismo, da teúrgia e da religiosidade casmurra. Infectado pelas correntes platônicas e platonizantes o Cristianismo não logrou obter qualquer sucesso ou progresso no âmbito do conhecimento científico, sendo afetado inclusive no próprio campo da ética.

A vitória ou o triunfo de Platão, associada ao escravismo, constitiu a chave para que possamos compreender e deslindar os motivos porque veio a perecer o mundo antigo. Pois se a ética platônica era muito semelhante a ética Cristã, serviu tal semelhança como uma espécie de isca... fazendo com que a Cristandade bebe-se da mesma fonte os degetos idealistas, a epístemologia corronpida e o vezo anti científico que havia já contaminado a acadêmia e enfim o próprio Líceu.

Sintomático é que o Cristianismo não combateu nem triunfou de um aristotelismo que já estava agonizante ou morto. Triste e angustioso é saber que o derradeiro rival do Cristianismo no campo da Filosofia, foi a corrente espúria do neo platonismo; corrente ainda mais mística e religiosa que o próprio Cristianismo.

Não matou o Cristianismo a autêntica filosofia, como jamais terçou armas ou incompatibilizou-se com ela pelo simples fato de não a ter conhecido. A Filosofia que faz oposição ao Cristianismo exige mais fé do que ele próprio... Diluira-se o pensamento em misticismo muito antes que o Cristianismo viesse a triunfar.

Destarte quando Justianiano mandou fechar a acadêmia, o Liceu, o pórtico e outras tantas escolas, estavam todas já convertidas em igrejolas de Platão ou em capelas de Plotino.

Seja como for esta diluição do aristotelismo e do pensamento científico/empirista nas cogitações doentias do neo platonismo e do gnosticismo, comporta a suprema tragédia do mundo antigo no plano das idéias. Como o escravismo comporta a suprema tragédia do mundo antigo no plano material ou social.

Estavam pois completamente podres os fundamentos daquele mundo.

O fundamento teórico por assim dizer aluido pelas quimeras neoplatonizantes e o fundamento material corroido pelo regime escravocrata. E o fundamento ético ou moral abalado pela fragilidade do cárater.

Eis porque carecendo de fundamentos sólidos todo aquele mundo estava prestes a cair ou a desabar ruidosamente como uma catedral em chamas...



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

I - Panorama moral do tempo anterior a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo

Este artigo não tem por fim, como tantos e tantos do gênero, pintar o mundo pagão ou ante Cristão como absolutamente mau, tal e qual não houvesse nele um só fragmento de virtude.

Mesmo teóricos pessimistas e exclusivistas como Agostinho e Calvino não puderam deixar de reconhecer certa aparência de virtude em almas como a de Mucio Scevola ou dos irmãos Graccos. E Cristãos houveram que iluminados pela fé não deixaram de render preito de admiração a Arria, esposa de Peto Tracéias, a qual tendo cortado suas veias disse enternecidamente ao esposo: "Veja querido esposo que não dói."... ou a Paulina, que abriu suas veias por estima ao marido.

Só uma alma vil, cuspida pelo averno seria capaz de deixar de chorar as desditas de Priamo, Hécuba, Heleno e Cassandra...

Só um espírito tacanho e obtuso deixaria de comover-se diante da constância de um Zeno, o qual por suas idéias deixou-se moer numa engenhoca, diante de coragem de um Pitágoras que se deixa torrar ao fogo lento com sua cátedra, diante da serenidade impassível com que o filho de Sofronisco ingere seu cálice de cicuta, diante da paciência com que Calistenes amarga em sua gaiola, e especialmente diante da cena imortal em que Epicteto diz a seu senhor: 'Se puxas minha perna de tal forma acabaras quebrando-a.' e pouco depois 'Bem disse que acabarias por quebra-la.'

Só uma natureza degenerada deixaria de curvar-se perante um Helvidio Prisco, o qual por puro despeito do Imperador Vespasiano - que não suportava a elevação de seu cárater - é enviado ao cepo.

Para nosso delite Epiteto reproduz o último dialogo que o homem teve com o César e o qual nada fica devendo aos 'Atos' dos nossos mártires:

"Quando Vespasiano enviou ordem a Helvídio Prisco para que não viesse ao Senado, Prisco respondeu: "Esta em teu poder permitir que eu seja ou não membro do Senado, desde que eu sou, virei.". "Vá" diz o imperador "Mas não abra a boca!". "Se não solicitas minha opinião, em silêncio fico." replicou ele. "Mas devo solicitar tua opinião." rebate Vespasiano. "E eu devo dizer o que penso ser certo." responde o filósofo. "No entanto se voce o fizer vou condena-lo a morte." arremata o Cesar. "Quando eu reconheco que sou mortal faço minha parte quando voce mata faz a sua, porque sou filósofo e vossa graça Imperador, então cada qual faz sua parte: decretais minha morte e morro, mas não por medo apenas por condição; caso desejais banir-me sem qualquer constrangimento me vou."

Sabiam pois os antigos enfrentar a morte com coragem, tal a esposa de Amilcar e seus filhos lançando-se as chamas que devoravam o templo de Schemoun sob o olhar estupetafo de Scipião... Tal a intrepidez do Jovem Catão que retalha seu ventre para morrer com a República.

Não ignoravam nossos antepassados a virtude.

Caso passemos nossos olhares pelas diferentes culturas dos tempos passados, depara-mo-nos aqui e ali com luminosos clarões. Ora em Mo tse que séculos antes do divino Mestre anunciara aos 'seres' a lei suprema do amor, ora em Confúcio e em sua piedade filial, ora em Mencius e sua devoção para com a justiça que sabe a Platão e sua República, ora em Buda e em seu amor dedicado a todas as criaturas vivas e em seu repúdio aos sacrifícios sangrentos.

Desejando recuar ainda mais nas brumas dos tempos remotos e primitivos damos com a sabedoria singela de um Phta Hotep... ou dum Kaghemeni.

Então não se diga que recusamos fazer justiça aos pagãos virtuosos que precederam a manifestação de nosso grande pedagogo Jesus Cristo.

Nós reconhecemos que em todo tempo e lugar existiram homens que aspiraram pelo ideal virtuoso, pelo bem, pela santidade e pela perfeição; embora nem sempre a natureza mostrasse constância neste caminho e o heroismo ficasse restrito as almas de escol. É como se a vontade se inclinasse para a direção mas o cárater denotasse certa fragilidade...

De fato não poucos a exemplo de Pitagoras, Demócrito, Arquitas, Xenofanes, Platão, Cimas, Cebes, Espeusipo, Antistenes, Crisipo, Clearco, Cleanto, Panécio, Possidonio, etc discorreram sobre a virtude e muitos em termos bastante próximos daquilo que mais tarde veio a ser revelado por nosso abençoado Mestre. Origenes ao que parece fez justiça a tais escritores, acrescentando todavia que parte deles não procedera imaculadamente segundo as belas palavras que haviam escrito...

Então eles parecem ter aspirado pela virtude e desejado uma condição moral de natureza superior, embora nem sempre tivessem tido a fortuna de viver conforme o ideal desejado.

Tomemos os escritos do nobre Musonius Rufus.

Que diz ele?

Diz que a filosofia deve ultrapassar as palavras. Admitindo que muitos pensadores elaboravam discursos bastante belos e elevados, embora nem sempre soubessem proceder deacordo com os mesmos discursos.

E acrescenta que o objetivo da filosofia era 'Purificar a mente da corrupção.'

Além disto nosso homem assevera que a filosofia deve ser cultivada por todos os seres humanos, sejam homens ou mulheres, tendo em vista a vida virtuosa. Apregoa a sacralidade da vida humana, inclusive no que tange aos recém nascidos, e o vegetarianismo.

Ocioso é acrescentar que seu sistema é iminentemente prático pois Rufus encara a virtude como habito que deve ser exercitado diariamente.

Enfim todos os seus discursos destacam-se pela nobreza e a elevação.

Por outro lado é igualmente sabido que o estoicismo exerceu salutar influxo sobre a elaboração das leis durante o período ante Cristão, favorecendo em certo sentido a implantação de nossas instituições. As quais seus mentores haviam de certa forma delineado e desejado... assim a assistência aos escravos e a condenação do infanticídio.

Leis humanitárias como já foi dito estavam sendo urdidas e implantadas algum tempo antes do surgimento ou da afirmação do Cristianismo.

Sócrates havia dado seu testemunho como mártir do humanismo, do pensamento crítico e da liberdade. Platão escrevera já sua República, enfatizando o papel basilar da justiça e fundado sua acadêmia e Aristóteles escrevera já sua Ética, recomendando aos homens uma vida sóbria e equilibrada... Zenon sob o pórtico proclamara já a inflexibilidade radical do bem e da virtude.

Teofrasto, Dikaiarcos, Straton, Arquimedes, Hiparco, Aristarco e outros haviam lançado as bases da pesquisa e do conhecimento cientificos. Em Alexandria florescia uma 'universidade' que nada deve as modernas e a magnífica Biblioteca. Em Atenas, Pergamo e mesmo na Roma de Augusto, Bibliotecas, museus, pinacotecas, etc estavam dispostos a educação dos seres humanos...

Teoricamente falando tudo augurava melhores dias para a humanidade e longa e brilhante tragetória para aquele mundo, cujos mestres e professores aspiravam pelo supremo bem e pela máxima felicidade.

Verificaram-se no entanto tais augurios e concretizaram-se tais esperanças???

Encaminhou-se este velho mundo para o bem e a virtude segundo os preceitos e conselhos de seus sábios mestres e doutos moralistas???

Porque me parece que nobres e elevadas aspirações não faltavam aquele mundo.

Seriam tais aspirações suficientes???

Vejamos no próximo capítulo.