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A consciência histórica do Cristianismo

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terça-feira, 26 de março de 2013

XCI - Ebion e seu significado





Esta seita como já fizemos questão de observar foi criada por Tebutis, o 'ebion' ou pobre, logo após Simão ter conduzido o povo a Pela, na Peréia; segundo Epifânio, a mudança de local e de Bispo (porque S Tiago fora executado em 65) favoreceu a criação do grupo.

O mesmo escritos informa que Tebutis era procedente da aldeia de Cocabe, cerca da Batanéia.

Segundo Jerônimo haviam diversos tipos de Ebionitas ou melhor diversas seitas que partilhavam deste nome.

O elemento comum porque estavam unidas era a fidelidade irrestrita ao mandamento da limitação de riquezas ou como diziam em seu idioma a 'pobreza'.

Uma vez que parte deles se extinguiu e parte se desviu da sã doutrina a respeito de Jesus; e que nossa Santa Igreja veio a ser demasiado tolerante para com a posse e acumulo das riquezas condenadas por Cristo; muitos de nossos mestres e doutores tem se esforçado por calunia-los.

E alegam que eles ensinavam que a salvação é comunicada apenas aos que permanecem materialmente pobres e que o homem é salvo pela pobreza, e que rico algum poderia ser salvo.

O fato deles terem proibido o acumulo material de bens não significa que desconsideravam a pobreza da alma ou o desapego; mas que acreditavam que a 'pobreza espiritual' tinha certamente uma expressão material; e que proibindo o acumulo criavam circunstâncias favoráveis ao desapego.

Ele apenas exerceram a prudência recomendada pelo Salvador; enquanto que a Igreja, lamentavelmente relaxou... e introduziu os ricos parasitas no Reino dos céus; em franca contradição com a palavra do Senhor.

Neste ponto, relativo a pobreza, não há o que censurar aos ebionitas por sua insistência; antes cumpre louva-los, porque ao menos aqui foram os únicos a permanecer rigorosamente fiéis e a honrar o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Alias a origem de todas as seitas é justamente a falta de empenho em algum ponto da doutrina ou mesmo da prática por parte da Igreja. No caso dos ebionitas aproveitaram-se eles dos novos 'compromissos' surgidos entre os servos de Cristo e o Reino de Mamon...

Quanto a heresia deles dizia respeito a observância da Lei de Moisés.

Pelo que insistiam a respeito dos animais puros e impuros, da circuncisão, da guarda do sábado, etc

Fácil é perceber que eles tiveram sua origem nos fariseus convertidos que formaram o 'partido da circuncisão'; e que resistiram a orientação do Espírito Santo até formarem uma seita, e que detestavam particularmente os ensinamentos anti legalistas do apóstolo Paulo. O qual era por eles frequentemente apontado como o 'homem mau' que lançou a cizânia no campo de Cristo.

Diziam ainda, que ele, Paulo, era de origem grega; mas que, tendo ido com alguns amigos judeus ao templo veio a arder pela filha de um sacerdote a ponto de circuncidar-se para poder desposa-la. No entanto como não pudera obter a mão da moça, encheu-se de ódio e pos-se logo a escrever contra a circuncisão, a dieta e o sábado.

Viviam pois como judeus, filhos de Abraão e discípulos de Moisés.

E por isso não viram com bons olhos a entrada dos gentios na Igreja e a ruptura da Igreja com a sinagoga.

Eis porque não dava a seus lugares de culto o nome de igreja mas de 'sinagoga de Cristo' (!!!)

E de fato ficaram entre a Igreja e a sinagoga; atraindo simultaneamente a ira dos Cristãos e dos judeus.

Os cristãos odiavam-nos - declara Renan - porque observavam rigorosamente a Lei de Moisés; enquanto os judeus odiavam-nos porque apresentavam Jesus como o verdadeiro Messias.

Segundo o já citado Jerônimo haviam ebionitas que guardavam em tudo a fé da Igreja; insistindo apenas a respeito da 'Lei'...

Enquanto outro grupo ensinava ter sido Jesus filho natural de José e Maria e que o Espírito de Cristo nele penetrou sob forma de pomba no momento do Batismo.

Diziam ainda ser o Espírito de Cristo um dos primeiros espíritos criados; juntamente com seu irmão gêmeo: Satanás; a Cristo teria sido entregue a posse do mundo futuro, enquanto que a posse deste nosso mundo havia sido confiada a Satanás; correspondendo tal atribuição a um decreto divino.

Outros aplicavam a Cristo e a Satanás a parábola dos dois irmãos. Cristo seria aquele que disse 'Não vou' mas que acabou por entrar no corpo do homem Jesus e proclamar a boa nova; enquanto Satanás seria aquele que disse 'Vou'; mas recusou-se a vir; sendo por isso mesmo precipitado dos céus...

Por via do Evangelho dos Hebreus, um original de S Mateus que eles em parte completaram e em parte corromperam, acabaram tais narrativas encontrando eco até mesmo nos Escritos de Taciano e Lactâncio.

Destarte para eles Jesus era um simples homem naturalmente gerado e o Cristo uma espécie de 'deus' constituído (E não verdadeiro por via de geração.) ou de líder dos anjos e arcanjos.

Outros dispensavam quaisquer atavios e ensinavam muito francamente que Jesus, o Cristo; não passava, a princípio de um 'homem ordinário' - isento de preexistência - ou do último e supremo profeta; o qual por sua santidade e íntima comunhão com Deus mereceu o título de Filho.

Cerca do ano 101, um de seus membros Elxai ou Elkasai apresentou-se como profeta. Segundo dizia fora enviado pelo verbo, um anjo gigantesco, do tamanho duma montanha; e por sua 'mãe' o espírito santo, outro anjo de proporções assombrosas... tal a vertente dos elkassaitas.

Ele anunciou o fim do mundo para 119, isto é para o terceiro ano após a guerra dos partos... apesar disto seu sucessor Alcebíades de Apaméia traduziu suas profecias para o grego e conquistou certo número de seguidores, dentre os quais Mani. Em 220, sob Calisto, uma versão latina apareceu em Roma...

Assim entre eles e entre suas seitas haviam grande divergência de opiniões, da 'Ortodoxia' ao 'arianismo' passando pelo gnosticismo... todos no entanto porfiavam em cumprir a Lei de Moisés e em viver sobriamente conforme a determinação de Nosso Senhor.

Ao tempo de Jerônimo e Epifânio eles ainda proliferavam na Péreia e na Batanéia e já haviam traduzido para o hebraico ou o aramaico o Evangelho de João e os Atos dos apóstolos...

De fato eles subsistiram até a chegada do Islã no século VII; quando suas 'sinagogas de Cristo' foram finalmente varridas da face da terra... juntamente com as seitas dos marcionitas, montanistas, docetas, arianos, etc

Reapareceu esta heresia nos tempos modernos sob a alcunha de 'judeus messiânicos' ou de 'judeus para Jesus' e reproduzindo os mesmo erros pestilenciosos.










domingo, 24 de fevereiro de 2013

As riquezas e Jesus

Por uma questão de honestidade convem jamais ocultar os pressupostos...

E colocar todas as coisas em pratos bem limpos.

Coisa supinamente desonesta seria disfarçar ou ocultar o teor dos dicursos daquele que encaramos não como simples emissário ou arauto mas como o mesmo Ser divino.

Então devemos saber e muito bem que os discursos de Jesus, embora não pertençam ao gênero de estudos que mais tarde receberam o nome de Economia, e que diz respeito a produção e distirbuição de bens materiais, nem por isto deixaram de abordar o problema das riquezas, que é um problema essencialmente econômico, numa perspectiva visceralmente distinta daquilo que convencionou-se chamar doutrina liberal.

Nem poderia Jesus deixar de abordar tal assunto na medida em que diz respeito a atividade humana, englobando a personalidade humana e as relações humanas. Nem poderia aquele que veio recuperar o homem como um todo por de lado qualquer aspecto pertinente a entidade ou ser que veio recuperar.

Eis porque enquanto o liberalismo através de seus profetas, proclama qual uma 'shahada' que o setor econômico é livre, autônomo e independente face a igreja ou a quaisquer imperativos de ordem ética ou moral e que a economia seja por assim dizer 'tão exata quanto a matemática, a física ou a química' e por assim dizer amoral.

Efetivamente a matemática, a física e a química, enquanto teorias não aplicadas e exatas, estão fora do úniverso ético dos principios e valores ou da moralidade, sendo de fato fenômenos amorais.

O mesmo se daria quanto a economia caso abstraissemos o elemento humano, cuja existência comporta uma dimenssão ética ou axiológica guiada por determinados principios e valores. Acontece que a economia é realizada por homens ou seja por seres cuja natureza é ética ou moral, e por seres que na produção e distribuição de bens materiais relacionam-se entre si uns com os outros.

Destarte não pode a economia situar-se no plano do amoral, mas apenas do imoral ou do anti ético na medida em que pleiteia colocar-se fora da esfera dos principios e valores ou subordinar tais valores as necessidades materiais e externas do mercado, apresentando-se a si mesma como fonte de tais principios e valores e como fator determinativo duma moral relativista inaceitável do ponto de vista do humanismo clássico, quanto mais do humanismo Cristão.

Efetivamente nem os socráticos nem os Cristãos poderiam convir com as pretenssões economicistas dos teóricos que proclamam a soberânia do mercado no terreno das relações que por serem humanas deveriam ser determinadas por principios e valores de ordem tanto mais elevada.

Perceba-se que por mais que os liberais e seus advogados infiltrados na instituição Cristão batam os pés que a um conflito insuperável entre as duas cosmovisões ou modos de encarar o mundo.

Pretende não só a igreja, mas o Cristo e o Evangelho, ou como queiram, a consciência Cristã, iluminar todos os setores da vida humana sem excessão e postular, como os simples teistas naturalistas postulam, uma ética médica, uma ética jurídica, uma ética política e uma ética econômica pautada em principios e valores universalmente válidos e irreformáveis enquanto expressões duma vontade ou lei divina. Postulam todos os humanistas até os confins do deismo a existência duma lei natural que se estenda a todos os setores da atividade humana e os Cristãos que essa mesma lei natural seja enriquecida pela graça de Cristo.

Conclue-se que em termos de capacidade ou atividade humana as pretenssões da Igreja ou melhor do Evangelho e da consciência Cristã sejam totalizantes ou holisticas. 'Nada do que é humano me é indiferente.' é frase que bem poderia ser posta na boca de Jesus Cristo... assim o discurso Cristão não contempla as pretenssões de autonômia absoluta revindicadas pelo economicismo de fundo materialista e ateu > Hayeck, Friemann, etc

Que Cristãos ou mesmo Católicos tenham forjado discursos incoerentes até o mais monstruoso hibridismo só serve para demonstrar até onde chegam os interesses econômicos engendrando infidelidades.

Já foi proclamado pelas autoridades da Igreja papista - e aqui com plena razão - (com forte eco nas Igrejas Ortodoxa e Anglicana) que a vida da Igreja ou a consciência Cristã é incompátivel com as exigências do liberalismo econômico. A igreja jamais admitiu a restrição dos economicistas que pretendem eles mesmos julgar a extenssão da consciência Cristã ou invés de serem eles mesmos julgados por ela.

Então eles se consideram a si mesmos como um padrão de verdade superior a consciência Cristã no domínio dos principios e valores ou seja no domínio da ética. E assim apresentam-se como fonte de principios e valores para a consciência Cristã... acontece que estes principios e valores são ditados pelas relações de produção e distribuição de bens materiais e no caso ditados por necessidades de ordem econômicas e relativas... Posto esta que os novos principios que os advogados do liberalismo pretendem impor a consciência Católica são de fundo naturalista, retalivista, materialista e ateu.

Não há como fugir disto.

Pretendem o liberalismo fiel ou prostituido (isto é pseudo Cristão) impor a consciência Cristãs principios expurios que estão em plena e frontal contradição com nossa fé.

Querem eles que sendo adoradores ou servos de Jesus Cristo e que encarando esse Verbo como nosso Deus e Criador admitamos que ele jamais pronunciou-se sobre questões de ordem econômica ou que, não passasse dum ignorante a respeito da matéria em questão e que caso tivesse abordado tais assuntos tivesse incidido em erro!!!

Agora veja que a doutrina economicista dos liberais bem pode ser aceita pelos arianos e unitários que encaram o Mestre amado apenas e tão somente como um instrutor elevado mas fálivel... não há real incompatibilidade entre o protestantismo moderno ou liberal e entre as seitas unitárias e o discurso economicista. O mesmo porém não se dá entre a fé da igreja Ortodoxa e Católica, nicena ou atanasiana e o discurso liberal, que ou mente cinica e descaradamente ou atribui erro a Jesus Cristo quanto a matéria em questão, insinuando que ao menos neste ponto Smith, Ricardo, Mises, Haieck e Friedmann foram mestres muito mais competentes do que ele.

Vejam até que ponto chega o discurso liberal em sua impudência???

Afirma em alto e bom som que aquele que não pode enganar-se nem enganar-nos falho miseravelmente ao abordar as relações econômicas porque não soube antecipar as desumanas e cruéis propostas da escola de Manchester ou da Escola austriaca...

Não fantasio este ensaio mas transcrevo a argumentação de um liberal, supostamente Ortodoxo, que terçou armas comigo a respeito da matéria, querendo a fina força impor as téses de Fridmann e outros a consciência e lei dos Católicos. Nosso homem em sua cegueira não hesitou em afirmar que todos os nossos pensadores, escolásticos e padres da Igreja, que precederam a heresia liberal, não passavam de verdadeiros idiotas em matéria de economia... diante de tão pouca reverência decidi recorrer imediatamente ao Evangelho e opor-lhe as palavras do Verbo; porque ele dissera - e mentira - que Jesus jamais abordara assuntos de ordem econômica...

Jamais pensará que os liberais fossem assim tão desonestos a ponto de ultrapassarem largamente seus êmulos comunistas...

Porque tantos quantos leram nossos Evangelhos sabem muito bem que Jesus não só referiu-se claramente a respeito das riquezas ou seja da produção e distribuição de bens, como manifestou-se claramente em sentido negativo face aos imperativos do liberalismo condenando-o inexoravelmente.

Dizem alguns liberais que é impossivel pintar Jesus como sendo um Comunista. Compreendida a dita expressão no sentido de membro do partido comunista ou como marxista ortodoxo posso até convir com ele pelo simples fato de Jesus Cristo não ter sido ateu ou materialista...

Direi no entanto, com o patriarca Revel - Nem Marx, nem Jesus - que para mim é modelo de probidade intelectual, que nem com milagre e rezas a tudo o que é Santo, seria possivel transmutar Jesus em liberal do ponto de vista econômico.

Aqui já não me importa o argumento podre dos liberais - que alias equivale a chover no molhado - mas apenas o fato inconteste de que Jesus nem batizou nem Crismou a hidra liberal...

Claro que eu sei e muito nem que neste ponto, que consiste em negar até a morte a existência de outra hipótese chamada socialismo, comunistas e liberalis se dão as mãos. Sujas e desonestas por sinal...

Folgam os comunistas em apontar todos os não comunistas como burgueses ou liberais e folgam os liberais em apontar todos os socialistas como comunistas e lacaios do partido vermelho.

Uns e outros recorrem 'dualismo binário' como a uma autêntica tabua de salvação. Que lhes permite repudiar formalmente a existência do humanismo Cristão ou Católico, com seus ideais de justiça e fraternidade... e nutrem verdadeira aversão pelos termos socialismo, fraternalismo, cooperativismo, mutualismo, personalismo, comunitarismo, georgismo, etc Que representam a continuidade dos ideais enunciados por Jesus Cristo, pelos apóstolos, pelos martires, pelos padres e pelos escolásticos da Idade Média até nossos dias a par dos sistemas materialistas rivais que são filhos um do outro. Refiro-me ao liberalismo e ao comunismo...

Então nós rebatemos a crítica e apresentamos um e outro como dois sistemas bastante solidários já pela origem recente, já pelo viez comum do materialismo crasso, já pelo ateismo dos principais teóricos, já pelos sofrimentos e dores com que acometeram a pobre e infeliz humanidade... e apostamos numa terceira via cuja raiz chega aos teóricos gregos Sócrates, Platão e Aristoteles; dos quais nós os Cristãos humanistas ou personalistas, por sucessão somos os legitimos herdeiros.

Na medida em que resistimos as pretenssões do discurso liberal e aos ataques lançados por liberais e comunistas a civilização tradicional e as culturas menos adiantadas, tendo em vista de apresenta-las ao grande público como uma alternativa plenamente má e de incompatibiliza-las face a cultura moderna.

Isto no entanto será profundamente discutido quando chegarmos a descrever e a julgar a Civilização Cristã, Católica e Ortodoxa de Bizâncio, que é tão pouco conhecida aos estudantes e mesmo aos pesquisadores ocidentais.

Cumpre aqui traçar já os termos da discussão e cortar passo a tantos quantos pretendam conciliar o Reino de Cristo com o Reino do dinheiro, do lucro e do mercado; pois são Reinos tão distantes quanto o céu da terra e o Oriente do Ocidente. Assim quem desejar ser cidadão de um não poderá ser cidadão de outro.

Nosso Reino é de certo modo a concretização daquela República idealizada pelo Filósofo e cujo fundamento é a mais estrita justiça. Nosso Reino é a cidade de Deus, supremo Legislador face ao qual devem ceder todas as vontades e ambições humanas. Então nossa família é a de Platão, de Jesus, de Agostinho e não a de Mises ou Fridmann.

São dois Reinos ou cidades rivais que haverão de conflitar e de chocar-se uma contra a outra. Que isto fique acento e bem claro aos falsos profetas.

Nem poderia uma Igreja ou crença que teve suas origens num autêntico mosteiro, perder suas raízes e converter-se; como disse Weber, em empresa nos moldes capitalistas. Isto aconteceu ao protestantismo e deveria acontecer facilmente porque ele condenou e destruiu os mosteiros

Mosteiros que serviam de exemplo e modelo a sociedade Católica moderando suas ambições e desejos. Uma Sociedade da qual desaparesçam por completo as instituições ascéticas estava mesmo posta para assistir ao triunfo do consumismo no mais alto gráu.

No entanto os mosterios foram derrubados e suas riquezas usurpadas. Assim, deixando de ser postas a serviço dos membros vivos de Jesus Cristo, converteram-se no lastro do capital econômico. E os pobres e os campônios, deixando de ser assistidos pelos monges, perderam suas terras comunais e tiveram de converter-se em operários... Tais foram as façanhas dum sistema que principiou pugnando contra as instituições mais sagradas do Cristianismo e que fez cambiar as energias do corpo Cristão das atividades humanitárias e divinas para atividades materiais e econômicas.

Tudo isto foi uma luta contra o Catolicismo e sua concepção orgânica e harmoniosa de vida. Esta luta ou conflito prossegue até hoje e mesmo o seio da igreja hodierna converteu-se já em campo de luta... e combatem a um lado aqueles que levam sua fé no Verbo até as últimas consequências e que aspiram por viver de modo coerente com a tradição e lei da Igreja e aqueles que desejam viver segundo a lei co liberalismo econômico repudiando na prática a vontade do Verbo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Jesus e as riquezas

Outro assunto bastante discutido diz respeito a posição de Jesus face aos fundamentos da economia moderna que é o acumulo irrestrito de bens materiais ou de riquezas, como costumam dizer.

Sintomática é a narrativa do jovem rico, o qual sendo gentilmente convidado pelo Mestre a declinar de suas riquezas materiais para tomar posse das verdadeira riquezas imateriais, optou por permanecer ligado ao gênero de riquezas que possuia...

Hoje multiplicam-se os jovens ricos que recusam-se a tomar o jugo da vida moderada no serviço do Mestre.

Já no terreno das parabolas ou comparações damos com o rico Finéias, nababo que todos os dias regalava-se com toda sorte de iguarias, enquanto a sua porta, os pobres, a exemplo de Lazaro, definhavam... e diz o Evangelho, que morrendo o rico foi castigado, enquanto que o Lazaro foi recompensando por sua paciência...

Daí a sentença: É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus.

Como parte da Cristandade considerou esta palavra inaceitável, alteraram sua estrutura e forjaram interpretações capiciosas e torno de camelos e de buracos nas paredes das muralhas...

Apesar disto corda jamais passa pelo fundo da agulha e rico jamais entra no reino dos céus...

Com Lazaro e o jovem rico 'cegos guias de cegos' passam os opulentos as zonas tenebrosas do mundo espiritual onde muito haverão se sofrer e penar.

Pois violaram descaradamente o mandamento do Senhor: Não acumuleis tesouros na terra onde a traça e a ferrugem tudo destroem, antes juntai tesouros nos céus...

Todavia, para tanto é necessário delapidar as 'riquezas iniquas': dando de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestindo os nus, abrigando os desabrigados, remindo os cativos, etc

O fruto de tais prodigalidades sera uma hoste de amigos no mundo espiritual, dispostos a acolher-nos benignamente nos 'tabernáculos eternos'.

Aqueles que com a graça de Cristo triunfam da avareza merecem ser contados entre os espiritualmente pobres dispostos ao Reino dos céus.

Aqueles que cogitam em servir a dois senhores, isto é a Cristo Jesus e as riquezas materiais, separam-se da verdadeira videira e tornando-se ramos secos são dispostos ao 'fogo' ou a dor no plano espiritual.

Pois conservando a mentalidade materialista no mundo espiritual haverão de experimentar certo desconforto.

Diante de tais sentenças e palavras não há como sustentar a opinião dos liberais segundo a qual o Evangelho desconsidera os problemas de ordem econômica.

Muito pelo contrário delas resulta muito claramente que Jesus pretendeu exercer juizo a respeito de como os homens obtem e administram tais riquezas, subordinando o econômico a outras finalidades e recusando-se a reconhecer sua autonomia nos moldes do liberalismo clássico.

Então já nos deparamos com uma oposição declarada e insuperável entre o modelo Cristão que é um modelo vida e um modelo integral que pretende atingir todos os aspectos da condição humana e o modelo liberal que supõe um esquema compartimentado de existência.

O Cristianismo Católico no entanto é irredutivel face a 'compartimentação da vida em setores radicalmente separados ou isolados' compartimentação que classifica, a luz do Evangelho, como artificial e perniciosa.

Considera a filosofia Católica que todos os setores e aspectos da vida devem estar unidos entre si pelo aspecto da promoção humana ou do bem comum.

Do contrário não mereceria o Cristianismo ser contado entre os humanismos.

Cristo no entanto encarnou-se para redimir o homem como um todo. Eis porque a Redenção cristã não deve ser encarada como uma espécie de meia redenção que toca apenas ao elemento imaterial ou espíritual.

Mas apresentada nos termos duma redenção total que veio remir o homem como um todo ou seja como espírito, alma e corpo.

Eis o que faz o Catolicismo encarar todas as dimenssões da atividade humana não só como organicamente correlatas mas como coordenadas por um eixo de natureza transcendente chamado ética. Segundo esta concepção integralizante de vida a origem dos principios e valores que regulam as ações e operações humanas procede em última instância da vontade divina e não do mercado ou de suas necessidades, correspondendo a uma Lei universal absolutamente valida e verdadeira.

Posto esta que as necessidades do mercado correspondem a uma ética relativista imcompátivel com o sentir da Igreja e com a Consciência Cristã, consciência que vive e que se nutre de principios e valores que deitam suas raizes no mundo espíritual e eterno; para além de todas as cogitações relativas da vontade humana.

Eis porque a igreja, na esteira de seu divino Mestre e fundador condena as prentenssões dos teóricos do liberalismo como autênticas expressões dum economicismo em choque contra o humanismo sempre sustentado por ela no decorrer das Eras e idades. De fato pretende a Igreja Católica julgar os interesses do econômico e subordina-lo a outros interesses os quais encara como tanto mais nobres e importantes.

O liberalismo econômico em contrapartida rebela-se contra o espírito da Igreja a qual pretende - por sinal como filho do protestantismo que é - julgar e condenar como obscurantista. Deve a Igreja, a exemplo de seu Mestre e Senhor, folgar neste juizo porque partindo do liberalismo econômico equivale a um elogio... ferreteia o liberalismo econômico a Igreja porque esta tem recobrado o antigo ideal de redimir o homem como um todo sem olvidar de seu corpo e de suas necessidades materiais.

Na medida em que afirma certos direitos como inerentes a pessoa e certas necessidades como inerentes ao homem, exigindo que sejam satisfeitas sem consideração pelas necessidades artificiais do mercado, incompatibiliza-se a Igreja de Cristo com a lei do capitalismo. Pois o deus do liberalismo que lhe dita leis é o Mercado... e as necessidades do mercado são indiscutiveis...

Ignoram os teóricos liberais que o mercado foi criado pelos homens e não os homens para o mercado.

A existência humana possue um significado muito mais elevado do que lhe atribui o materialismo economicista seja ele liberal ou comunista. Presume a igreja que a condição humana não cabe nos moldes estritos do econômico, ficando sempre algo de fora como que sobrando...

Daí a linguagem diferente pois enquanto o liberalismo soi competição entre rivais e competição que na maioria das vezes foge aos padrões da justiça a Igreja propõe outro regime, de colaboração ou de auxilio mutuo entre irmãis, entre irmãos que se amam e respeitam e sobretudo entre irmãos que veneram o principio comum da justiça antes de chegar a caridade. Pois caridade sem justiça, como escreveu Tomás, é pura e simples hipocrisia: fermento de fariseus.

Resta dizer que a doutrina proposta por Jesus Cristo a respeito o acumulo de bens materiais esta de pleno acordo com a doutrina proposta por:


  • Confúcio:  "O homem que só se ocupa em comprar e vender é um mediocre."
  • Platão: "Jesus plagiou a máxima platônica: 'É impossivel que um homem muito rico seja virtuoso.'"
  • Sócrates: "Quantas coisas a respeito das quais o homem não precisa para viver oh atenienses."
E por todos os educadores, pensadores e filósofos da antiguidade.

Obviamente que nem Jesus nem tais pensadores propunham a carência, a miséria ou a necessidade - como insinuam malevolamente os liberais - como ideais para o comunidade ou para a pessoa humana.

Julgo que toda pessoa medianamente instruida tenha lido o "Robson Cruzoé" de Defoe.

Pois bem, logo nas primeiras páginas damos com o sábio discurso proferido pelo pai de Robson, contra o acumulo excessivo de riquezas e a favor da vida sóbria e moderada.

Semelhante discurso foi cunhado justamente na filosofia de vida proposta por Confúcio, Sócrates, Jesus e outros sábios mestres... consiste ele em suster que o homem deve buscar para si e para sua família o suficiente para que vivam ao abrigo da miséria e até mesmo com certo conforto. Sem cogitar no entanto a acumular para toda geração futura ou como se seu destino final estivesse posto exclusivamente aqui no mundo material e finito, ou como se tivesse que viver eternamente neste plano...

Eis porque deve o homem contentar-se em grangear uma vida digna e comoda para si e os seus e não em cobiçar uma fortuna que não conheça limites e que absorva todos os seus cuidados a ponto de faze-lo deixar de viver integralmente por deixar de cultivar todas as potencialidades do seu ser, como o intelecto e o sentimento.

Na verdade o discurso do pai de Robson sobre as ocupações excessivas do homem rico, que deixa de ser senhor de seus bens para tornar-se servidor dos mesmos, já havia sido antecipado por Paulo de Tarso, o qual assim se exprime numa de suas epistolas: "Buscai viver dignamente com aquilo que possuis sem cobiçar ilimitadamente pois a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro."

Não diz ele que a raiz dos males seja o próprio dinheiro, como não dizem os sábios que a pólvora ou a faca sejam coisas más. Alude apenas ao uso ou abuso que se faz do dinheiro como da faca, da pólvora e de tantas outras coisas e instituições... abuso é o apego excessivo ao dinheiro ou a busca desordenada por bens de natureza material. Abuso é o 'amor' ou a estima ao dinheiro, o qual por assim dizer obscurece valores como a solidariedade e a justiça e subverte a condição humana tal e qual foi disposta pela Lei universal.

Implica a proposta de Jesus a respeito do acumulo irrestrito de bens materiais o primado do Ser sobre o ter, que é a viga mestra daquilo que classificamos como humanismo. Implica ela em reconhecer a existência de principios e valores superiores aos de natureza material ou econômica e em afirmar outros tipos de existência que transcendem a aquisição e distribuição de bens materiais como sejam o bem, o verdadeiro, o belo, enfim o ideal de que vivem a ética, a arte, a poesia, a ciência, e outras dimenssões mais elevadas de nossas faculdades.

Implica a aceitação de tais capacidades e faculdades na negação do economicismo crasso proposto nos termos do liberalismo e representado pela ditadura do capital e pelas necessidades soberanas do mercado. Ora Jesus, e todos os pensadores da antiguidade estão em oposição a este novo 'modus vivendi' peculiar a Idade contemporânea.

Que isto choque muitos daqueles que sustentam o sistema vigente é absolutamente natural. Por outro lado, para tantos quantos são capazes de perceber ou de captar a tensão existente entre as estruturas materiais de produção que caraterizam este nosso tempo e a própria sociedade econômica; e entre os principios e valores pertencentes ao domínio do ideal e que por isto mesmo tornam-se presos duma angústia cada vez mais intensa, para não falarmos em melâncolia ou mesmo em agônia invencivel, verificar que o posicionamento de Jesus e de tantos outros mestres antigos choca-se com este estado anômalo de coisas traduz-se numa vivificação das esperanças.