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terça-feira, 6 de novembro de 2018

CIX - S Inácio de Antioquia - Cartas

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Inácio, o 'Teóforo', foi o terceiro Bispo de Antioquia, após o santíssimo Pedro e o abençoado Evódio. (Orígenes e Eusébio) Segundo a legenda pia teria sido ele o menino levado ao Senhor quando disse: Deixai que a mim venham os pequeninos...

Segundo alguns - Constituições Apostólicas 'Inácio de Paulo' - fora discípulo de S Paulo. Segundo outros fora discípulo de S João e companheiro de Papias e Policarpo, ao qual consta ter enviado uma de suas cartas. Teodoreto de Cirro esclarece que S Pedro, antes de prosseguir sua jornada em demanda de Roma, havia determinado expressamente que Inácio sucedesse a Evódio.

"A tradição refere que foi enviado da Síria a Roma para ser lançado as feras, por causa do testemunho pelo Cristo. E enquanto seguia a carreira da Ásia, sob a atenta vigilância dos guardas, ia exortando as Igrejas porque passava com suas cartas." é o que diz Eusébio na 'História'.

O mesmo Eusébio na Crônica, declara que isto acontecerá no décimo ano de Trajano ou seja cerca do ano 107 ou 108 desta Era, o que é repetido por Jerônimo de Stridon nos 'Homens ilustres da igreja' sessão décima sexta. Jerônimo afirma igualmente ter sido ele lançado aos leões e S Crisóstomo alude ao Coliseu ou ao anfiteatro Flavio como ao lugar em que sua sentença foi cumprida. O synaxiarum da Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria declara que ele foi lançado as feras e que estas o fizeram em pedaços...

O Codex Colbertinus de Paris (Sec X) contém as supostas atas de seu Martírio, consideradas genuínas por James Usherius, mas certamente interpoladas e inexatas. A cena mais famosa é a de seu interrogatório pelo próprio Trajano, um Loci common, quanto a este tipo de literatura.

Muito provavelmente, esta circunstância, de ter sido deportado, significa que Inácio estava envolvido em algum tido de conflito com outras comunidades Cristãs. Tendo sido condenado como um perturbador da paz pública. Allen Brent

Segundo o já citado 'Heródoto' Cristão, o 'Teóforo' ou portador de Deus "Estando em Esmirna escreveu uma carta a Igreja de Éfeso; onde nomeia seu pastor Onésimo; outra a Igreja de Magnésia sobre o meandro e a seu Bispo Damas; outra a Igreja de Trales e a seu líder Políbios, além destas escreveu a Igreja dos romanos... dirigiu por fim, longe de Esmirna, de trôade, escreveu aos Cristãos de Filadélfia, a Igreja de Esmirna e a seu presidente Policarpo, que ele reconhecia como homem apostólico...."

Tal o cânon de Inácio transmitido por Eusébio: Carta aos efésinos, aos de Magnésia, aos de Trales, aos romanos, aos de Filadélfia, aos esmirniotas e a Policarpo. Num total de sete cartas. "As quais tem uma importância incalculável para a História do Dogma." diz o patrólogo J Quasten

Ressentem, as cartas de Inácio, dupla influência, paulina, preponderantemente; e joanina (F Bleek - 1862). Osterzee (1866) alega que Inácio emprega expressões que existem apenas no quarto Evangelho. Holtzmann que era terminante quando a Hermas e Barnabé, silenciou a respeito de Inácio. Plummer em 1887 insistiu a respeito das cartas de Inácio conterem alusões a João, ausentes nos demais padres apostólicos. Em 1889 Ligthfoot declarou que Inácio conhecia o Evangelho de S João, embora sua dinâmica fosse paulina. Westcott admitiu que sem dúvida estava a par do pensamento joânico. No mesmo ano o biblista T Zahn apontou a familiaridade existente entre o epistolário inaciano e a primeira carta de S João. Em 1895 H Boese e C Pesch chegam por meios diversos a conclusão de que Inácio conhecia o quarto Evangelho. Em 1897 Harnack pronunciando-se a contragosto declara ser improvável mas de modo algum impossível que Inácio conhece a literatura joanina. Respondeu-lhe Loofs no ano seguinte declarando que Inácio não só conhecia o quarto Evangelho como estava bastante familiarizado com a teologia joanina, o que já havia sido exaustivamente demonstrado por Van der Goetz alguns anos antes. Por fim em 1899 Cammerlynch conclui pela plausibilidade de Inácio ter tido conhecimento do quarto Evangelho recebendo o apoio de H R Reinolds.

É o primeiro autor Cristão e insistir a respeito da dignidade episcopal e o primeiro a mencionar os presbíteros, dignidade recém criada, como estamento clerical separado do episcopado e subordinado a ele. Para Clemente de Roma, dez anos antes haviam apenas diáconos e presbíteros, os quais eram, na verdade, os Bispos. Como os primeiros Bispos haviam convivido com o Senhor ou com os apóstolos tomaram o nome de presbíteros ou antigos, ou anciões, a exemplo da Sinagoga. Quando a maior parte destes já havia falecido, os diádocos criaram uma outra dignidade, inferior ou restrita, outorgando-lhe o nome de presbiterato e atribuindo o termo episcopado, com exclusividade, a autoridade suprema estabelecida por Jesus Cristo e conferida pela sucessão apostólica.

Em 1886 o sectário presbiteriano W D Killen - seguindo a tradição de seu mestre João Calvino (Institutas I,13,29) e da maior parte dos assim chamados reformadores - alegou que nenhuma das cartas de Inácio era autêntica, mas que todos haviam sido falsificados, e adivinhem por quem??? Pelo Bispo de Roma Calixto, o qual sequer era papa... Para este autor Calixto passou-se pelo mártir Inácio com o objetivo de justificar, sua invenção, o episcopado monárquico. Isto teria acontecido cerca de 220 d C e portanto até aquela data vigorado o sistema presbiteral.

No entanto, como veremos, todos os doutores posteriores a Inácio, assim Hegesipo, Irineu e Tertuliano, etc seguirão a mesma linha que ele. Insistindo a respeito da sucessão apostólica dos Bispos como fundamento pétreo da verdadeira Igreja. Todos os autores citados escreveram antes de 220... tendo Irineu falecido cerca de 205 ou 215, Hegesipo escrito em 170 ou 180 e Tertuliano desde 195...

No mais, basta dizer que duas das cartas de Inácio foram textualmente citadas por Orígenes - In Luc VI,04 - pelos idos de 220 e antes dele por Irineu no Livro contra as Heresias V,28,04, o qual remonta a 180. O próprio Policarpo na Carta aos de Filipos - 130 - prontifica-se a enviar-lhes, segundo haviam solicitado, a coleção das cartas de Inácio enviadas das Igrejas. Foram ainda empregadas, posteriormente, por Atanásio, Crisóstomo, Teodoreto e Severo, bons conhecedores da lingua grega e das tradições, com absoluta segurança.

Diante disto os críticos, movidos por preconceitos religiosos, tiveram de questionar não apenas a autenticidade de Orígenes, mas mesmo de Policarpo, e pasmem, de Eusébio i é da História Eclesiástica. Segundo eles, esta corresponderia a uma falsificação e aquelas a interpolações... Dado que - em 107 - o episcopado 'NÃO PODERIA existir.', ou seja, porque não esta de acordo com suas teorias prediletas...

A respeito das Cartas de Inácio há três versões. Uma ampliada, constando de dez cartas. A versão intermediária, encarada como autêntica - Um dos principais defensores da autenticidade foi o Bispo J B Ligthfoot -  pela maior parte dos estudiosos e uma versão resumida editada pelo Dr Cureton em 1845.

Feitas estas observações passo a resenha doutrinal da obra:


  • Trindade excelsa - "Assim portadores sois de Deus, do Cristo e do Espírito Santo." Efésios IX "Na fé, no amor, no Filho, no Pai, no Espírito Santo..." Magn XIII,01
  • Encarnação do Verbo - "Assim nosso Deus Jesus Cristo, segundo a economia do Pai, habitou o seio de Maria, procedendo de Davi e do Espírito Santo." Efésios XVIII "Fora do tempo, atemporal, invisível, mas que se tornou visível para nós, sendo impalpável e impassível se tornou palpável e passível a ponto de poder sofrer por nós." Policarpo III,02 "Caso blasfeme contra seu Senhor, declarando que não se encarnou. Aquele que ousa faze-lo o arrenega de todo e faz-se portador da morte." Ismirn V,02
  • Natureza divina do Cristo - "Segundo a fé e a caridade em Nosso Senhor Jesus Cristo imitadores sois de Deus." Efésios I,01 "Constatei assim que sois imitadores de Deus." Tral I,02 "Jesus Cristo estava com o Pai antes dos séculos e por fim se manifestou."  Magn VI,01
  • Natureza humana de Cristo - "Sede surdos quando não vos anunciarem a Jesus Cristo filho de Davi, nascido de Maria, o qual nasceu, comeu, bebeu, foi condenado sob Pôncio Pilatos, que verdadeiramente foi crucificado e morreu a vista do céu, da terra e dos abismos..."  Tral IX,01 "Os incrédulos e ímpios declaram que ele sofreu apenas aparentemente." Tral X,01 "Ele sofreu verdadeiramente e verdadeiramente ressuscitou, não apenas na aparência como dizem os incrédulos." Ismirn II,01 "Sei e creio que mesmo após a ressurreição conservou a carne... Assim após a ressurreição comeu e bebeu junto com eles como ser de carne embora já na unidade do Pai." Ismir III,01 sgs "Instruo as igrejas na Unidade na carne e no espírito de Jesus." Magn I,02
  • A unidade das duas naturezas - "Há um só médico carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, antes passível e agora impassível." Efésios VII,01 "Filho do homem e Filho de Deus." Efésios XX,02
  • Comunicação de Bens - "SANGUE DE DEUS." Efésios I,01
  • Nascimento do Senhor - "Ao poder deste mundo ficou oculta a Virgindade de Maria e seu parto." Éfesios XIX,01
  • Batismo do Senhor - "O Senhor foi batizado para santificar o elemento da água." Efésios XVIII
  • O Evangelho - "Convém seguir os profetas, mas acima de tudo o Evangelho no qual a paixão é mostrada e a ressurreição testificada." Ismirniotas VII,02
  • A Sucessão apostólica - "Assim aquele que é o dono da casa administradores envia para chefia-la e é necessário que nos recebamos a eles como se fossem a pessoa que os enviou." Efésios VI,01
  • Hierarquia eclesiástica - "Sem eles, diáconos, presbíteros e bispos não há Igreja." Tral III,01 "Não pode haver cabeça sem membros ou membros sem cabeça e Deus mesmo é o fiador desta Unidade."  id XI,01
  • O Bispo - "A fim de que congregados na mesma obediência e submissos ao Bispo e ao presbítero santificados sejais em todas as coisas." Efésios II,02 "Jesus Cristo vida nossa é inseparável do pensamento do Pai, tal e qual os Bispos, estabelecidos por toda terra são inseparáveis do pensamento de Cristo." Id III.02
  • Igreja eterna - "A Igreja que foi grandemente abençoada com a plenitude de Deus Pai predestinada foi antes dos séculos para subsistir para sempre e reter uma glória que jamais passa." Efésios I,01
  • Igreja Incorruptível - "Como sinal de incorruptibilidade de sua Igreja." Efésios XVII,01
  • Igreja Católica - "Onde esta o Bispo esta a Igreja Católica." Ismirniotas VIII,02
  • Unidade da Igreja - "Indispensável é a unidade sem fragmento a fim de que em Deus estejais." Efésios IV,02 "Nada que seja feito isoladamente pode ser digno de louvor. Pelo contrário congregai-vos em comum." Magn VII,01 "Tudo quanto fiz pude pela causa da Unidade uma vez que não pode Deus habitar onde haja divisão e cólera." Filadelf VIII,01 "Fugi as divisões que são raiz de todo mal." Ismirn VII,02 "Preocupa-te com a unidade, pois nada há de mais excelente." Policarpo I,02
  • Livre arbítrio - "Orai por todos os homes pois a possibilidade de conversão." Efésios X,01
  • A graça do Senhor - "Fora dele nada tem valor." Efésios XI,02 "Todo laço de iniquidade quebrado foi quando nosso Deus apareceu em forma de homem." Id XIX,03 "Ele tudo suportou por nossa salvação." Ismirn II,01 "Na graça dispostos estais para fazer qualquer boa ação diante de Deus." Policarp VII
  • Sinergia - "São ambas de Deus e nossas e sucedidas pela santidade e pela perfeição." Efésios XIV,01"Caso vocês desejem fazer o bem Deus sempre estará disposto a vos ajudar." Ismirn XI,02 "É obra de Deus e vossa." Policap VII "Reabilitados pelo sangue de Deus realizais até o fim a obra que convém a vossa natureza." Efésios I,01
  • Necessidade de obras (ao menos 'a posteriori') - "Que sejais reconhecidos por vossas obras." Efésios IV,02 "Pessoas há que falsamente portam o 'nome' mas procedem de modo diferente e indigno de Deus..." Id VII,01 "Que por vossas obras eles se tornem discípulos nossos." Id X,01 "Melhor calar e ser do que falar e não ser bom..." Id XV,01 "Tudo façamos como se ele habitasse dentro de nós, como em templos seus." Id XV,03 "Não basta portar o nome Cristão, é necessário se-lo de fato." Magn IV,01 "Que vosso depósito sejam as obras e que possais retirar as somas a que fazeis jus." Policarp VI,02
  • A perseverança como impulso que parte do homem - "Caso nele perseverarmos e evitando as ameaças do mal." Magn I,02
  • O mérito - "Caso ameis apenas os bons discípulos mérito algum tereis." Policarp II,03 "Mesmo as coisas que no dia a dia realizais são espirituais se as realizais em Cristo Jesus." Efésios VIII,01
  • Acessibilidade a perfeição: "Quem professa a fé não peca, quem esta no amor não odeia e assim pelos frutos se conhece a árvore. Os que alegam em Cristo estar são reconhecidos por suas boas obras." Efésios XIV,02 "Não podeis realizar as coisas da infidelidade nem os da infidelidade as coisas da fé." Efésios VIII,01
  • O solifideismo (falsa doutrina) - "Aqueles que tem opiniões estranhas sobre a graça de Cristo, não cultivam o amor, não se preocupam com o órfão, o estrangeiro e a viúva e desprezam o prisioneiro, o liberto, o faminto e o sedento." Ismirn VI,02
  • Sacramento do Batismo - "Sem o Bispo não é permitido Batizar ou celebrar o ágape." Ismirn VIII,02 "Vosso Batismo vos sirva de escudo." Policarp VI,02
  • Sacramento da Eucaristia - "Anseio apenas pelo pão de Deus que é a carne de Cristo e quero beber apenas de seu sangue, prova de amor inexaurível, pelo que não sinto prazer nos alimentos comuns." Rom VII,03 "Há na Eucaristia uma só carne de Cristo e um só cálice do elemento de seu sangue." Filadelf IV,01 "Eles repudiam a Eucaristia porque não podem crer que a Eucaristia seja a carne de nosso Redentor Jesus Cristo..." Ismirn VII,01
  • Sacrifício eucarístico - "Achegai-vos do único templo de Deus e do único ALTAR e do único Senhor Jesus Cristo." Magn VII,01 "Um único ALTAR assim como um só Bispo." Filadelf IV "Quem não esta junto ao ALTAR privado esta do Pão de Deus." Efésios V,01 "Quem esta dentro do santuário puro é, mas aquele que permanece do lado de fora é imundo i é aquele que procede sem Bispo, presbitério ou diácono." Tral VII.02
  • Sacramento do Matrimônio: "Convém que aqueles homens e mulheres que se casem, efetuem sua união com assentimento do Bispo de modo que sua união seja feita no Senhor e não na carne apenas." Policarp V,01
  • A Santa e vivificante Cruz - "Somos guindados pela alavanca da Cruz." Efésios IX,01 "(As ervas daninhas) não são ramos de sua cruz." Tral XI,01 "Pela Cruz, Cristo vos chama a sua paixão, como membros dela que sois." Id, id "Como pregados em carne e espírito a Cruz de Cristo." Ismirn I,01
  •  A imortalidade da alma - "Meu espírito imola-se por vós, não apenas agora, mas quando a Deus chegar." Tral XIII,03 "Não me impeçais de viver, não queirais que morra eu, não me prendais a este mundo, não tenteis seduzir com a matéria quem tem sede de Deus. Deixai que eu receba a luz pura, pois quando lá tiver chegado serei pleno... corre dentro de mim uma água viva que murmura: Vem para teu Pai." Rom VI,02 sgs
  • Ressurreição da carne - "Antes exercessem o amor ao invés de disputar e talvez assim obtivessem acesso a boa ressurreição." Ismirn VII,01
  • O celibato - "Se alguém pode permanecer na castidade, para a glória da carne do Senhor, permaneça também humilde." Policarp V,02 Alude ainda as 'Virgens que são viúvas.' em Smirn XIII.01
  • Adoração Dominical - "Aqueles que viviam na antiga ordem das coisas, tendo chegado a uma nova esperança, não observam mais o sábado mais o dia do Senhor, no qual nossa vida levantou-se por meio dele, da morte." Magn IX,01
  • As heresias - "Aqueles que para granjear fama, misturam Jesus Cristo, consigo mesmos são como aqueles que misturam vinho licoroso com veneno mortal." Tral VI,01 "Os lobos tem afastado muitos da unidade. Apartai-vos destas ervas daninhas que Jesus Cristo não plantou porque elas não pertencem a seu Pai... E aquele que caminha em ensinamentos estranhos, não tem parte na paixão do Senhor." Filadelf II,02/III,01 e sgs
  • Os judaizantes: "Tolice ter Cristo na boca e judaizar. Não foi o Cristianismo que acreditou no Judaismo mas o Judaismo que acreditou no Cristianismo." Magn X,03 "Se alguém vos interpreta judaismo, não creiais pois é melhor ouvir o Evangelho de um circunciso do que a Torá de um incircunciso." Filadelf VI,01
  • Ética, o amor - "O começo é a fé, o fim é o amor." Efésios XIV,01
  • Ética, a paz - "Coisa valiosa é a paz." Efésios XIII,01
  • Ética, a mansidão - "Diante da ira sede mansos... e da ferocidade pacíficos." Efésios X,02
  • Ética, a humildade - "Face ao orgulho permanecei humildes." Id,id     


CVIII - S Clemente de Roma - Carta aos coríntios











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Klemandros, Klimet ou Clemente é identificado por Orígenes com o Clemente citado por Paulo em Fil 4,3 - Onde um certo Clemente é citado como colaborador seu - o que é corroborado por Eusébio.

S Irineu assevera que Clemente de Roma havia sido ouvinte dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Tertuliano na Praescr XXXII opina que Clemente fora sagrado Bispo de Roma por S Pedro e S Epifânio esclarece que Clemente, abriu mão da liderança em favor de Lino. 

Segundo se crê era parente dos Imperadores Vespasiano, Tito e Domiciano e membro da família Flavia. Dión Casio 'Hist Rom' LXVII,14 Batizado por S Pedro foi acusado de iniciar-se na religião dos judeus, o que produziu escândalo na Sociedade de seu tempo.

Foi ele que, graças a seu prestígio, unificou as comunidades rivais, petrina e paulina da cidade de Roma. Pois Pedro constituira por sucessor a Lino de Volterra e Paulo a Anakletos, os quais, segundo S Epifânio e S Rufino foram simultaneamente Bispos dos romanos.

Além disto Clemente teria convertido os nobres Sisino e Teodora, e cerca de quatrocentos cidadãos romanos. Foi o quanto bastou para Trajano bani-lo para as minas de cobre de Galipoli na Crimeia. No entanto como continuasse a exercer proselitismo e a converter os mineiros, a ponto de criar uma Igreja subterrânea. Diante disto o procônsul mandou atira-lo ao Mar Negro com uma âncora ou pedra de moinho atada ao pescoço. Isto deve ter ocorrido por volta do ano 100.

Clemente de Alexandria e Orígenes atribuem-lhe explicitamente a carta aos Coríntios. A qual tendo sido escrita por volta do ano 96 constitui o mais antigo testemunho escrito a respeito da fé Cristã escrito após as obras canônicas e a Didaké, se bem que esta fosse obra anônima e conjunta. A primeira carta de Clemente aos Coríntios é a primeira obra assinada e unitária composta após os escritos que formam o corpo do Novo Testamento. Curiosamente a Revelação e quiçá a forma definitiva do quarto Evangelho são posteriores a obra de Clemente, a qual seria contemporânea aos Escritos inspirados, o que lhe confere um valor excepcional.

Em torno da figura de Clemente romano foi elaborada imensa massa de material, em grande parte fabuloso, chamada 'literatura clementina' - assim os 'Reconhecimentos' (recognitiones) e as Homilias. São ambas recensões de uma obra bem maior cujo núcleo corresponde talvez ao 'Kerygmata Petrou' e se foi avolumando e sendo reelaborado até o começo do século IV. O original deve ter sido elaborado na Palestina ou na Síria por volta da secunda parte do século II. Os ebionitas achavam-se em posse de uma versão pelos idos do século IV segundo foi constatado por Epifânio, Jerônimo e outros. A versão que possuímos foi elaborada por um ariano pelos idos do século IV. Outros supõem que houve um original ortodoxo sucessivamente interpolado pelos heréticos.

Reconhecimentos é uma espécie de novela mexicana em que pai, mãe e filhos; separados desde que estes eram crianças tornam a encontrar-se devido a mediação de S Pedro. São Pedro, a seu tempo, é apresentado como antagonista de Simão, o Mago; o qual passa a seguir de cidade em cidade, de Jerusalém a Antioquia. Muito provavelmente o curso da obra fazia Pedro seguir Simão até Roma, terminando com a famosa cena em que é elevado aos céus por obra de magia e derrubado, diante de Nero, pelas orações de Pedro e dos cristãos...

As Homílias concentram-se na exposição da doutrina.

Não é possível dizer se há ou o que há de autêntico nessa massa de literatura, embora nos pareça exagerado classifica-la como fictícia por inteiro. A única coisa de certa é que sob a forma atual não pode ter sido elaborada por Clemente romano.

Feitas as devidas apreciações bio bibliográficas passo a resenha da obra:



  • I,02 - Obras: "Vossa fé era firme e cheia de todas as virtudes... Vocês procediam sem fazer acepção de pessoas, conforme as ordenações divinas... II,01: "Vocês guardavam zelosamente as palavras dele em vossos corações e os sofrimentos dele estavam sempre diante de vossos olhos... II,03 Repletos de santa resolução e ânimo para todo bem."...II,07 "Jamais vos arrependestes de ter feito o bem 08 ...os preceitos e estatutos do Senhor estavam gravados em vossos corações." XIII,03 "Firme-mo-nos em tais mandamentos e preceitos; e com humildade nos submetamos a suas palavras."
    XXI,01 - XXI,08 - XXXII,01 - XXXIV,01 - XXXVII,02
  • Amor - "Quem diz ter o amor de Cristo observe os mandamentos de Cristo." XLIX,01 "Sem amor nada pode agradar a Deus." 05 "O amor é coisa divina e divina e seu valor transcende as nossas palavras." L,01
  • Justificados para as obras: "Assim os que pela fé justificados foram sejam adornados com boas obras a exemplo do Senhor." XXXIII,07
  • Virtudes - Benevolência, mansidão e humildade. XXX,08 Justiça, verdade, paciência, concórdia e paz. LXII,02
  • Solidariedade: "Sejamos bons uns para com os outros conforme a piedade e a ternura daquele que nos fez." XIV,03 "O que possui algo assista o pobre e o pobre a Deus agradeça por este se servir de alguém para aliviar suas necessidades." XXXVIII,01 "Associe-mo-nos aos santos porquanto os que deles se aproximam tornam-se santos." XLVI,02
  • A Perfeição: "Aproxime-mo-nos dele pela santidade da alma e lhe estendamos as mãos puras e sem mancha." XXIX,01
  • Fideísmo: "... A vossa fé se obscureceu. Porque não anda mais segundo as diretrizes de seus preceitos, SEM SE COMPORTAR DE MANEIRA DIGNA." III,04
  • I,03 - Hierarquia: "Submissos aos líderes e prestando aos presbíteros que estavam convosco as honras devidas." "Os grandes não existem sem os pequenos nem os pequenos sem os grandes, em tudo há uma mistura, e isto procede da necessidade. Tomemos o nosso corpo - A cabeça não se pode locomover sem os pés e os menores membros são necessários a saúde do corpo inteiro. Todos convivem em mútua submissão para consolidar a saúde de todo corpo." XXXVII,04 e sg "Coisa horrenda e indigna da conduta Cristã saber que a sólida e veneranda Igreja de Corinto por causa de um ou dois elementos ousou levantar-se contra seus presbíteros. Tais rumores não chegaram apenas até nós mas até mesmo aos contrários e assim graças a vossa tolice é injuriado o nome do Senhor com grande perigo para vós!" XLVII,06 "Vós que lançastes os fundamentos da rebelião, submetei-vos aos presbíteros e deixai-vos corrigir com o arrependimento dobrando vossos corações." LVII,01
  • II,06 - Cismas e divisões: "Toda briga e divisão eram abomináveis para vós." "Brigas, ódios, disputas, divisões e intrigas, nada disto é necessário." XLVI,02 "Assim por que rasgamos e esquartejamos o corpo de Cristo. Por que nos rebelamos contra o corpo de que fazemos parte? oh loucura! Esquecemos que somos membros uns dos outros e olvidamos as palavras de Jesus! A divisão perverte a muitos. Enfraquece uns, escandaliza outros, levando-os a dúvida e entristece a todos." XLVI 07-09
  • Tradição: "Abandonemos as preocupações inúteis e vãs para seguir a norma imaculada da nossa tradição." VII,02
  • Livre arbítrio: "O Senhor concedeu a faculdade da conversão aos que desejarem se converter a ele." VII,05 "Na sua vontade soberana ele decidiu que todos os amados se possam arrepender." VIII,05 "Lutemos para sermos contados no número dos que herdarão as santas promessas." XXXV,04
  • Cânon do Antigo Testamento - Em XVI,16 parece citar o livro da Sabedoria: Esperou no Senhor... que o liberte e o salve se o ama. Menciona Judite juntamente com Ester. LV,04
  • Estabilidade de Deus (Deus não se encoleriza): "Na paciência de sua vontade coloquemos os nossos olhares e consideremos como permanece isento de cólera para com os seres criados." XIX,01
  • Ressurreição dos corpos: "Que haverá de fantástico ou de extraordinário em que o Senhor do universo ressuscite aqueles que o serviram santamente na esperança e sinceridade da fé?" XXVI,01
  • Justificação universal: "Pela fé Deus justificou TODOS os homens desde o princípio." XXXII,04
  • Pecado: "Quem são os inimigos do Senhor: Aqueles que se opõem a sua vontade." XXXVI,06
  • Ritual/calendário: "Devemos fazer tudo quanto o Senhor mando fazer no determinado tempo. Ele mesmo determinou que as ofertas e funções litúrgicas fossem oficiadas não ao acaso ou aleatoriamente mas em circunstâncias e mesmo horas determinadas. E por sua soberana vontade designou onde e por quem deseja que tais cerimônias sejam oficiadas, a fim de que cada coisa seja feita santamente e deleitosa seja a sua vontade." XL,01-03
  • Sucessão apostólica: "Os apóstolos receberam do próprio Senhor Jesus Cristo o Evangelho que nos comunicaram. Jesus foi enviado pelo Pai. Cristo procede do Pai e os apóstolos de Cristo. As duas coisas, na mesma ordem, procedem do Pai. Eles receberam instruções infalíveis, segundo a evidência da ressurreição e foram brindados com a graça do Espírito Santoe assim comunicaram o Reino. Nos campos e nas cidades anunciaram a boa nova e assentaram as primícias, e pelo poder do Espírito Santo constituíram Bispos e diáconos para os futuros crentes." XLII,01-04 "Julgais inusitado que os pregoeiros de Jesus Cristo tenha estabelecido tais ministros? Já Moisés tendo limitada ciência, não teria tomado todas as providências para que não houvesse desordem no antigo Israel?" XLIII,01 e 06 "O Senhor mesmo informará aos apóstolos a respeito das disputas que ocorreriam por causa da liderança. Destarte, tendo em vista o futuro, eles estabeleceram os ofícios de que falamos e quando estes morreram, outros homens qualificados os sucederam. Os que estabelecidos foram por eles ou por outros homens, sempre com a vênia da Igreja, tem servido o rebanho de Jesus Cristo dignamente e são estimados por todos. Por isto julgamos que não seja lícito dedigna-los. Para nós não seria justo exonerar aqueles que exercem o episcopado de modo santo e irrepreensível." XLIV,01-04
  • Inspiração da Escritura: "Vos curvastes sobre as santas Escrituras, essas verdadeiras Escrituras doadas pelo Espírito Santo. Sabei que nada de injusto ou falso nelas esta escrito." XLV,02
  • Trindade Excelsa: "Temos um só Pai, um só Cristo e um só Espírito de graça, que sobre nós foi derramado." XLVI,06 "Pela vida do Pai, pela vida do Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo que são a fé e a esperança dos bem aventurados." LVIII,02
  • Imortalidade da alma: "Aqueles que pela graça do Senhor se tornaram perfeitos no amor FORAM RECEBIDOS NOS LUGARES DOS PIEDOSOS." L,03
  • Igreja: "Melhor é para vós ser mantidos no rebanho de Jesus Cristo inda que sendo pequeninos do que grande ser e estar fora deste rebanho." LVII,02

quarta-feira, 20 de março de 2013

LXV - 'Apropriação' > Como compreender a atuação do Espírito Santo sem cair no Triteísmo





Uma das grandes tentações teológicas que tem assombrado a divina Revelação é o Triteísmo.

E podemos dizer que parte do pensamento Cristão ocidental chegou a orbitar e ainda orbita em torno dele.

Consiste o Triteísmo em separar as pessoas da Trindade Santa e em conferir-lhes vontades e operações já distintas já opostas.

Até que já não temos mais três pessoas unidas pela mesma essência divina e vontade Una. Mas três deuses em estado de oposição.

Mais a frente teremos ocasião de ver como a teoria soteriológica da expiação, predominante entre os cismáticos ocidentais, esta inquinada de triteísmo.

Por ora limitar-nos-e-mos a apreciar a teologia da apropriação, a qual não poucas vezes tem servido de base a afirmações triteísticas.

Em que sentido podemos dizer que a apropriação seja verdadeira sem profanar a Ortodoxia?

E em que sentido não nos é lícito professa-la.

Todavia antes de iniciarmos nossa breve analise, convém explicitar ao amigo leitor o que é 'apropriação'.

Em 'teologuês' apropriação significa atribuir a cada pessoa da Santa e indivisível Trindade uma operação externa particular ou específica.

Assim ao Pai atribuem os teólogos a produção do Universo, ou a detonação do Big Bang; ao Filho a Encarnação e a reconciliação, e ao Espírito Santo o governo e a santificação da Igreja fundada por Jesus Cristo.

O grande perigo aqui é compreendermos que cada pessoa realiza sua obra, separada ou isoladamente e sem a participação das outras duas. Assim a criação teria sido executada pelo Pai somente, a Encarnação pelo Filho somente e o aperfeiçoamento dos fiéis pelo Espírito Santo somente.

Aqui o veneno do politeísmo ou melhor do Triteísmo.

Pois as pessoas da Santa Trindade inda que perfeitamente distintas são inseparáveis.

Não pode a essência, natureza e Unidade divina conhecer separação.

Segundo as operações internas distinguimos uma pessoa do outra. Quanto as operações externas no entanto, correspondem a vontade e atuação conjunta das três pessoas ou seja da natureza Una e divina.

Daí Jesus Cristo ensinar: "Meu Pai trabalha e eu com ele."

E noutra parte "O Filho nada pode fazer que o Pai não faça também com ele."

Eis porque estava ele com o Pai na obra da criação deste Universo: "Todas as coisas foram feitas por ele e sem ele nada foi feito do quanto foi feito."

E pois a Criação uma obra comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo ou seja uma obra de Deus, da Santa e indivisível Trindade.

Portanto quando alguém declara que o período da Criação deste universo a Encarnação do Verbo corresponde ao 'tempo' ou a 'ação' do Pai; devemos compreender uma medida de comunhão inferior ou menos intensa concedida pela Santa Trindade ou ainda como um nível mais primário de relações entre o Deus e o homem e não como um tempo em que o Pai se revelava  separada ou isoladamente aos seres humanos.

O mesmo se sucede quanto aos mistério da Encarnação.

Do mesmo modo e maneria como estavam o Pai, o Filho e o Espírito Santo atuando juntos na criação do universo e na comunicação profética; atuaram juntamente no mistério da Encarnação.

Diante disto afirmar, como fazem inúmeros manuais de teologia, que apenas o Filho encarnou-se; separando-se portanto do Pai e do Espírito Santo é apresentar deuses separados: um deus em e com Jesus e outros dois deuses mais distantes ou afastados. Toda esta linguagem que exclui o Pai e o Espírito Santo da Encarnação e da natureza humana de Cristo é blasfema.

Devemos pois compreender que - tendo em vista a inseparabilidade as pessoas divinas - também o Pai e o Espírito Santo encarnaram-se com o Filho e que estão presentes no Cristo, inda que jamais se manifestem.

O máximo que podemos admitir é que apenas a pessoa do Filho de manifeste. Porque a vontade do Filho é una com a do Pai e a do Espírito Santo.

Todavia quem contempla a imagem visível do Salvador não pode duvidar de que esta contemplando a 'forma' da Santa e indivisível Trindade.

Assim a fase posterior ao ministério terrestre ou a sua ascensão aos céus, que muitos ousam atribuir apenas e tão somente ao Espírito Santo.

De fado quando as Escrituras aludem ao Espírito Santo e sua ação específica querem dizer um novo padrão ou tipo de relação entre Deus e o homem ou a uma comunhão muito mais ampla e profunda a qual a humanidade foi chamada.

O que muda aqui não é a pessoa divina; pois uma jamais substitui a outra, o que muda aqui é a comunicação  de Deus ou do sagrado feita aos mortais. No caso a ação ou atuação do Espírito Santo corresponde a última e a mais intensa fase do processo de aproximação entre nós e o numinoso... ao supremo grau de evolução religiosa dos seres humanos.

Estamos diante duma ministração especifica ou duma efusão de graça mais abundante pela qual, nestes últimos tempos, somos chamados a uma amizade ainda mais íntima com nosso Criador e Médico...

No entanto toda esta comunicação é, como a criação e a encarnação, envolve as três pessoas da Santa e indivisível Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; as quais atuam e operam conjuntamente.

Então quando aludimos a ação e obra do Espírito Santo na vida da Igreja e do povo de Jesus Cristo estamos nos referindo a uma ação e obra maximizada pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito Santo ou na suprema manifestação executada pelo Deus único.

Cessemos pois de blasfemar postulando que o Pai, o Filho ou o Espírito Santo fazem qualquer coisa separadamente. O Pai jamais agiu sem o Filho e o Filho jamais fez qualquer coisa sem o Pai e o Espírito Santo, tampouco o Espírito Santo executou qualquer ação sozinho ou seja sem a comunhão e unidade do Pai e do Filho...

As eras, períodos ou tempos atribuídos ao predomínio de cada pessoa devem ser sempre compreendidos como fases ou estádios evolutivos da relação que envolve Deus com os homens e as medidas com que Deus comunicou-se a eles. O Espírito Santo corresponde a fase mais elevada ou profunda da relação ou da comunhão estabelecida entre o sagrado e o humano.