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A consciência histórica do Cristianismo

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quarta-feira, 13 de março de 2013

XLII - Aspectos da vida de Jesus: meios de produção; o escravismo







Ao tempo que o Mestre amado manifestou sua infinta graça entre os mortais constituia a escravidão, prática corrente entre todos os povos e nações da terra. Especialmente entre aqueles que se apresentavam como sendo os mais civilizados.

Grosso modo a instituição deita suas raizes mais profundas no campo da História primitiva ou seja antecede o surgimento da escrita tanto no Egito quanto na Suméria.

De modo que temos certa dificuldade em dar com suas origens.

Acreditasse que a principio, sendo as guerras inspiradas pelos deuses e religiões; eram todos os prisioneiros votados a destruição ou seja imolados junto as aras dos vencedores. Disto temos indicio no testamento antigo dos judeus em que cidades inteiras eram votadas a javé pelo 'anatema' e seus habitantes sacrificados.

Segundo os memoristas judeus tal teria sido a sorte de Jericó... da qual somente uma estajadeira teria escapado com sua família e amigos.

Ocorreu no entanto a algum chefe a idéia de conservar alguns prisioneiros vivos para faze-los trabalharem para si. E assim a escravidão pegou...

A principio era os pobres escravizados por dívida. No entanto este gênero de servidão foi logo suprimido por Sólon em Atenas e pela lei popiniae em Roma.

Destarte tiveram os escravistas de recorrer as guerras, ao sequestro e a pirataria; com o intuito de abastecer seus depósitos e suprir a demanda pelo 'instrumento' ou 'aparelho' humano.

No antigo Egito era a escravidão amena, possuia o servo direito a vida, a propriedade e a família, limitando-se a prestar serviços a seu Senhor. Apenas os criminosos e alguns prisioneiros de guerra tornavam-se escravos do Estado seguindo em demanda das minas de Wadi Hamamat ou Serabit, onde não tardavam a sucumbir miseravelmente ao peso dos trabalhos.

Na mesopotâmia vigorava o mesmo regime, quiçá um pouco mais amargo ao Norte, na Assiria, onde os prisioneiros de guerra eram submetidos a trabalhos duros e aviltantes. Em geral no entanto conservavam-se as instituições sumerianas e o escravo, também ali tinha direito a vida, a propriedade e a família.

Nem preciso dizer que num e noutro caso os escravos tinha livre acesso aos ritos religiosos.

Na Grécia agravou-se consideravelmente a situação do elemento servil - a principio denominado DOUROS e depois DOULOS - não lhe sendo reconhecido por exemplo direito a propriedade e a família; bem como aptidão para depor e o beneficio de votar e ser votado. Assim estavam já excluidos das esferas juridica e politica.

No entanto não era lícito tirar-lhes a vida, eis porque exclama Isócrates: "Nem mesmo um escravo pode ser executado sem julgamento!" e tampouco eram excluidos do exercicio religioso, sendo admitidos inclusive aos mistérios de Eleusis. Aquele dentre eles que tivesse queixa a respeito de seu senhor e tomasse refúgio junto ao altar de um templo era comumente considerado livre.

Efetivamente os escravos gregos são apresentados como membros da casa ou da família. Casos houve em que mais de um deles fosse recebido a casa com ofertas e guloseimas...

Estelas funerárias há, em certa quantidade, nas quais o elemento servil é representado junto com o senhor ou a família e mesmo estelas e túmulos dedicados a escravos fiéis, como o persa Sísinus.

Já Homero referia-se a Eumeu, como o 'divino' porqueiro.

E Aristóteles referia que a escravidão só se justificava tendo em vista a surperioridade intelectual ou moral do proprietário e que este deveria encarar os escravos como crianças explicando, sempre que possivel o objetivo dos trabalhos prestados para que compreendessem o que estavam fazendo.

Aqui também o gênero mais horrivel de servidão estava reservado aos criminosos e prisioneiros de guerra que eram conduzidos as minas de Leureum.

Foi nos círculos socráticos que pela primeira vez refletiu o homem a respeito da escravidão, ocasião em que as primeiras críticas foram tecidas por Platão. O qual devemos lembrar chegara a ser escravo até ter sido resgatado pelos pitagóricos Simas e Cebes.

Os estóicos chegaram a conclusão de que a natureza humana não pode ser exposta a tal tipo de violência e condenaram, em termos enfáticos, a escravidão pela primeira vez alguns séculos antes de Cristo.

Efetivamente Gaio, o jurista declara que "A escravidão não corresponde a instituição natural, mas a imposição externa ou condição..."

E os demais juristas admitiam que ela não pertenciam ao Ius naturalis; mas ao Ius gentium e ao direito positivo.

Seja como for a situação do elemento servil em Roma agravou-se ainda mais assumindo os extremos por nós tão bem conhecidos. 

Pois ali perdeu o elemento servil até mesmo direito a vida e a integridade física; podendo ser sumariamente executado, torturado sob qualquer pretexto, estuprado, prostituido, etc

Pertence pois a Roma a imagem clássica que temos de escravidão, com profusão de castigos, sevicias e torturas.

E averiguamos já que em certos templos e festividades religiosas romanas, a figura do escravo era submetida a violências e sua presença vedada. Portanto em função da suposta inferioridade absoluta, detectamos a exclusão religiosa.

O que não se detectava nas culturas em que o elemento servil era tratado com certa humanidade como Egito, Suméria e Grécia.

Então parece certo que a opressão terrena e econômica em nivel crasso, deve corresponder um abandono por parte da religião; reservada aos homens livres. Isto já se verifica de certo modo em Roma.

E nem se compreende como os mistérios de Isis, Cibele, Mitra e Jesus Cristo atrairam número tão elevado de escravos caso não admitamos que era de certo modo repudiados pela instituição religiosa romana. Nos mesmos termos em que milênio e meio depois vieram, os escravos africanos, a ser repudiados pelas seitas protestantes Norte americanas, e obrigados a reunirem-se em agremiações religiosas próprias formadas exclusivamente por negros.

Diante de tais conjunturas não devemos admirar que tenha explodido rebeliões como a que foi chefiada por Spartacus. Cumpre observar no entanto, que tais rebeliões não foram conscientemente direcionadas contra a instituição escravidão em si mesma... sequer imaginavam os ex escravos abolir o regime escravocrata.

O unico fim a que aspiravam era uma mudança de condição; mudança pela qual os proprietários converter-se-iam em escravos e os atuais escravos em proprietários.

Tratava-se aqui de mera troca de papéis a serem desempenhados e que não tocava a estrutura mesma da sociedade. Eis porque também os escravos rebelados tinham seus 'escravos'...

Wang Mang imperador chinês, inspirado pelo budismo foi o primeiro legislador a proibir o tráfico de seres humanos.

Diante de tais conjunturas é perfeitamente natural que criticos como Vitor Stenger:

"Jesus teve muitas oportunidades para repudiar a escravidão, E NO ENTANTO JAMAIS O FEZ."

Cumprindo a nós, dar-lhe a competente resposta.

Primeiramente cumpre esclarecer que o regime escravista vigente na antiga judéia era bastante ameno em comparação com os demai; mesmo o egipcio.

Pois determinava certos prazos e solenidades em que a concessão da alforria era obrigatória; como os anos sabáticos e o ano jubilar.

E ao tempo de Jesus estava em franco declínio. Pois as conquistas territoriais haviam cessado e repugnava já aos judeus escravizarem outros judeus... Por outro lado eles acreditavam que qualquer contato mais próximo com os estrangeiros contaminava-os...

Daí minguar o elemento escravo na Palestina durante o primeiro século desta nossa Era.

É verdade que o Evangelho faz menção a 'servos', o próprio contexto no entanto parece indicar que ao invés de escravos estamos diante do que hoje chamariamos de 'empregados' ou 'agregados'; gente de origem muito humilde que em função da miséria, vendia seus serviços em troca de alimento e abrigo e não de escravos no sentido romano ou mesmo grego do termo.

Em Grécia e Roma a questão era institucional, na Judéia do tempo de Cristo, econômica, muito provavelmente.

Situações de miséria provocavam ocasional sujeição sob a forma de clientela.

Aludindo a tais servos a primeira idéia que vem a mente do 'Filho pródigo' da parabola, é suficiência alimentar.

Não percebo pois com Stenger que Jesus teve diversas oportunidades ou ocasiões para condenar a escravidão.

No frigir dos ovos fariseu ou escriba algum lançou um autêntico escravo aos pés do Senhor indagando que fazer a respeito de tal criatura...

Era de fato a escravidão um problema do coração do Império, isto de Roma, da Itália; e não da obscura provincia da Judéia. É justamente aqui, neste ponto que devemos admirar e exalçar a sabedoria dos sacerdotes judeus, a respeito de como suavizaram o regime até elimina-lo.

Evidentemente que como Deus, cujos propósitos educativos são católicos ou universais; deveria o Mestre amado ter dito algo a respeito do regime escravocrata. V Stenger, alega que jamais aludiu a ele... a nós nos parece que não é bem assim...

Pois se Jesus não aludiu diretamente a escravidão, regulando-a ou melhor condenando-a sob a forma duma lei positiva; não é menos exato que aludiu indiretamente a ela apresentando principios e valores de natureza religiosa incompativeis com semelhante instituição.

Sabendo que principios e valores não procedem das normas, regulamentos e leis; mas que normas, regulamentos e leis procedem de princípios e valores, optou o Senhor por indicar principios e valores que estivessem em franca oposição ao regime escravocrata.

E que estando em plena oposição a ele viriam a destrui-lo. Sabendo que a criatura racional fora já capaz de perceber - com os estóicos - as mazelas do regime, deduziu que a mesma critura racional haveira de sacar as devidas consequências a partir dos principios e valores enunciados por si.

Tanto isto é verdade que todos os argumentos pró escravismo elencados pelo fundamentalista protestante (Batista) Richard Furman (+ 1825) foram extraidos ou do antigo testamento ou das cartas de Paulo; nem ao menos um do Evangelho i é das próprias palavras de Jesus. Jamais a apologética escravista (como a machista, a capitalista, a homofóbica, a belicista, a maniqueista, etc) cogitou em recorrer ao testemunho de Cristo.

E por que?

Porque Cristo jamais manifestou-se como escravista ou escravocrata.

A questão é se há em suas palavras, alguma base para alegar que condenou ao menos indiretamente a escravidão, enunciando principios e valores que raciocinados por suas ovelhas lhes revelaria claramente a inanidade do sistema.

Neste sentido, de uma condenação indireta a partir de principios e valores, afirmamos que sim; que foi a escravidão julgada e condenada por Cristo Jesus. E que foi de tais principios e valores que os primeiros abolicionistas do Ocidente - como S João Crísóstomo, S Patricio, S Akakios de Ahmeadin, S Paulino de Nola, S Elói, etc - e os diversos sinodos que recomendaram tão insistentemente a remissão dos cativos; tiraram as consequências.

Não pode haver condição entrisecamente superior e inferior numa comunidade em que todos são irmãos. Porque ser irmão significa pertencer a mesma natureza ou ser igual.

Eis porque disse Jesus: "Vós sois todos irmãos."

Não havendo mais espaço para senhores e servos.

Daí pleitear o mesmo Senhor uma libertação verdadeira: "Se pois o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres."; isto é plenamente livres, não só no plano religioso mas também no plano da imanência. Ao proclamar o homem cristão completamente livre o Redentor liberta-o de todas as prisões...

O próprio mandamento do amor: amai-vos uns aos outros, implica aniquilar a escravidão pela base. Pois como poderiamos amar um ser que a força submentemos e escravizamos ou um ser do qual tiramos proventos econômicos ou seja um ser que acreditamos ser lícito roubar!!!

Como se pode amar, oprimir e roubar???

De fato a fraternidade e o amor não me parecem nem um pouco compativeis com o escravismo.

O que importa aqui não é se os Cristão, por pura e simples canalhice trairam Jesus - isto é ponto pacífico -

Importa que Jesus tenha aluido o escravismo em suas bases e fundamentos, a saber, a suposição de que a seres naturalmente inferiores ou a opinião segundo a qual podemos oprimir o mais fraco por meio da força e domina-lo.

Ora Jesus afirma exatamente o oposto: que 'Todos são iguais (irmãos)'; e todos aqui significa todos os homens uma vez que o Cristianismo foi disposto para o gênero humano.

& que bom era servir e não ser servido...

Como alguém persuadido de que esta na congregação para servir haveria de cogitar em obrigar alguém a servi-lo???

"Nas nações e reinos uns oprimem os outros." disse ele a Igreja nascente; "Mas entre vós não haverá de ser assim." preceitua...

Ou seja ao contrário dos principados seculares, onde vigorava a doutrina da desigualdade e da escravidão, na Igreja haveria de vigorar a liberdade e a igualdade.

Como veremos mais além a maior parte da Igreja, que não se deixou conduzir pelo compromisso paulino, dos trê primeiros séculos compreendeu muito bem a lição. Posteriormente, ela adotou a via do compromisso. Sem que no entanto parte consideravel dos Bispos e fiéis deixasse de encarar a escravidão como um mal em si mesmo e a combate-la até dar cabo dela.

Isto veremos no momento oportuno.













domingo, 24 de fevereiro de 2013

As riquezas e Jesus

Por uma questão de honestidade convem jamais ocultar os pressupostos...

E colocar todas as coisas em pratos bem limpos.

Coisa supinamente desonesta seria disfarçar ou ocultar o teor dos dicursos daquele que encaramos não como simples emissário ou arauto mas como o mesmo Ser divino.

Então devemos saber e muito bem que os discursos de Jesus, embora não pertençam ao gênero de estudos que mais tarde receberam o nome de Economia, e que diz respeito a produção e distirbuição de bens materiais, nem por isto deixaram de abordar o problema das riquezas, que é um problema essencialmente econômico, numa perspectiva visceralmente distinta daquilo que convencionou-se chamar doutrina liberal.

Nem poderia Jesus deixar de abordar tal assunto na medida em que diz respeito a atividade humana, englobando a personalidade humana e as relações humanas. Nem poderia aquele que veio recuperar o homem como um todo por de lado qualquer aspecto pertinente a entidade ou ser que veio recuperar.

Eis porque enquanto o liberalismo através de seus profetas, proclama qual uma 'shahada' que o setor econômico é livre, autônomo e independente face a igreja ou a quaisquer imperativos de ordem ética ou moral e que a economia seja por assim dizer 'tão exata quanto a matemática, a física ou a química' e por assim dizer amoral.

Efetivamente a matemática, a física e a química, enquanto teorias não aplicadas e exatas, estão fora do úniverso ético dos principios e valores ou da moralidade, sendo de fato fenômenos amorais.

O mesmo se daria quanto a economia caso abstraissemos o elemento humano, cuja existência comporta uma dimenssão ética ou axiológica guiada por determinados principios e valores. Acontece que a economia é realizada por homens ou seja por seres cuja natureza é ética ou moral, e por seres que na produção e distribuição de bens materiais relacionam-se entre si uns com os outros.

Destarte não pode a economia situar-se no plano do amoral, mas apenas do imoral ou do anti ético na medida em que pleiteia colocar-se fora da esfera dos principios e valores ou subordinar tais valores as necessidades materiais e externas do mercado, apresentando-se a si mesma como fonte de tais principios e valores e como fator determinativo duma moral relativista inaceitável do ponto de vista do humanismo clássico, quanto mais do humanismo Cristão.

Efetivamente nem os socráticos nem os Cristãos poderiam convir com as pretenssões economicistas dos teóricos que proclamam a soberânia do mercado no terreno das relações que por serem humanas deveriam ser determinadas por principios e valores de ordem tanto mais elevada.

Perceba-se que por mais que os liberais e seus advogados infiltrados na instituição Cristão batam os pés que a um conflito insuperável entre as duas cosmovisões ou modos de encarar o mundo.

Pretende não só a igreja, mas o Cristo e o Evangelho, ou como queiram, a consciência Cristã, iluminar todos os setores da vida humana sem excessão e postular, como os simples teistas naturalistas postulam, uma ética médica, uma ética jurídica, uma ética política e uma ética econômica pautada em principios e valores universalmente válidos e irreformáveis enquanto expressões duma vontade ou lei divina. Postulam todos os humanistas até os confins do deismo a existência duma lei natural que se estenda a todos os setores da atividade humana e os Cristãos que essa mesma lei natural seja enriquecida pela graça de Cristo.

Conclue-se que em termos de capacidade ou atividade humana as pretenssões da Igreja ou melhor do Evangelho e da consciência Cristã sejam totalizantes ou holisticas. 'Nada do que é humano me é indiferente.' é frase que bem poderia ser posta na boca de Jesus Cristo... assim o discurso Cristão não contempla as pretenssões de autonômia absoluta revindicadas pelo economicismo de fundo materialista e ateu > Hayeck, Friemann, etc

Que Cristãos ou mesmo Católicos tenham forjado discursos incoerentes até o mais monstruoso hibridismo só serve para demonstrar até onde chegam os interesses econômicos engendrando infidelidades.

Já foi proclamado pelas autoridades da Igreja papista - e aqui com plena razão - (com forte eco nas Igrejas Ortodoxa e Anglicana) que a vida da Igreja ou a consciência Cristã é incompátivel com as exigências do liberalismo econômico. A igreja jamais admitiu a restrição dos economicistas que pretendem eles mesmos julgar a extenssão da consciência Cristã ou invés de serem eles mesmos julgados por ela.

Então eles se consideram a si mesmos como um padrão de verdade superior a consciência Cristã no domínio dos principios e valores ou seja no domínio da ética. E assim apresentam-se como fonte de principios e valores para a consciência Cristã... acontece que estes principios e valores são ditados pelas relações de produção e distribuição de bens materiais e no caso ditados por necessidades de ordem econômicas e relativas... Posto esta que os novos principios que os advogados do liberalismo pretendem impor a consciência Católica são de fundo naturalista, retalivista, materialista e ateu.

Não há como fugir disto.

Pretendem o liberalismo fiel ou prostituido (isto é pseudo Cristão) impor a consciência Cristãs principios expurios que estão em plena e frontal contradição com nossa fé.

Querem eles que sendo adoradores ou servos de Jesus Cristo e que encarando esse Verbo como nosso Deus e Criador admitamos que ele jamais pronunciou-se sobre questões de ordem econômica ou que, não passasse dum ignorante a respeito da matéria em questão e que caso tivesse abordado tais assuntos tivesse incidido em erro!!!

Agora veja que a doutrina economicista dos liberais bem pode ser aceita pelos arianos e unitários que encaram o Mestre amado apenas e tão somente como um instrutor elevado mas fálivel... não há real incompatibilidade entre o protestantismo moderno ou liberal e entre as seitas unitárias e o discurso economicista. O mesmo porém não se dá entre a fé da igreja Ortodoxa e Católica, nicena ou atanasiana e o discurso liberal, que ou mente cinica e descaradamente ou atribui erro a Jesus Cristo quanto a matéria em questão, insinuando que ao menos neste ponto Smith, Ricardo, Mises, Haieck e Friedmann foram mestres muito mais competentes do que ele.

Vejam até que ponto chega o discurso liberal em sua impudência???

Afirma em alto e bom som que aquele que não pode enganar-se nem enganar-nos falho miseravelmente ao abordar as relações econômicas porque não soube antecipar as desumanas e cruéis propostas da escola de Manchester ou da Escola austriaca...

Não fantasio este ensaio mas transcrevo a argumentação de um liberal, supostamente Ortodoxo, que terçou armas comigo a respeito da matéria, querendo a fina força impor as téses de Fridmann e outros a consciência e lei dos Católicos. Nosso homem em sua cegueira não hesitou em afirmar que todos os nossos pensadores, escolásticos e padres da Igreja, que precederam a heresia liberal, não passavam de verdadeiros idiotas em matéria de economia... diante de tão pouca reverência decidi recorrer imediatamente ao Evangelho e opor-lhe as palavras do Verbo; porque ele dissera - e mentira - que Jesus jamais abordara assuntos de ordem econômica...

Jamais pensará que os liberais fossem assim tão desonestos a ponto de ultrapassarem largamente seus êmulos comunistas...

Porque tantos quantos leram nossos Evangelhos sabem muito bem que Jesus não só referiu-se claramente a respeito das riquezas ou seja da produção e distribuição de bens, como manifestou-se claramente em sentido negativo face aos imperativos do liberalismo condenando-o inexoravelmente.

Dizem alguns liberais que é impossivel pintar Jesus como sendo um Comunista. Compreendida a dita expressão no sentido de membro do partido comunista ou como marxista ortodoxo posso até convir com ele pelo simples fato de Jesus Cristo não ter sido ateu ou materialista...

Direi no entanto, com o patriarca Revel - Nem Marx, nem Jesus - que para mim é modelo de probidade intelectual, que nem com milagre e rezas a tudo o que é Santo, seria possivel transmutar Jesus em liberal do ponto de vista econômico.

Aqui já não me importa o argumento podre dos liberais - que alias equivale a chover no molhado - mas apenas o fato inconteste de que Jesus nem batizou nem Crismou a hidra liberal...

Claro que eu sei e muito nem que neste ponto, que consiste em negar até a morte a existência de outra hipótese chamada socialismo, comunistas e liberalis se dão as mãos. Sujas e desonestas por sinal...

Folgam os comunistas em apontar todos os não comunistas como burgueses ou liberais e folgam os liberais em apontar todos os socialistas como comunistas e lacaios do partido vermelho.

Uns e outros recorrem 'dualismo binário' como a uma autêntica tabua de salvação. Que lhes permite repudiar formalmente a existência do humanismo Cristão ou Católico, com seus ideais de justiça e fraternidade... e nutrem verdadeira aversão pelos termos socialismo, fraternalismo, cooperativismo, mutualismo, personalismo, comunitarismo, georgismo, etc Que representam a continuidade dos ideais enunciados por Jesus Cristo, pelos apóstolos, pelos martires, pelos padres e pelos escolásticos da Idade Média até nossos dias a par dos sistemas materialistas rivais que são filhos um do outro. Refiro-me ao liberalismo e ao comunismo...

Então nós rebatemos a crítica e apresentamos um e outro como dois sistemas bastante solidários já pela origem recente, já pelo viez comum do materialismo crasso, já pelo ateismo dos principais teóricos, já pelos sofrimentos e dores com que acometeram a pobre e infeliz humanidade... e apostamos numa terceira via cuja raiz chega aos teóricos gregos Sócrates, Platão e Aristoteles; dos quais nós os Cristãos humanistas ou personalistas, por sucessão somos os legitimos herdeiros.

Na medida em que resistimos as pretenssões do discurso liberal e aos ataques lançados por liberais e comunistas a civilização tradicional e as culturas menos adiantadas, tendo em vista de apresenta-las ao grande público como uma alternativa plenamente má e de incompatibiliza-las face a cultura moderna.

Isto no entanto será profundamente discutido quando chegarmos a descrever e a julgar a Civilização Cristã, Católica e Ortodoxa de Bizâncio, que é tão pouco conhecida aos estudantes e mesmo aos pesquisadores ocidentais.

Cumpre aqui traçar já os termos da discussão e cortar passo a tantos quantos pretendam conciliar o Reino de Cristo com o Reino do dinheiro, do lucro e do mercado; pois são Reinos tão distantes quanto o céu da terra e o Oriente do Ocidente. Assim quem desejar ser cidadão de um não poderá ser cidadão de outro.

Nosso Reino é de certo modo a concretização daquela República idealizada pelo Filósofo e cujo fundamento é a mais estrita justiça. Nosso Reino é a cidade de Deus, supremo Legislador face ao qual devem ceder todas as vontades e ambições humanas. Então nossa família é a de Platão, de Jesus, de Agostinho e não a de Mises ou Fridmann.

São dois Reinos ou cidades rivais que haverão de conflitar e de chocar-se uma contra a outra. Que isto fique acento e bem claro aos falsos profetas.

Nem poderia uma Igreja ou crença que teve suas origens num autêntico mosteiro, perder suas raízes e converter-se; como disse Weber, em empresa nos moldes capitalistas. Isto aconteceu ao protestantismo e deveria acontecer facilmente porque ele condenou e destruiu os mosteiros

Mosteiros que serviam de exemplo e modelo a sociedade Católica moderando suas ambições e desejos. Uma Sociedade da qual desaparesçam por completo as instituições ascéticas estava mesmo posta para assistir ao triunfo do consumismo no mais alto gráu.

No entanto os mosterios foram derrubados e suas riquezas usurpadas. Assim, deixando de ser postas a serviço dos membros vivos de Jesus Cristo, converteram-se no lastro do capital econômico. E os pobres e os campônios, deixando de ser assistidos pelos monges, perderam suas terras comunais e tiveram de converter-se em operários... Tais foram as façanhas dum sistema que principiou pugnando contra as instituições mais sagradas do Cristianismo e que fez cambiar as energias do corpo Cristão das atividades humanitárias e divinas para atividades materiais e econômicas.

Tudo isto foi uma luta contra o Catolicismo e sua concepção orgânica e harmoniosa de vida. Esta luta ou conflito prossegue até hoje e mesmo o seio da igreja hodierna converteu-se já em campo de luta... e combatem a um lado aqueles que levam sua fé no Verbo até as últimas consequências e que aspiram por viver de modo coerente com a tradição e lei da Igreja e aqueles que desejam viver segundo a lei co liberalismo econômico repudiando na prática a vontade do Verbo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Jesus e as riquezas

Outro assunto bastante discutido diz respeito a posição de Jesus face aos fundamentos da economia moderna que é o acumulo irrestrito de bens materiais ou de riquezas, como costumam dizer.

Sintomática é a narrativa do jovem rico, o qual sendo gentilmente convidado pelo Mestre a declinar de suas riquezas materiais para tomar posse das verdadeira riquezas imateriais, optou por permanecer ligado ao gênero de riquezas que possuia...

Hoje multiplicam-se os jovens ricos que recusam-se a tomar o jugo da vida moderada no serviço do Mestre.

Já no terreno das parabolas ou comparações damos com o rico Finéias, nababo que todos os dias regalava-se com toda sorte de iguarias, enquanto a sua porta, os pobres, a exemplo de Lazaro, definhavam... e diz o Evangelho, que morrendo o rico foi castigado, enquanto que o Lazaro foi recompensando por sua paciência...

Daí a sentença: É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus.

Como parte da Cristandade considerou esta palavra inaceitável, alteraram sua estrutura e forjaram interpretações capiciosas e torno de camelos e de buracos nas paredes das muralhas...

Apesar disto corda jamais passa pelo fundo da agulha e rico jamais entra no reino dos céus...

Com Lazaro e o jovem rico 'cegos guias de cegos' passam os opulentos as zonas tenebrosas do mundo espiritual onde muito haverão se sofrer e penar.

Pois violaram descaradamente o mandamento do Senhor: Não acumuleis tesouros na terra onde a traça e a ferrugem tudo destroem, antes juntai tesouros nos céus...

Todavia, para tanto é necessário delapidar as 'riquezas iniquas': dando de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestindo os nus, abrigando os desabrigados, remindo os cativos, etc

O fruto de tais prodigalidades sera uma hoste de amigos no mundo espiritual, dispostos a acolher-nos benignamente nos 'tabernáculos eternos'.

Aqueles que com a graça de Cristo triunfam da avareza merecem ser contados entre os espiritualmente pobres dispostos ao Reino dos céus.

Aqueles que cogitam em servir a dois senhores, isto é a Cristo Jesus e as riquezas materiais, separam-se da verdadeira videira e tornando-se ramos secos são dispostos ao 'fogo' ou a dor no plano espiritual.

Pois conservando a mentalidade materialista no mundo espiritual haverão de experimentar certo desconforto.

Diante de tais sentenças e palavras não há como sustentar a opinião dos liberais segundo a qual o Evangelho desconsidera os problemas de ordem econômica.

Muito pelo contrário delas resulta muito claramente que Jesus pretendeu exercer juizo a respeito de como os homens obtem e administram tais riquezas, subordinando o econômico a outras finalidades e recusando-se a reconhecer sua autonomia nos moldes do liberalismo clássico.

Então já nos deparamos com uma oposição declarada e insuperável entre o modelo Cristão que é um modelo vida e um modelo integral que pretende atingir todos os aspectos da condição humana e o modelo liberal que supõe um esquema compartimentado de existência.

O Cristianismo Católico no entanto é irredutivel face a 'compartimentação da vida em setores radicalmente separados ou isolados' compartimentação que classifica, a luz do Evangelho, como artificial e perniciosa.

Considera a filosofia Católica que todos os setores e aspectos da vida devem estar unidos entre si pelo aspecto da promoção humana ou do bem comum.

Do contrário não mereceria o Cristianismo ser contado entre os humanismos.

Cristo no entanto encarnou-se para redimir o homem como um todo. Eis porque a Redenção cristã não deve ser encarada como uma espécie de meia redenção que toca apenas ao elemento imaterial ou espíritual.

Mas apresentada nos termos duma redenção total que veio remir o homem como um todo ou seja como espírito, alma e corpo.

Eis o que faz o Catolicismo encarar todas as dimenssões da atividade humana não só como organicamente correlatas mas como coordenadas por um eixo de natureza transcendente chamado ética. Segundo esta concepção integralizante de vida a origem dos principios e valores que regulam as ações e operações humanas procede em última instância da vontade divina e não do mercado ou de suas necessidades, correspondendo a uma Lei universal absolutamente valida e verdadeira.

Posto esta que as necessidades do mercado correspondem a uma ética relativista imcompátivel com o sentir da Igreja e com a Consciência Cristã, consciência que vive e que se nutre de principios e valores que deitam suas raizes no mundo espíritual e eterno; para além de todas as cogitações relativas da vontade humana.

Eis porque a igreja, na esteira de seu divino Mestre e fundador condena as prentenssões dos teóricos do liberalismo como autênticas expressões dum economicismo em choque contra o humanismo sempre sustentado por ela no decorrer das Eras e idades. De fato pretende a Igreja Católica julgar os interesses do econômico e subordina-lo a outros interesses os quais encara como tanto mais nobres e importantes.

O liberalismo econômico em contrapartida rebela-se contra o espírito da Igreja a qual pretende - por sinal como filho do protestantismo que é - julgar e condenar como obscurantista. Deve a Igreja, a exemplo de seu Mestre e Senhor, folgar neste juizo porque partindo do liberalismo econômico equivale a um elogio... ferreteia o liberalismo econômico a Igreja porque esta tem recobrado o antigo ideal de redimir o homem como um todo sem olvidar de seu corpo e de suas necessidades materiais.

Na medida em que afirma certos direitos como inerentes a pessoa e certas necessidades como inerentes ao homem, exigindo que sejam satisfeitas sem consideração pelas necessidades artificiais do mercado, incompatibiliza-se a Igreja de Cristo com a lei do capitalismo. Pois o deus do liberalismo que lhe dita leis é o Mercado... e as necessidades do mercado são indiscutiveis...

Ignoram os teóricos liberais que o mercado foi criado pelos homens e não os homens para o mercado.

A existência humana possue um significado muito mais elevado do que lhe atribui o materialismo economicista seja ele liberal ou comunista. Presume a igreja que a condição humana não cabe nos moldes estritos do econômico, ficando sempre algo de fora como que sobrando...

Daí a linguagem diferente pois enquanto o liberalismo soi competição entre rivais e competição que na maioria das vezes foge aos padrões da justiça a Igreja propõe outro regime, de colaboração ou de auxilio mutuo entre irmãis, entre irmãos que se amam e respeitam e sobretudo entre irmãos que veneram o principio comum da justiça antes de chegar a caridade. Pois caridade sem justiça, como escreveu Tomás, é pura e simples hipocrisia: fermento de fariseus.

Resta dizer que a doutrina proposta por Jesus Cristo a respeito o acumulo de bens materiais esta de pleno acordo com a doutrina proposta por:


  • Confúcio:  "O homem que só se ocupa em comprar e vender é um mediocre."
  • Platão: "Jesus plagiou a máxima platônica: 'É impossivel que um homem muito rico seja virtuoso.'"
  • Sócrates: "Quantas coisas a respeito das quais o homem não precisa para viver oh atenienses."
E por todos os educadores, pensadores e filósofos da antiguidade.

Obviamente que nem Jesus nem tais pensadores propunham a carência, a miséria ou a necessidade - como insinuam malevolamente os liberais - como ideais para o comunidade ou para a pessoa humana.

Julgo que toda pessoa medianamente instruida tenha lido o "Robson Cruzoé" de Defoe.

Pois bem, logo nas primeiras páginas damos com o sábio discurso proferido pelo pai de Robson, contra o acumulo excessivo de riquezas e a favor da vida sóbria e moderada.

Semelhante discurso foi cunhado justamente na filosofia de vida proposta por Confúcio, Sócrates, Jesus e outros sábios mestres... consiste ele em suster que o homem deve buscar para si e para sua família o suficiente para que vivam ao abrigo da miséria e até mesmo com certo conforto. Sem cogitar no entanto a acumular para toda geração futura ou como se seu destino final estivesse posto exclusivamente aqui no mundo material e finito, ou como se tivesse que viver eternamente neste plano...

Eis porque deve o homem contentar-se em grangear uma vida digna e comoda para si e os seus e não em cobiçar uma fortuna que não conheça limites e que absorva todos os seus cuidados a ponto de faze-lo deixar de viver integralmente por deixar de cultivar todas as potencialidades do seu ser, como o intelecto e o sentimento.

Na verdade o discurso do pai de Robson sobre as ocupações excessivas do homem rico, que deixa de ser senhor de seus bens para tornar-se servidor dos mesmos, já havia sido antecipado por Paulo de Tarso, o qual assim se exprime numa de suas epistolas: "Buscai viver dignamente com aquilo que possuis sem cobiçar ilimitadamente pois a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro."

Não diz ele que a raiz dos males seja o próprio dinheiro, como não dizem os sábios que a pólvora ou a faca sejam coisas más. Alude apenas ao uso ou abuso que se faz do dinheiro como da faca, da pólvora e de tantas outras coisas e instituições... abuso é o apego excessivo ao dinheiro ou a busca desordenada por bens de natureza material. Abuso é o 'amor' ou a estima ao dinheiro, o qual por assim dizer obscurece valores como a solidariedade e a justiça e subverte a condição humana tal e qual foi disposta pela Lei universal.

Implica a proposta de Jesus a respeito do acumulo irrestrito de bens materiais o primado do Ser sobre o ter, que é a viga mestra daquilo que classificamos como humanismo. Implica ela em reconhecer a existência de principios e valores superiores aos de natureza material ou econômica e em afirmar outros tipos de existência que transcendem a aquisição e distribuição de bens materiais como sejam o bem, o verdadeiro, o belo, enfim o ideal de que vivem a ética, a arte, a poesia, a ciência, e outras dimenssões mais elevadas de nossas faculdades.

Implica a aceitação de tais capacidades e faculdades na negação do economicismo crasso proposto nos termos do liberalismo e representado pela ditadura do capital e pelas necessidades soberanas do mercado. Ora Jesus, e todos os pensadores da antiguidade estão em oposição a este novo 'modus vivendi' peculiar a Idade contemporânea.

Que isto choque muitos daqueles que sustentam o sistema vigente é absolutamente natural. Por outro lado, para tantos quantos são capazes de perceber ou de captar a tensão existente entre as estruturas materiais de produção que caraterizam este nosso tempo e a própria sociedade econômica; e entre os principios e valores pertencentes ao domínio do ideal e que por isto mesmo tornam-se presos duma angústia cada vez mais intensa, para não falarmos em melâncolia ou mesmo em agônia invencivel, verificar que o posicionamento de Jesus e de tantos outros mestres antigos choca-se com este estado anômalo de coisas traduz-se numa vivificação das esperanças.