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A consciência histórica do Cristianismo

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sábado, 18 de abril de 2009

Há Deus??? - O problema do ateísmo





Manifesto é o defeito comum aos mortais e que consiste em amar os extremos e oscilar entre eles.

Assim enquanto alguns multiplicam deuses ao infinito outros negam que haja qualquer Deus.

Tais os politeístas, tais os ateus.

A principal diferença aqui é que os politeístas são mais discretos e comedidos enquanto que os ateus fazem grande bulha ou gala em torno de seu ponto de vista, encarando-o inclusive como sinônimo de magnitude intelectual.

Qual o filósofo que não seja ateu? Perguntam eles.

Ora bolas: Swiburn e dentre os falecidos Antony Flew, Thibon, Ricoeur, Ellul, Jaspers, Maritain, Marcel...

Mas qual o cientista que não seja ateu? Indagam.

Neil de Grace Tyson, Collins, e dentre os já falecidos Gould, Fermi, Lemaitrê, Einstein, Planck...

Mas Diderot, Voltaire, Rousseau, Galileu, etc não eram todos ateus???

De modo algum - Diderot, Voltaire, Rousseau era todos deístas. Spinosa panteísta. Galileu positivamente Católico.

Stalin este sim, era ateu ou melhor ateísta. Paul Pot também o era. E é claro o Marquês de Sade... Além de um grande número de nazistas alemães. E no entanto os ateus não fazem, a mínima questão de anuncia-lo para que todos saibam!

Mas será que os ateus não podem ter uma ética elevada?

Penso que isto seja coisa que não se discute.

Claro que pessoas ateias podem viver uma vida Ética, mormente quando foram criadas num ambiente religioso, teísta, deísta, etc Afinal á Ética é produto da cultura...

Raramente alguém desconstrói por completo sua Ética apenas por ter abraçado o ateísmo.

No fim das contas as pessoas que se converteram ao ateísmo continuam vivendo como sempre viveram, como espíritas, Católicas, Budistas, etc

Assim o que temos de investigar não é se existem bons ateus ou ateus 'éticos' mas se o ateísmo é capaz de produzir uma Ética sua que corresponda a nossas aspirações mais nobre e elevadas ou se o ateísmo pode dar suporte ao humanismo.

Caso em que temos de considerar as opiniões dos 'idiotas' do Dostoevsky, do Scheller, do Kant, do Locke, do Descartes, do Bacon e por ai afora...

Não pretendo ao menos num primeiro momento, entrar no mérito das tais provas clássicas a respeito da existência de Deus.

Mas questionar os ideólogos ateístas e perguntar-lhes sobre o que nos podem oferecer de concreto em termos de Ética, de comportamento, de ação, de princípios e valores, de bem e mal enfim.

É uma demanda muito importante e penso que deva ser satisfeita.

Caso neste domínio Deus seja necessário, então certamente precisará existir e então certamente existirá. Afinal o problema de nossa espécie e civilização é antes de tudo ético, não técnico. Técnica temos...

De fato vangloria-se o ateísmo, acompanhado pelo materialismo, de ter dado colossal impulso a ciência ou a técnica. Em que pese o fato de Darwin e Newton não terem sido ateus e tampouco Kepler e Da Vinci. Não perderei tempo malhando em ferro frio. Quem quiser constatar quão poucos ateus fizeram ciência remeto as obras de Poggendorf, ide a elas!

Quanto a ciência ou a técnica no entanto ousarei tecer uma observação ou melhor reproduzir uma - Discutível é o valor de uma ciência sem consciência. 
O espírito da frade acima - O qual faz positivista bater com a cabeça na parede - remonta ao grande Sócrates.

Ouso perguntar destarte: Que fez o ateísmo pela consciência do homem, com o intuito de eleva-la?

Eliminemos Deus do plano da Ética.

Podemos conceber qualquer tipo de lei universal e externa ao homem em seus domínios?

Existirá algum imperativo categórico que transcenda aos indivíduos?

Haverá algum critério objetivo em termos de bem e mal, vício ou virtude, crime ou santidade?

Temo que aqui a resposta possa ser apenas uma: Não.

Afinal como poderá haver lei se não há legislador algum?

E como poderá existir algo de externamente universal exceto em termos de materialidade?

Como poderá ser universal se é individual?

E como haveria de ser objetivo se restam apenas mentalidades separadas cada qual com sua subjetividade fabricando princípios e valores não só distintos uns dos outros mas até mesmo opostos???

Afinal sem Deus que elemento unificador resta em termos de Ética?

Sem Deus há nações, religiões, clubes, agremiações, indivíduos... cada qual com suas leis e lei alguma comum.

Excluída a existência do numinoso temos um multidão de seres, de pessoas, de indivíduos alienados uns dos outros.

Cada individuo é lei para si mesmo e nada para os demais.

Humanidade para além dos domínios da Biologia é coisa que não existe. Quebrou-se o espelho em milhões de fragmentos minúsculos. Em termos de idealidade estamos completamente isolados uns dos outros. Até podemos formar grupos porém jamais um grupo que englobe todos os seres humanos.

Em termos de Ética jamais haverá acordo, mas conflito aberto.

Por via alguma poderá fugir, o ateísmo, a uma solução individualista e relativista em termos de ética.

Tanto a noção de bem quanto a noção de mal é relativa ao individuo, tendo cada qual o direito líquido e certo de produzir a sua ética ou a sua moralidade em oposição a ética do rabanho...

Quando chegamos exatamente aqui, precisamente neste ponto o ateísta encara-me curiosamente e pergunta: Sim, mas qual é o problema? Perceba que o ateísmo é libertador!

Libertador???

Pois sim...

Perceba com Sartre como somos ilimitadamente livres para fazermos o que bem quisermos ou o que bem entendermos???

Qualquer coisa?

Digo, aquilo que você considerar bom.

Cada qual pode fazer aquilo que considera bom?

Exatamente.

Mas e se estiver equivocado?

Como poderá equivocar-se se é padrão de autoridade para si mesmo?

Neste caso sempre estará certo?

Ao mesmo para si.

Ótimo, e se por acaso considerar que o estupro seja bom, poderá neste caso estuprar? E se considerar que a tortura seja boa, poderá torturar? E se considerar o assassinato, o rouco, o engano... como coisas boas?

Julgo que não devamos fazer causar dano ou prejudicar outras pessoas.

Mas e se o julgar de modo diferente?

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Acaso sua opinião não é válida apenas para si mesmo?

Certamente...

Neste caso a opinião do assassino, do estuprador, do ladrão... também será válida para cada um deles e isto pelo simples fato de cada qual minimizar seus próprios crimes ou defeitos.

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Agora considere quais seriam os resultados caso semelhante teoria, sobre o direito de assassinar, torturar, estuprar, roubar, trair, etc fosse levada a sério pelos elementos de uma determinada Sociedade?

Imagine só com quanta alegria e contentamento seria a boa nova de Sartre recebida por todos os psicopatas e celerados que povoam o submundo da criminalidade???

De fato o ateísmo parece libertar algo que existe nos homens, mas não o homem mesmo.

Que o homem tenha direito de conquistar seu espaço, de realizar-se, de afirmar-se enquanto pessoa; longe de mim negar. Que seja livre e que tenha direitos essenciais e objetivamente fixados, e inalienáveis, digo a mesma coisa...

E no entanto se este homem compreender que sua liberdade implica - para ser plena ou absoluta -suprimir as liberdades alheias ou rivais?

E se este homem acreditar que tem o direito de abater os demais seres humanos, de domina-los, de subjuga-los, de oprimi-los, de escraviza-los em benefício próprio?

E caso este homem esteja persuadido de que os demais sendo-lhe inferiores não possuem direito algum?

E se este homem pensar que pode matar, torturar, estuprar, roubar e enganar impunemente compreendendo que tais ações criminosas para ele constituem um direito???

Você continuara dizendo que a falta de um Deus, o árbitro supremo pertence a ele, enquanto indivíduo???

Bela doutrina esta do individualismo especialmente quando posta no acesso de tarados, psicopatas ou de pessoas com instintos perversos; as quais bem poderiam vir a perpetrar tais ações conscientemente e a justifica-las metafisicamente em nossos tribunais apelando a 'benção' da liberdade, da liberdade ilimitada e absoluta é claro.

Claro que diante disto você ateu procurará, e não duvido apenas sorrio, reformular, reformar, reeditar ou colorir a sua doutrina ética, polindo-lhe as arestas (Mas a que custo).

Não é coisa nova.

Também J S Mill homem genial e de convicções agnósticas (Sequer era ateu!) consagrou seu engenho ao polimento da doutrina pragmática (formulada pelo deísta Benthan) buscando torna-la mais humana e aceitável. Afinal era necessário estabelecer que satisfação, prazer ou felicidade deveria prevalecer... E lá vai nosso positivista genial, tomar empréstimos logo a quem? Aos odiados essencialistas Sócrates, Platão, Aristóteles, Jesus, etc os quais eram igualmente deístas ou religiosos declarados.

Que resulta disto, que sai da forja de Mill?

Segundo o pensador inglês o que deveria prevalecer - Veja bem! - era o máximo grau de felicidade estendido ao máximo número possível de pessoas possível, seja a nação ou a humanidade. Quem não percebe aqui que nosso homem avança já pelo terreno do personalismo ou mesmo do socialismo? Formulando que a felicidade geral da nação deve prevalecer face ao ideal de felicidade traçada por um indivíduo? Sacrifica nosso autor o idolatrado individualismo ao pragmatismo imprimindo-lhe uma conotação social...

Mas isto não será excelente?

E no entanto tem pés de barro...

E por que?

Porque quando Sócrates, Platão, Aristóteles, Sófocles, Jesus e outros mestres dos tempos passados afirmavam o primado já da pessoa, já da Sociedade, cada qual em seu espaço; afirmavam-no em nome de um Legislador supremo, e portanto enquanto algo essencial, universal, objetivo e imutável; de modo algum como algo relativo e questionável. Era algo que até podiam ser discutido sobriamente como pessoas de boa fé, mas que no fim das contas deveria ser aceito sob pena de determinados prejuízos espirituais...

Queremos dizer que a Ética essencialista podia ser afirmada e imposta face a todos os homens e culturas em nome de um poder Supremo, e isto a ponto de exigir submissão e ser capaz de controlar os caracteres mais difíceis, obstinados e problemáticos, com raras exceções. Tratava-se aqui de um princípio interno, que se introjetado com sucesso exigia fidelidade e auto controle, o que vai muito além da ação militar ou policial i é duma coerção externa.

As pessoas não deixavam de matar por temerem a prisão, mas por temerem sansões e punições espirituais ou por temerem poluir a si mesmas e grande coisa é temer violar uma lei divina e contaminar a consciência. Se o homem estiver persuadido de que as coisas funcionam assim certamente buscara controlar a si mesmo.

Naturalmente que há o outro lado da moeda... E que como tudo quanto é humano, esta ética possa sofrer abuso e grave abuso, degenerando numa moral judaizante, equivocada, maniqueista, puritana, repressora.. Com as imagens danosas e prejudiciais do inferno, dos castigos eternos, do fogo, etc e a decorrente elaboração de complexos, traumas, bloqueios, etc E é claro que temos de reformula-la numa perspectiva verdadeiramente ética e humanista (que é a do Evangelho) considerando Freud e seus colaboradores...

O abuso no entanto nem tolhe o uso nem torna a coisa abusada desprezível em si mesma.

Consideremos então se é possível recuperar o essencialismo ético, recolocando-o nos trilhos indicados por Jesus ou pelos antigos mestres gregos, como Aristóteles.

Mesmo porque, sempre que Mill afirmar sua teoria Ética em seu próprio nome, como J S Mill qualquer individuo sempre poderá discordar dele não? Acaso discordar não é direito líquido e certo do homem face aos juízos, opiniões ou teorias formuladas por outro homem?

Neste caso qualquer degenerado, tarado, psicopata poderia encarar o pensador inglês e argumentar: Compreendo perfeitamente mas julgo ou continuo julgando que as aspirações do indivíduo são tudo e que devam prevalecer sempre face a ideia de 'bem estar geral' ou social formulado por você?

Mas quem é que haverá de discordar de J S Mill, quem discordará??? Antes dele Max Stirner e após ele Ayn Rand como imensa horda de seguidores, todos individualistas. E ciosos quanto a suas dignidades individuais.

Tal seu caso. Você até poderá declarar pomposamente - E nem sei com base em que... - que o 'Direito de um termina onde começa o direito de outro'. Trata-se certamente de uma frase bastante bela e diria essencialmente verdadeira. No entanto como passará aos olhos do outro como formulação puramente humana ou opinião individual, ele sempre poderá dar com os ombros (A pretexto de qualquer coisa) e declarar: Compreendo, mas discordo e opino que...

Você poderá teimar obstinadamente e declarar em seu próprio nome que nós seres humanos devemos nos identificar uns com os outros tendo em vista a similaridade de condição. Assim se o outro ao ser ferido sofre e não gostaríamos de ser feridos, devemos nos abster de ferir! Mais se ao ser enganado o outro sofre devemos revelar-lhe a verdade! Não, não devemos fazer ao outro o que não queremos que façam a nós; melhor ainda - Façamos ao outro tudo quanto aspiramos que nos faça! Absolutamente nobre, mas... Mesmo assim... Assistiria a qualquer individuo o direito líquido e certo de dizer que não esta de acordo, que não concorda, que não aceita e que tudo isto não passa de besteira...

E que outro indivíduo estaria acima dele? Que autoridade superior seria capaz de convence-lo? Mas... Entre homens livres não há autoridade superior no plano da imanência, e tampouco Deus. Logo, a qualquer um é defeso manter sua opinião!

Até posso ver e antever a ideia que lhe passa pela cabeça:

Como dez cabeças pensam mais do que uma, deve o individuo submeter - Ao menos quanto as coisas comuns - suas decisões a sansão da sociedade em que vive (Seja cidade, província, nação ou país), especialmente numa perspectiva democrática e conformar-se com o veredito comum, o veredito da lei.

Eis o que dizem e declaram os juristas ateus, materialistas e positivistas - Kelsen, Alf Ross, etc - alegando que as leis formuladas pelo Estado devam ser sempre acatadas não em nome de uma Lei natural, a qual não existe (Não pode existir Lei natural sem que haja um Deus legislador!), mas enquanto ato positivo realizado pelo corpo social, ou seja, enquanto algo formalmente autoritativo.

Aqui passamos de um extremo ao outro.

Pois face a bela solução do direito puro ou positivo, alias encarado como algo supra social ou neutro (!!!) somem-se tanto o individuo com suas pretensões toscas quanto a pessoa com seus direitos inalienáveis engolidos pelo estado. Pelo que chegamos a mais vil estatolatria, encarando o estado ou o parlamento como um organismo divino que jamais é capaz de errar!

E no entanto este mesmo estado - e numa perspectiva democrática, não totalitária - decreta que um Sócrates beba cicuta e que um Jesus seja crucificado. Aplaudamos!!!

Que dizer então sobre os estados totalitários governados por um Hitler, por um Stalin ou por um Bush??? Obedecer sem questionar a instância legislativa superior, eis a norma, regra e lei. Desobediência civil ou resistência nem pensar, afinal quem é ou o que é a pessoa humana face ao novo legislador supremo dos 'outros' neo ateus, o Estado???

Negada uma onipotência transcendente temos duas opções apenas: Indivíduos pretensiosamente onipotentes como Ed Geyn ou um estado onipotente nos termos da Alemanha Nazista ou da Inglaterra absolutista dos Tudors... Tais as opções éticas dadas aos ateus ou fornecidas pelo ateísmo seguido numa linha escolástica de coerência.

Afinal no fim das contas o significado não é dado pelo que você formula - E você até pode formular conceitos bastante nobres e elevados, por que não? - e sim por quem ou em nome de quem a tese é formulada. Pois caso tenha sido formulada por você individuo, sempre poderá ser negada! Outro porém será sentido do discurso caso apresentado em nome de um princípio supremo como a consciência Universal ou a alma do mundo!

Percebem como Hamurabi, Manu, Tages, Licurgo, Labarna, Numa, o suposto Moisés e até Maomé quando impuseram seus códigos legais em nome de seus deuses???

Quem é o homem ou o indivíduo para que legisle face aos demais exceto se tem força para coagir e dominar?

Qual o estado ou grupo social que tomando uma decisão qualquer sejam impermeável ao erro?

Assim sua solução extremista e radical, de apelar ao estado, sequer abalará os paladinos do individualismo, os quais com boas razões apresentarão os pecados cometidos pelo Estado: Os campos de concentração, os expurgos, os holomodores, os campos de cultivo, as invasões e guerras imperialistas, os julgamentos corrompidos (Como o de Sacco e Vanzetti) etc. Lançarão os crimes deste Leviatã em face de seus servos, para em seguida darem com os ombros e declarar: Até compreendo seu ponto de vista, mas... Como individuo livre que sou, discordo e sustento a tese oposta: A liberdade do individuo é ilimitada, absoluta, total; podendo ele fazer tudo quanto desejar ou o que bem quiser!

Agora aprecie a derradeira pedra adicionada a construção pelo francês Ch Foulcault: Com que direito internamos nossos psicopatas e histéricos em clínicas e hospitais, afinal de contas, quem sabe se no fundo, no fundo tudo isto não passa de um controle político tendo em vista a erradicação dos elementos questionadores e inconformados da Sociedade??? Enfim os verdadeiros gênios acham-se em nossos presídios psiquiátricos após terem queimado, esquartejado, torturado, estuprado, etc no exercício de suas liberdades. Tudo isto não nos faz lembrar as teorias de Raskolnicoff sobre o direito do homem superior fazer tudo quanto quer, inclusive assassinar? Obviamente que o critério de genialidade - Esta é do policial Porfírio - é individual, logo...

Observe o leitor amigo a que extremos de moralidade chegaram os ateus! Uns sustentando a onipotência da Sociedade ou a estatolatria, e consequentemente eliminando a razão, a livre vontade, a consciência e a pessoa! E outros, situados no extremo oposto, forjando opiniões a respeito da liberdade dos alienados e declarando que não temos o menor direito de prende-los! Resta-nos esclarecer se podemos prender os verdadeiros criminosos, i é, os assassinos, os torturadores, os estupradores, os fraudulentos, etc???

Admitidos os pressupostos da ética ateia, segundo o qual o individuo é lei suprema para si mesmo, não; exceto se os convencermos de que cometeram crimes e de que devam arrepender-se. Do contrário se afirmam obstinadamente que cometeram ações lícitas, discutir o que, se o homem é a lei suprema de si mesmo e as leis sempre podem estar equivocadas não passando de preconceitos impostos pelo poder??? Claro que dispondo do poder sempre poderemos prender e punir tais sujeitos! Mas e convence-los de que cometeram um crime ou uma monstruosidade, conseguiremos convence-los partindo do individualismo??? Temo que não... O sujeito continuará sentindo-se lesado em seus direitos e oprimido??? E é torturador, estuprador, assassino, ladrão... Feito vítima por obra e graça da doutrina individualista...

Afinal, do ponto de vista do individualismo a única diferença considerável se dá no sentido de quem possui a força ou tem as armas. Assim os criminosos são apenas arbitrariamente declarados criminosos, quanto na verdade limitaram-se a agir livremente ou no exercício da tão afamada liberdade! Afinal, se Deus inexiste a liberdade é tudo... Se Deus não existe absolutamente tudo me é permitido - E assim o é! Explica-me como você, homem igual a mim, pode decidir em meu lugar e regular minha vida? Você é lei apenas para si e não para mim... Eis os tarados e criminosos convertidos em mártires face a um poder ilegítimo e arbitrário!

Se de fato há uma ética, é como já se disse sem sansão. Coisa de contrato social que possa ser revisto. Adere quem quer... E quem não quer aderir mas continuar prevaricando e acometendo os semelhantes?

Ah Madame Holland foste sábia quando exclamaste: Liberdade, liberdade; quantos crimes se cometem em teu nome!

E no entanto os neo ateus - dominados pelos elementos da cultura - ao menos e suma maior parte, não fazem escolástica a partir de seus princípios como a liberdade individual ilimitada. Apenas Sartre, Camus, e alguns outros fizeram alguns ensaios difíceis de serem lidos, como aquele da peça em que o filho degola serenamente a própria mãe e depois, já não me recordo bem, senta-se na poltrona da sala para fumar ou beber, alguma coisa assim.

Todavia no exato momento em que romperem com a herança negativa do positivismo (em torno da ética) e aceitarem o desafio de elaborar uma Ética propriamente sua, veremos o que resultará disto! E como saíra essa nova ética sem Deus!

Pois no momento exato em que reconhecermos ao individuo o direito de causar dano ao semelhante ou de cometer verdadeiros crimes em nome da liberdade, a sociedade estará por um fio e a civilização definitivamente condenada. Cindida a humanidade em dois campos, teremos a um lado o pesadelo de Hobbes i é a luta do homem (convertido em lobo) contra o homem nos termos de uma guerra total; e a outro o sonho de Hobbes i é o domínio absoluto do Leviatã.

Digo por fim, a guiza de conclusão, que semelhante dilema - terrível - só será capaz de ser superado a partir do velho conceito de Lei natural, essencial, universal, superior ao homem e imutável; além de racional. Recuperamos nosso elemento unificador perdido e iniciamos um diálogo prenhe de possibilidades ou caminhamos para o caos! Estabeleceremos novamente o necessário equilíbrio entre as prerrogativas e exigências da pessoa e as exigências da Sociedade ou sucumbiremos enquanto projeto de civilização, o que será imensamente trágico.

Temos de retornar imediatamente aos antigos gregos, aos socráticos, a Aristóteles, a Jesus, aos salmanticenses - Vitória, Bañez, Cano, Soto, Suarez... - antes que seja tarde demais.

No entanto caso não exista um Deus...







Os delírios da mitologia

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Faz parte do discurso atual ridicularizar ao máximo a 'mitologia' Cristã ou Católica enquanto se 'passa ao largo' da mitologia hebraica (Assumida pelos judaizantes alias) e mais ainda da mitologia grega. Quanto a esta última por sinal há inclusive quem chegue as vias da Apologia... Como na série Percy Jackson.

Longe de nós negar ou mesmo menosprezar a Filosofia grega não apenas enquanto monumento literário, mas enquanto construto social, repositório de figuras simbólicas, fonte de temas psicológicos, etc Nós mesmos somos professores de Mitologia Clássica e admiradores confessos seus enquanto expressão literária, social e psicológica.

Coisa completamente diversa é encara-la sob o prisma religioso ou como entidade real. A exemplo dos neo pagãos.

Curiosa a atitude da neo modernidade face ao 'problema', o Cristianismo é ferozmente atacado e reduzido ao absurdo por apresentar Um só Deus feito homem e nascido miraculosamente duma Virgem, enquanto todos os devaneios da mitologia grega são poupados!!!

A questão até pode parecer irrelevante mas não é.

Afinal quem haveria de levar a Mitologia grega a sério?

Aqueles que sem terem abraçado a fé ateística ou materialista, desencantaram-se com a Mitologia hebraica, levianamente associada a fé Cristã.

Especialmente as crianças, os jovens e as pessoas mais imaginativas.

Eu mesmo, enquanto educador e conferencista, após ter abordado determinada narrativa mitológica, tal como a Medusa, o Pegassus, a origem de Afrodite, os repastos do croniana, a origem de Ops, etc, tenho ouvido regularmente a seguinte pergunta: Mas professor, isto aconteceu mesmo? Ou ainda: Mas isto é real professor?

E eu havia acabado de descrever como após a castração de Urano por seu filho Cronos - cujas partes foram lançadas ao mar - de seu esperma mais a espuma do mar, brotou uma deusa, Afrodite. Alias a narrativa não seria menos absurda caso disséssemos que das partes de Cromos mais a espuma do mar saíra uma mulher comum??? Desde quando de sangue ou esperma mais espuma sai uma criatura viva em estado de maturidade??? Quanto mais um ser racional????

E no entanto após haver relatado exatamente isto, ou como um deus engoliu seus próprios filhos ao cabo de anos a fio para num determinado dia, ao ser golpeado no estomago, vomita-los todos vivos, um após o outro. Seguindo-se a aterradora pergunta: Mas aconteceu mesmo? Foi real? Cronos existe? Pégassus existe? Cila existe? A Hidra existe? A quimera existiu? Existiu a Medusa???

É o que costumeiramente ouvimos da parte dos mais jovens. Inclusive quando aludimos a passagens das mitologias nórdica, maia, indiana, japonesa... as quais são ainda mais absurdas com seus homens/milho, deuses cegos, deuses esquartejados, deuses saídos do mar, das montanhas ou do Sol, etc Após cada narrativa segue-se a invariável pergunta: Mas é real? Formulada não por crianças pequenas ou por adultos a guiza de pilhéria, mas seriamente, tanto por jovens quanto por gente madura!

Admitamos que a Mitologia hebraica - A qual nada tem a ver com os mistérios do Cristianismo - tenha servido de introdução as demais mitologias (Pelo simples fato dos pastores e de alguns padres desmiolados terem ensinado os fiéis a acreditarem em mais narrativas). Em que ficam sendo menos ridículas ou absurdas? E por que não podemos viver sem elas, digo sem mitologias? (Apenas enquanto forma religiosa ou 'real').

Admitamos que a Mitologia hebraica seja absurda.

Em que isto torna as demais narrativas mitológicas excelentes ou dignas de crédito.

Mas o Cristianismo!

Pera lá, partamos do princípio, onde é que o Cristianismo nos ensina a crer em deuses, em deuses com vontades diferenciadas, em deuses que não apenas conflitam, mas que positivamente chegam as vias de fato, brigando, combatendo e lutando entre si???

Como poderiam ser 'infinitos' uma ver que a infinitude supõem exclusividade? E como sendo limitados e finitos podem ser propriamente divinos? Deuses é coisa que não pode existir, um conteria o outro, e nenhum deles seria Deus...

Por outro lado se é Deus, por meio das leis naturais que estabeleceu, Conservador do kosmos (I é da ordem que regula o universo 'relações constantes entre causa e efeito') como o triunfo de outro 'deus' e outra sucessão, e a introdução de outra mente e de outra vontade, poderia deixar de introduzir mudança nas leis naturais tornando-se o universo completamente caótico??? Não seria justa admitir que o triunfo de um novo deus acarretasse a substituição de um modelo de universo por outro e assim sua destruição???

Suponhamos ainda que o organizador e conservador deste universo seja um dentre vários e que tenha seu poder ameaçado. Neste caso, sendo atacado por outro ou por outros e tendo de despender tanta força em sua própria defesa como conseguiria manter este nosso universo inalterado e fixo? Enfim como essa luta ou disputa entre deuses beligerantes poderia deixar de acarretar a destruição do nosso mundo introduzindo sucessivas catástrofes???

E no entanto há bilhões de anos temos um Kósmos e mesmo um processo evolutivo que avança em determinada direção. Temos estabilidade e constância, temos regularidade, ritmo e sincronia, temos ordem; o que não nos parece indicar uma disputa pelo poder nos termos da Mitologia, a qual como já dissemos acarretaria a confusão geral e a dissolução dos elementos.

O Cristianismo a principio já se mostra superior a Mitologia - no terreno religioso - por postular o monoteísmo ou a existência de um só Deus, embora não sob a forma da transcendência absoluta, pois como os deuses do paganismo antigo, o Deus dos Cristãos é Deus presente e em contato com a imanência. É Deus envolvido com suas criaturas e não uma entidade totalmente separada e localizável.

Mas o Deus Cristo se Encarna ou se faz homem, dirás tu! Neste caso que diferença há entre Cristianismo e Mitologia?

A diferença já a apontamos - O Cristianismo como a Filosofia grega, não admite princípios paralelos ou conflitantes, não trabalha com o falso conceito (Absurdo) de deuses, não é politeísta, mas monoteísta.

Logo o que afirmamos é a encarnação de Deus e não a manifestação, a encarnação ou a reencarnação de diferentes deuses.

No entanto, replicarás, vocês Cristãos adotam o princípio Mitológico da Encarnação, o qual não se achava presente no judaísmo.

Coisa curiosa. Você censura o Cristianismo por adotar um elemento ou aspecto do paganismo e você mesmo adota-o 'in totum', admitindo inclusive deuses que não possuem existência real.

E no entanto você, admite, segundo a mitologia, que seus deuses ou celícolas assumam formas bem menos refinadas!

Assim o pai Zeus é sátiro, é pavão, é águia, é touro, é ganso, é cisne e é serpente, além de chuva de ouro e raio. Hera, sua esposa converte-se numa velha desgrenhada com o objetivo de enganar a rival Semele, Rea ou Cibele numa árvore, Atena em coruja, Leto em codorniz, Heracles num dragão, as irmãs de Faetonte em choupos, Ino numa vaca (depois virou deusa!), Aretousa em fonte, Narciso em flor, Alcione em golfinho, etc

Neste caso se você considera a Mitologia, com todos os seus absurdos clamorosos, como digna de crédito, por que raios censura os Cristãos por terem tomado um único princípio seu por verdadeiro?

Agora por que tomam o princípio da Encarnação por verdadeiro?

Poderia o amigo demonstrar que, admitida a existência de um Deus Bom e Todo Poderoso, fica sendo sua encarnação, impossível ou irracional???

Eis algo que os esforçados judeus e maometanos, adeptos da transcendência absoluta, ainda não conseguiram demonstrar sem cair na mais absurda e monstruosa das contradições.

Pois fazendo ostentação em torno da onipotência divina, asseveram que deus 'NÃO PODE' se fazer homem ou encarnar-se. Veja bem - DEUS NÃO PODE...

Agora para que Deus não possa fazer alguma coisa temos de provar que esta coisa ou ação seja ou pecaminosa. Pois quanto a isto estamos de acordo, não pode Deus fazer o mal (embora o deus dos judeus e maometanos possa pecar e fazer o mal!!!).

Todavia por que e em que assumir a matéria organizada por ele mesmo e na qual já esta presente seria mal ou pecaminoso???

É a matéria pecaminosa ou indigna? Neste caso por que teria o Deus sábio e perfeito produzido algo mal ou indigno?

Por outro lado, se enquanto obra divina é a matéria digna e boa, por que não poderia o Deus todos poderoso assumi-la?

Reflita, com isenção de preconceitos, e concluíra que nada, absolutamente nada de irracional existe no conceito de Encarnação.

Em certo sentido podemos dizer que o Catolicismo é genial justamente por ter reunido em si mesmo os dois aspectos mais nobres e elevados do judaísmo antigo (Bem como da Filosofia antiga) e do paganismo antigo - O monoteísmo e a Encarnação. Síntese brilhante por meio da qual o monoteísmo desprendendo-se do veneno da transcendência absoluta vincula-se mais ainda a Imanência, conciliando-se com ela. 

Abandonou assim o grande erro do paganismo que era o politeísmo, bem como o grande erro dos hebreus, muçulmanos (semitas em geral) e neo platônicos, a saber, a transcendência absoluta, a qual como vimos implica, necessariamente, separação e localização.

Portanto não fica sendo absurdo ou estúpido o Cristianismo por afirmar que o Uno se fez carne, assumindo a condição dos mortais com o nobre objetivo de beneficia-los?

Particularmente quando formulada por um neo pagão a acusação tem sabor de incoerência.

Na medida em que extasia-se com a ideia de deuses assumindo formas humanas (Assim Zeus tomando a forma de Anfiction com o objetivo de seduzir Alcmena , Atena assumindo a fora de Deífobos, Apolo manifestando-se como o pastor Adureto - 'Eis que descendo a terra apascentei os bois de meu hospedeiro e salvei sua casa da destruição.') e baixando a este mundo com o objetivo bem menos nobre de flertar... Por que sorris diante do Cristo, mas não diante de Apolo ou Hermes??? Que há de ridículo em Jesus que não fique ridículo, ou antes, que fique bonito neles??? E no entanto eles se manifestam como homens para namorar enquanto o Deus Único e verdadeiro manifestou-se entre os homens para mostra-se solidário e mostrar seu amor para com eles!

Assim tanto amou Deus o mundo que dignou-se vir a seu encontro para educa-lo, cura-lo e beneficia-lo espiritual, ética e socialmente.

E no entanto você continua a rir-se quando alegamos que pelo poder Supremo uma Virgem pode conceber e dar luz a seu Criador, de modo a fornecer aos mortais um sinal segundo de sua presença.

Considere porém que a Mitologia assim apresenta a concepção de Áries: A despeito de Zeus ter gerado por si mesmo uma filha, a saber a Virgem Atenas, pensamento seu; a senhora Hera desejando também conceber um filho sem a participação do esposo, engalanou-se e foi consultar o oráculo - Observem que a deusa vem a terra, pedir conselho a um oráculo! - o qual orienta-a do seguinte modo: Após teres adentrado no bosque encontrarás uma linda flor, dourada e desabrochada, assim que a encontrares, sem perda de tempo, senta sobre ela. Tendo feito tudo quanto o oráculo determinará, assim que Hera pôs-se de pé, deu com o menino - Áries - vagindo sobre a flor.

Acreditais além disto ou ao menos não considerais estranho, que Dionísio tenha sido gerado por três meses na panturrilha ou batata da perna de Zeus, seu pai; a qual por isso mesmo passou a chamar-se 'barriga' da perna.

Eis outra narrativa bastante esquisita, não a do Evangelho, afinal nosso Jesus não foi gerado numa panturrilha...

Pois caso Deus existe e seja Onipotente, que desatino há em fazer com que uma Virgem conceba e dê a luz a si mesmo??? Do contrário, não sendo Onipotente, não é Deus.

Tornemos no entanto a esses deuses, os imortais do Olimpo, aos quais inclina-se parte da humanidade atual. E perguntemos aos neo pagãos e simpatizantes como podem ser eternos e ter corpos materiais iguais aos nossos uma vez que nossos corpos materiais são resultados de um lento processo evolutivo peculiar a este planeta??? Teriam todos eles se encarnado??? Não é o que diz a mitologia? Então o que? Teriam corpos materiais e humanos desde toda eternidade??? Veja só ao absurdo que chegamos!

Absurdo dos absurdos pois sequer podemos afirmar que fossem dotados de corpos perfeitos uma vez que Deméter é descrita como sendo provida de quatro olhos, dois no lugar ordinário e mais outros dois acima deles, junto a fronte, além de dois chifres. E narra a mesma mitografia que Rea, sua mãe, assustou-se de tal modo que não queria amamenta-la. Já Árion, filho incestuoso de Deméter e Poseidon não passava de um cavalo, isto mesmo de um cavalo - Assim homens ao menos geram homens, mas os deuses pagãos geravam cavalos! Enfim o neto de Deméter, Zagreus; também é dado a luz em posse de um par de chifres.

Agora contemplem este Hefaistos, filho de Zeus e Hera o qual teria nascido coxo e com os olhos saltados, a ponto de ser lançado por sua própria genitora, Olimpo abaixo - Aos gritos de: Eis um monstro! - vindo a quebrar as costelas e ficar corcunda! Um deus coxo, corcunda e com os olhos saltados; mas onde esta a beleza disto???

Ousaras dizer-me que este ser disforme ao menos era dotado de uma alma - Se é que deuses tenham alma... - nobre, excelente, impassível e perfeita? Mas que! Vede como lamenta-se o 'deus': Por ser coxo, Afrodite, filha de Zeus, sempre me despreza e ama o horroroso Áries. 

Diante de tais narrativas quem não percebe que Evemeros estava coberto de razão quando declarou que os celícolas do paganismo antigo não passavam de homens e mulheres, reis e rainhas, príncipes e princesas deificados após suas mortes??? Os quais por isso mesmo eram dotados de corpos como os nossos, e não seres de natureza espirituais como os gênios e anjos imaginados pelos persas e semitas...

Acaso nosso Clemente não foi capaz de indicar onde se encontravam as zoanas ou sepulturas dos principais deuses? Indicando que não haviam passado de mortais poderosos?

Não se encarnaram no tempo e no espaço a semelhança de nosso Jesus, e tinham corpos materiais! Ou eram corpos... Acaso tinham alma ou espírito vivo como nós? Ainda aqui a mitologia não nos esclarece. Além de múltiplos limitados pela condição física ou material e portanto mais limitados ainda! Tais os deuses do paganismo antigo! Os quais com pouca habilidade podiam atuar fora do corpo, pelo simples fato de aparentemente não possuírem uma dimensão espiritual ou uma simples alma???

Eis porque, mesmo sendo 'deuses' temeram a investida dos Titãs! Tiveram medo porque tinham corpos que podiam ser torturados! Mas eram imortais, e sempre jovens, e sempre saudáveis, e poderosos não??? Então por que raios temiam a seus tios e primos os deuses antigos, os ctonianos? Porque sabiam - e é a mitologia mesma quem o diz - que o patriarca Uranos após ter sido deposto por seu filho Cronos havia sido castrado e supliciado por ele... Porque sabiam que o próprio Cronos antes de ter sido destronado e enviado a Itália - segundo S Aristides de Atenas teria sido remetido ao Tártaro ou inferno dos gregos - por seu filho mais jovem, Zeus; havia recebido uns bons golpes e levado uma boa sova da parte dele!

Observai a guerra de Troia e vede os magníficos deuses - assim Atenas, a Virgem; assim Afrodite, assim Hera, assim Apolo, assim Áries; o deus da guerra! - no campo de batalha sendo golpeados e atingidos pelos heróis! Pelo simples fato de terem corpos vulneráveis, do que resulta o temor!

Acaso não exclamou a deusa do amor: "Eis-me ferida pelo filho de Tideu, Diomedes; o soberbo!"??? E o senhor da guerra: "Eis-me a pele marcada por Diomedes... pois lá ia eu, o furioso, quando Diomedes ergueu sua lança... e fica o destruidor dos mortais tingido de rubro sangue..." Enquanto Apolo teme Aquiles e dele foge...

Agora dizei-me e respondei-me como pode um temer se é todo poderoso e perfeito??? Não, não eram ou não são TODO poderosos - porque existem outros tantos rivais poderosos! - e perfeitos... Neste caso como podem ser divinos??? Acaso não deve ser a divindade excelsa Toda poderosa e absolutamente perfeita???

Em tudo não passam de homens, apenas de homens que em tese - controversa! - não adoecem, envelhecem ou morrem; além de possuírem certos poderes. E controversa porque Asclépios o deus salutífero é dado como tendo sido morto, alias fulminado, pelo próprio avô, Zeus; isto por ter ousado desobedece-lo e curado um de seus desafetos, a saber o filho de Tíndaro.

"O Pai dos deuses e homens SE IRRITOU, e acertando-o do Olimpo com o raio fuliginoso, matou o letoida."

"Assim tendo sucumbido a avareza foi pilhado pelo filho de Cronos, o qual disparando com as mãos suas, arrebatou-lhe do peio o alento e com o ardente raio feriu o insensato."

E este avarento e insensato fulminado pelo próprio avô, é deus!

Temos além disto Apolo 'seu pai, exercendo o ofício de adivinho - Mas como precisava adivinhas se sendo Deus deveria saber todas as coisas? - e Dionísio, o bêbado; sendo obrigado a refugiar-se nos confins das Índias...

O próprio Dionísio por sinal, teria sido morto e devorado pelos Titãs após ter assumido a forma de um touro e buscado fugir. Pois antes de ter sido Dionísio fora Zagreus.

Hermes busca ajudar o espião Dólon evidenciando que não era onisciente e que nada sabia a respeito do próprio presente ou do que se passava entre os troianos.  

Diante de tais narrativas como deixar de exclamar - Quanta miséria!

Digo-o porque além de apresentarem os habitantes do Olimpo como temerosos face aos titãs e heróis, mortais, abjetos e limitados, os mitógrafos no-los apresentam como sujeitos ao destino, tendo suas próprias ações traçadas por ele. Do que resulta ser o destino um poder superior aos deuses e os deuses inferiores ao destino, e o destino ser o verdadeiro deus dos antigos...

Assim o pobre Zeus tem de contentar-se com transformar este desgraçado em estrela, aquela em fonte, este em golfinho e assim por diante por não ser capaz de interferir e mudar-lhes o trágico destino!

Claro que nosso Bom Deus também não interfere. Não porém porque lhe falte poder para tanto e sim porque declinou de interferir por ter submetido este universo ao rígido controle das leis que ele mesmo concebeu. Nosso Deus é 'escravo' da perfeição que contém em si enquanto norma e regra de si mesmo e não submisso a um poder externo e superior a si!

Zeus no entanto assim se expressa após a morte de Sarpedon: "Ai de mim! Pois quanto a Sarpedon, o mais querido dos homens, foi decretado PELO DESTINO que seja ferido por Pátroclo, filho de Menéceu." E o poeta: Eis que perece Sarpedon, filho do grande Zeus e nem mesmo este é capaz de socorre-lo - Limitando-se a homenagea-lo com uma chuva de sangue!

Afinal que onipotência é esta meus senhores? Se aquele que brande o raio e fulmina não é senhor de si! Tendo sua existência traçada por instância superior - O destino! Quanta miséria!

Eis um simulacro de divindade subordinado a um processo impessoal de caráter fatalista!

Que dizer então sobre a Afordite a qual face a sorte de Heitor limitou-se a murmurar: "Quanta dor. Eis que com meus olhos contemplo meu querido correndo em torno das sagradas muralhas de Ílion e meu coração se enche de angústia."???

Outra que andava como louca, chorando e vagando pelos campos em busca da filha Perséfone (Logo ignorando supinamente onde a mesma se encontrava!) era Demeter. Quanto a Persefone, mesmo sendo deusa não fora capaz de defender a si mesma, sendo raptada pelo primo Hades, com quem a contragosto teve de se casar.

Já o 'divino' Febo Apolo lamenta ter servido a mesa de Admeto - Oh palácios de Admeto, em que tive de aceitar e suportar o ofício de copeiro sendo deus!

Tais os deuses da Mitologia.

São dignos de existência?

São verdadeiramente divinos?

Nem infinitos, nem ilimitados, nem incorpóreos (ao menos em parte), nem eternos, nem onipotentes, nem sábios, nem absolutamente perfeitos, etc

Tudo literariamente majestoso mas indigno de Deus.

Tudo muito limitado, finito, material, temporal, imperfeito; logo humano demasiado humano.

Que acontece agora caso arrastemos os mesmos olímpicos ao tribunal da Ética!

Possuem os deuses gregos perfeição moral???

Ainda aqui são primos de javé e alla, podendo fazer o mal, pecar e cometer quaisquer crimes.

São entidades que enganam, dissimulam, prestam falso juramento, cometem injustiça, traem, roubam, assassinam, praticam crueldade - até o sadismo! - fazem-se caprichosas e despóticas, corrompem e são corrompidas, etc

Tais os deuses magníficos e não há dispositivo da lei da consciência que eles não violem descaradamente!

Santidade e pureza é coisa que não há nesta família!

Vemos assim que Afrodite, Áries e Zeus adulteram, que Zeus além de ter cometido incesto com Hera também cometeu incesto com Deméter, que Hefaistos exerce pedofilia ou digamos o ofício 'sedução', que Poseidon tornou-se incestuoso com a tia Afrodite e com a irmã Deméter, que Apolo mente, que Hermes e Áries roubam - o primeiro tornou-se padroeiro dos ladrões - que Hera 'Cuja cólera enchia o peito' vinga-se, que Atena encoleriza-se e irrita-se contra Zeus seu pai e assassina empregando o sangue da Gorgona. 

Alias só as amantes do 'pai e rei' dos deuses foram um cortejo: Ino, Europa, Danae, Alcmena, Maia, Semele, Leda, Leto, Lâmia, Dione, Antíope, Pasifae, Ganimedes, etc gerando uma hoste de bastardos - Perseu, Heracles, Hermes, Dionísio, Helena, Clientemnestra, Zeto, Anfion, Apolo, Artemis, Castor, Minos, Radamante, Sarpedon...
O mais assombroso no entanto é que Zeus - o pai dos deuses e homens - tenha estuprado sua própria filha Persefone, isto ainda quanto as relações entre pais e filhos constituiam tabu inviolável em praticamente todas as culturas!!! O que não deixa de ser surpreendente!

Dar crédito a mitologia e a 'bela' religião pagã é o universo regido por um incestuoso que violentou a própria filha! Precisa dizer mais alguma coisa?

Não querendo ficar atrás do irmão caçula também Poseidon entregou-se ao desfrute, seduzindo: Ascras, Iphimedeia, Medusa, Chione, Pelope...

Já o harém do valente Áries era composto por: Aglaura, Cirene, Herpina, Otreras, Pirene, Astioque, Betonis e Erétria... Dentre outras.

Mesmo o abjeto Hefaistos não teve menos do que sete companheiras: Aglaia, Etna, Cabiro, Gaia, Anticléia e Cinia.

Afrodite além de ter flertado com Áries e Poseidon ainda teve por amante a Hermes - de quem gerou Hermafrodito - e a Anquises do qual gerou Enéas amante da bela Dido e fundador de Alba, a grande. 

Artemis ou Diana, após ter sido flagrada ao tomar banho, transformou o pobre Actéion num veado mesmo sabendo que haveria de ser devorado por seus próprios cães. Mesmo sendo deuses e imortal ela não soube compadecer-se do pobre homem mostrando-se sádica e cruel.

Mas o que esperar duma 'deusa' que enviou um javali contra Adonis para mata-lo pelo simples fato de Afrodite - outra divindade não menos cruel - ter matado seu querido Hipolito? E como matou-o? Fazendo com que Fedra ardesse em amores por ele, tirasse a própria vida e incriminasse o justo! Impetrando seu pai, Teseu, ao senhor do Mar, que provocasse um sinistro capaz de mata-lo! Assim assustados por um monstro correm seus cavalos, conduzindo o belo carro, em direção dos penhascos e adeus Hipólito! Tudo porque recusar-se a massagear o ego da deusa do amor.

Assim Afrodite faz perecer o nobre Hipólito e para vingar-se Artemis aniquila Adonis!

Calisto parece ter tido um pouco mais de sorte e ser transformado um urso, após ter emprenhado a celicola enquanto dormia. O fim de tudo foi quase um parricídio por parte do neto divino, Arcas. Zeus no entanto interferiu como pode colocando o pobre urso no céu.  

Chione, amada por Poseidon, Hermes Apolo ocorreu a infeliz ideia de que era mais bela do que Artemis posto que cobiçada por diversos habitantes do Olimpo. Foi o quanto bastou para ter a lingua arrancada e ser morta a flechada pela filha de Leto.

Outra não foi a sorte de Níobe, esposa de Anfião; a qual gabou-se de ser superior a Leto por ter gerado sete filhos e sete filhas. Os quais foram exterminados a frechadas pelos divinos gêmeos... E Níobe convertida em fonte pelo 'poderoso' Zeus...

Apolo com o intuito de preservar a virgindade da irmã, envia um escorpião para acabar com o infeliz Orion. 

Quanto a já citada Afrodite não narram os mitógrafos ter levado Hipômenes e Atalanta a copularem no templo de Cibele? Com o objetivo de indispor a deusa contra ambos e castiga-los???

Donde se infere que nem mesmo respeito os deuses tinham pelos templos uns dos outros!

Áries teve por filho a Cícino matador de viajantes, o qual fica sendo neto de 'deus'. Mais infeliz do que este foi seu tio, Poseidon o qual teve de enterrar vivos (!!!) os filhos que havia tido de Halia os quais porfiavam  superar uns aos outros em malignidade. Isto para não falarmos em Polifemo, Crisaor, Oto e Efialtes igualmente filhos do senhor dos mares, e problemáticos!

Dionísios faz Licurgo ficar louco e assassinar a família a machadadas e as filhas de Penteu trucidarem o próprio pai.

Segundo Ésquilo é Hermes que por meio de truques e estratagemas auxilia Orestes a matar Clientemnestra e consumar o matricídio. É até aqui o que temos de mais ameno...

Contemplemos agora a respeitável matrona Hera, senhora do lar, prestes a assassinar uma criança em seu próprio berço e esta criança é o futuro Herácles. Eis uma 'deusa' infanticida, estranguladora de bebês!

Colérica e vingativa não transformou ela a infeliz Lâmia, rainha da Líbianum monstro espantoso e incapaz de fechar os olhos após ter dado cabo de seus filhos?

Tais os dotes da matrona 'celestial' pintada pela mitologia!

Tomemos agora a Virgem Palas ou Atenas. Será ela distinta de seus familiares, e, consequentemente mesmo vingativa e cruel?

Pudera! Pois também ela transforma a Medusa num monstro apenas por ter alegado ser mais bela do que ela. Mérope é transformada em coruja por ter ridicularizado os olhos glaucos da 'mente de Xeus'.
Ilus é feito cego por ter ousado contemplar o Paládio. E o infeliz Laocoonte mais seus dois filhos estrangulados por suas gigantescas serpentes enviadas por ela... Isto sem falarmos na primeira aranha Aracne, punida por sua ingratidão. Ainda aqui não temos nada semelhante ao mortal que proferiu esta memoráveis palavras: Perdoai setenta vezes sete vezes. 

O próprio Zeus, e é vexatório dize-lo, vez por outra, espancava a mulher Hera. Temos assim um deus machista e espancador de mulheres, simplesmente infame. Já o nosso Jesus desafia as leis de seu povo tratando as mulheres com amabilidade e delicadeza assim a Marta, a Maria, a mulher da fonte, a Joana, e a tantas outras. Considerável diferença!

Hefaistos arrenegou a própria mãe - Pagando-lhe mal com mal, enquanto nosso Jesus disse aos homens para pagarem o mal com o bem - e prendeu-a num trono dourado. E somente após ter sido embriagado por Dionísio é que concordou em liberta-la.

Hermes foi quem concedeu a Pandora o dom da mentira e do fingimento.

Eis a sagrada família do politeísmo: Insensíveis, caprichosos, coléricos, vingativos, agressivos, assassinos, cruéis, adúlteros, incestuosos, mentirosos, intemperantes; enfim repositórios de todos os vícios e defeitos que toram os homens desagradáveis.

Neste caso como admitir que tais narrativas sejam dignas de crédito ou que tais seres existam de fato?

Acaso não bastariam tais entidades para converter nossos sonhos em pesadelos?

Logo, em que sua inexistência prejudica a realidade?

E eu sequer mencionei os monstros - os filhos de Forco - em última análise descendentes de Gaia, a terra, logo divinos! Assim a Hidra, a Quimera, o Cérbero, a Cila... Mas que deuses são estes notáveis pela feiura de alma e de corpo e absolutamente asquerosos???

Encerro esta exposição considerando que nem mesmo como criaturas tais entidades mereceriam existir. Quanto mais como 'deuses' em lugar do verdadeiro Deus, magnânimo, filantropo, benfeitor, generoso, amigo e amante dos homens.

Se isto é tudo quanto o neo paganismo tem a opôr ao Cristianismo tudo quanto tenho a dizer a tais pessoas é que tornem a Xenófanes, Parmenides, Anaxágoras, Apolônio, Sócrates, Platão, Aristóteles, Crisipo, Cleantes, etc considerando tudo quanto estes homens excelentes disseram a respeito da mitologia considerada como religião ou realidade.

Certamente há muita coisa de bela e edificante, de tocante e elevado, de majestoso e de divino na mitologia grega. Assim a narrativa de Castor e Pólux, a de Alcione, a de Antiope... Como há muita coisa poética no mais alto grau, assim o ciclo edipiano, o ciclo orestiano, etc Percebam no entanto que quase tudo quanto torna a mitologia fascinante provém dos mortais oprimidos pelos deuses olímpicos e não dos deuses, e que a parte menos nobre da mitologia grega diz respeito a justamente a 'teologia'. Reflitam sobre isto e considerem se substituir as fábulas imbecis dos antigos judeus pela teologia pagã não equivale a trocar seis por meia dúzia...