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terça-feira, 6 de novembro de 2018

CIX - S Inácio de Antioquia - Cartas

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Inácio, o 'Teóforo', foi o terceiro Bispo de Antioquia, após o santíssimo Pedro e o abençoado Evódio. (Orígenes e Eusébio) Segundo a legenda pia teria sido ele o menino levado ao Senhor quando disse: Deixai que a mim venham os pequeninos...

Segundo alguns - Constituições Apostólicas 'Inácio de Paulo' - fora discípulo de S Paulo. Segundo outros fora discípulo de S João e companheiro de Papias e Policarpo, ao qual consta ter enviado uma de suas cartas. Teodoreto de Cirro esclarece que S Pedro, antes de prosseguir sua jornada em demanda de Roma, havia determinado expressamente que Inácio sucedesse a Evódio.

"A tradição refere que foi enviado da Síria a Roma para ser lançado as feras, por causa do testemunho pelo Cristo. E enquanto seguia a carreira da Ásia, sob a atenta vigilância dos guardas, ia exortando as Igrejas porque passava com suas cartas." é o que diz Eusébio na 'História'.

O mesmo Eusébio na Crônica, declara que isto acontecerá no décimo ano de Trajano ou seja cerca do ano 107 ou 108 desta Era, o que é repetido por Jerônimo de Stridon nos 'Homens ilustres da igreja' sessão décima sexta. Jerônimo afirma igualmente ter sido ele lançado aos leões e S Crisóstomo alude ao Coliseu ou ao anfiteatro Flavio como ao lugar em que sua sentença foi cumprida. O synaxiarum da Igreja Copta Ortodoxa de Alexandria declara que ele foi lançado as feras e que estas o fizeram em pedaços...

O Codex Colbertinus de Paris (Sec X) contém as supostas atas de seu Martírio, consideradas genuínas por James Usherius, mas certamente interpoladas e inexatas. A cena mais famosa é a de seu interrogatório pelo próprio Trajano, um Loci common, quanto a este tipo de literatura.

Muito provavelmente, esta circunstância, de ter sido deportado, significa que Inácio estava envolvido em algum tido de conflito com outras comunidades Cristãs. Tendo sido condenado como um perturbador da paz pública. Allen Brent

Segundo o já citado 'Heródoto' Cristão, o 'Teóforo' ou portador de Deus "Estando em Esmirna escreveu uma carta a Igreja de Éfeso; onde nomeia seu pastor Onésimo; outra a Igreja de Magnésia sobre o meandro e a seu Bispo Damas; outra a Igreja de Trales e a seu líder Políbios, além destas escreveu a Igreja dos romanos... dirigiu por fim, longe de Esmirna, de trôade, escreveu aos Cristãos de Filadélfia, a Igreja de Esmirna e a seu presidente Policarpo, que ele reconhecia como homem apostólico...."

Tal o cânon de Inácio transmitido por Eusébio: Carta aos efésinos, aos de Magnésia, aos de Trales, aos romanos, aos de Filadélfia, aos esmirniotas e a Policarpo. Num total de sete cartas. "As quais tem uma importância incalculável para a História do Dogma." diz o patrólogo J Quasten

Ressentem, as cartas de Inácio, dupla influência, paulina, preponderantemente; e joanina (F Bleek - 1862). Osterzee (1866) alega que Inácio emprega expressões que existem apenas no quarto Evangelho. Holtzmann que era terminante quando a Hermas e Barnabé, silenciou a respeito de Inácio. Plummer em 1887 insistiu a respeito das cartas de Inácio conterem alusões a João, ausentes nos demais padres apostólicos. Em 1889 Ligthfoot declarou que Inácio conhecia o Evangelho de S João, embora sua dinâmica fosse paulina. Westcott admitiu que sem dúvida estava a par do pensamento joânico. No mesmo ano o biblista T Zahn apontou a familiaridade existente entre o epistolário inaciano e a primeira carta de S João. Em 1895 H Boese e C Pesch chegam por meios diversos a conclusão de que Inácio conhecia o quarto Evangelho. Em 1897 Harnack pronunciando-se a contragosto declara ser improvável mas de modo algum impossível que Inácio conhece a literatura joanina. Respondeu-lhe Loofs no ano seguinte declarando que Inácio não só conhecia o quarto Evangelho como estava bastante familiarizado com a teologia joanina, o que já havia sido exaustivamente demonstrado por Van der Goetz alguns anos antes. Por fim em 1899 Cammerlynch conclui pela plausibilidade de Inácio ter tido conhecimento do quarto Evangelho recebendo o apoio de H R Reinolds.

É o primeiro autor Cristão e insistir a respeito da dignidade episcopal e o primeiro a mencionar os presbíteros, dignidade recém criada, como estamento clerical separado do episcopado e subordinado a ele. Para Clemente de Roma, dez anos antes haviam apenas diáconos e presbíteros, os quais eram, na verdade, os Bispos. Como os primeiros Bispos haviam convivido com o Senhor ou com os apóstolos tomaram o nome de presbíteros ou antigos, ou anciões, a exemplo da Sinagoga. Quando a maior parte destes já havia falecido, os diádocos criaram uma outra dignidade, inferior ou restrita, outorgando-lhe o nome de presbiterato e atribuindo o termo episcopado, com exclusividade, a autoridade suprema estabelecida por Jesus Cristo e conferida pela sucessão apostólica.

Em 1886 o sectário presbiteriano W D Killen - seguindo a tradição de seu mestre João Calvino (Institutas I,13,29) e da maior parte dos assim chamados reformadores - alegou que nenhuma das cartas de Inácio era autêntica, mas que todos haviam sido falsificados, e adivinhem por quem??? Pelo Bispo de Roma Calixto, o qual sequer era papa... Para este autor Calixto passou-se pelo mártir Inácio com o objetivo de justificar, sua invenção, o episcopado monárquico. Isto teria acontecido cerca de 220 d C e portanto até aquela data vigorado o sistema presbiteral.

No entanto, como veremos, todos os doutores posteriores a Inácio, assim Hegesipo, Irineu e Tertuliano, etc seguirão a mesma linha que ele. Insistindo a respeito da sucessão apostólica dos Bispos como fundamento pétreo da verdadeira Igreja. Todos os autores citados escreveram antes de 220... tendo Irineu falecido cerca de 205 ou 215, Hegesipo escrito em 170 ou 180 e Tertuliano desde 195...

No mais, basta dizer que duas das cartas de Inácio foram textualmente citadas por Orígenes - In Luc VI,04 - pelos idos de 220 e antes dele por Irineu no Livro contra as Heresias V,28,04, o qual remonta a 180. O próprio Policarpo na Carta aos de Filipos - 130 - prontifica-se a enviar-lhes, segundo haviam solicitado, a coleção das cartas de Inácio enviadas das Igrejas. Foram ainda empregadas, posteriormente, por Atanásio, Crisóstomo, Teodoreto e Severo, bons conhecedores da lingua grega e das tradições, com absoluta segurança.

Diante disto os críticos, movidos por preconceitos religiosos, tiveram de questionar não apenas a autenticidade de Orígenes, mas mesmo de Policarpo, e pasmem, de Eusébio i é da História Eclesiástica. Segundo eles, esta corresponderia a uma falsificação e aquelas a interpolações... Dado que - em 107 - o episcopado 'NÃO PODERIA existir.', ou seja, porque não esta de acordo com suas teorias prediletas...

A respeito das Cartas de Inácio há três versões. Uma ampliada, constando de dez cartas. A versão intermediária, encarada como autêntica - Um dos principais defensores da autenticidade foi o Bispo J B Ligthfoot -  pela maior parte dos estudiosos e uma versão resumida editada pelo Dr Cureton em 1845.

Feitas estas observações passo a resenha doutrinal da obra:


  • Trindade excelsa - "Assim portadores sois de Deus, do Cristo e do Espírito Santo." Efésios IX "Na fé, no amor, no Filho, no Pai, no Espírito Santo..." Magn XIII,01
  • Encarnação do Verbo - "Assim nosso Deus Jesus Cristo, segundo a economia do Pai, habitou o seio de Maria, procedendo de Davi e do Espírito Santo." Efésios XVIII "Fora do tempo, atemporal, invisível, mas que se tornou visível para nós, sendo impalpável e impassível se tornou palpável e passível a ponto de poder sofrer por nós." Policarpo III,02 "Caso blasfeme contra seu Senhor, declarando que não se encarnou. Aquele que ousa faze-lo o arrenega de todo e faz-se portador da morte." Ismirn V,02
  • Natureza divina do Cristo - "Segundo a fé e a caridade em Nosso Senhor Jesus Cristo imitadores sois de Deus." Efésios I,01 "Constatei assim que sois imitadores de Deus." Tral I,02 "Jesus Cristo estava com o Pai antes dos séculos e por fim se manifestou."  Magn VI,01
  • Natureza humana de Cristo - "Sede surdos quando não vos anunciarem a Jesus Cristo filho de Davi, nascido de Maria, o qual nasceu, comeu, bebeu, foi condenado sob Pôncio Pilatos, que verdadeiramente foi crucificado e morreu a vista do céu, da terra e dos abismos..."  Tral IX,01 "Os incrédulos e ímpios declaram que ele sofreu apenas aparentemente." Tral X,01 "Ele sofreu verdadeiramente e verdadeiramente ressuscitou, não apenas na aparência como dizem os incrédulos." Ismirn II,01 "Sei e creio que mesmo após a ressurreição conservou a carne... Assim após a ressurreição comeu e bebeu junto com eles como ser de carne embora já na unidade do Pai." Ismir III,01 sgs "Instruo as igrejas na Unidade na carne e no espírito de Jesus." Magn I,02
  • A unidade das duas naturezas - "Há um só médico carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, antes passível e agora impassível." Efésios VII,01 "Filho do homem e Filho de Deus." Efésios XX,02
  • Comunicação de Bens - "SANGUE DE DEUS." Efésios I,01
  • Nascimento do Senhor - "Ao poder deste mundo ficou oculta a Virgindade de Maria e seu parto." Éfesios XIX,01
  • Batismo do Senhor - "O Senhor foi batizado para santificar o elemento da água." Efésios XVIII
  • O Evangelho - "Convém seguir os profetas, mas acima de tudo o Evangelho no qual a paixão é mostrada e a ressurreição testificada." Ismirniotas VII,02
  • A Sucessão apostólica - "Assim aquele que é o dono da casa administradores envia para chefia-la e é necessário que nos recebamos a eles como se fossem a pessoa que os enviou." Efésios VI,01
  • Hierarquia eclesiástica - "Sem eles, diáconos, presbíteros e bispos não há Igreja." Tral III,01 "Não pode haver cabeça sem membros ou membros sem cabeça e Deus mesmo é o fiador desta Unidade."  id XI,01
  • O Bispo - "A fim de que congregados na mesma obediência e submissos ao Bispo e ao presbítero santificados sejais em todas as coisas." Efésios II,02 "Jesus Cristo vida nossa é inseparável do pensamento do Pai, tal e qual os Bispos, estabelecidos por toda terra são inseparáveis do pensamento de Cristo." Id III.02
  • Igreja eterna - "A Igreja que foi grandemente abençoada com a plenitude de Deus Pai predestinada foi antes dos séculos para subsistir para sempre e reter uma glória que jamais passa." Efésios I,01
  • Igreja Incorruptível - "Como sinal de incorruptibilidade de sua Igreja." Efésios XVII,01
  • Igreja Católica - "Onde esta o Bispo esta a Igreja Católica." Ismirniotas VIII,02
  • Unidade da Igreja - "Indispensável é a unidade sem fragmento a fim de que em Deus estejais." Efésios IV,02 "Nada que seja feito isoladamente pode ser digno de louvor. Pelo contrário congregai-vos em comum." Magn VII,01 "Tudo quanto fiz pude pela causa da Unidade uma vez que não pode Deus habitar onde haja divisão e cólera." Filadelf VIII,01 "Fugi as divisões que são raiz de todo mal." Ismirn VII,02 "Preocupa-te com a unidade, pois nada há de mais excelente." Policarpo I,02
  • Livre arbítrio - "Orai por todos os homes pois a possibilidade de conversão." Efésios X,01
  • A graça do Senhor - "Fora dele nada tem valor." Efésios XI,02 "Todo laço de iniquidade quebrado foi quando nosso Deus apareceu em forma de homem." Id XIX,03 "Ele tudo suportou por nossa salvação." Ismirn II,01 "Na graça dispostos estais para fazer qualquer boa ação diante de Deus." Policarp VII
  • Sinergia - "São ambas de Deus e nossas e sucedidas pela santidade e pela perfeição." Efésios XIV,01"Caso vocês desejem fazer o bem Deus sempre estará disposto a vos ajudar." Ismirn XI,02 "É obra de Deus e vossa." Policap VII "Reabilitados pelo sangue de Deus realizais até o fim a obra que convém a vossa natureza." Efésios I,01
  • Necessidade de obras (ao menos 'a posteriori') - "Que sejais reconhecidos por vossas obras." Efésios IV,02 "Pessoas há que falsamente portam o 'nome' mas procedem de modo diferente e indigno de Deus..." Id VII,01 "Que por vossas obras eles se tornem discípulos nossos." Id X,01 "Melhor calar e ser do que falar e não ser bom..." Id XV,01 "Tudo façamos como se ele habitasse dentro de nós, como em templos seus." Id XV,03 "Não basta portar o nome Cristão, é necessário se-lo de fato." Magn IV,01 "Que vosso depósito sejam as obras e que possais retirar as somas a que fazeis jus." Policarp VI,02
  • A perseverança como impulso que parte do homem - "Caso nele perseverarmos e evitando as ameaças do mal." Magn I,02
  • O mérito - "Caso ameis apenas os bons discípulos mérito algum tereis." Policarp II,03 "Mesmo as coisas que no dia a dia realizais são espirituais se as realizais em Cristo Jesus." Efésios VIII,01
  • Acessibilidade a perfeição: "Quem professa a fé não peca, quem esta no amor não odeia e assim pelos frutos se conhece a árvore. Os que alegam em Cristo estar são reconhecidos por suas boas obras." Efésios XIV,02 "Não podeis realizar as coisas da infidelidade nem os da infidelidade as coisas da fé." Efésios VIII,01
  • O solifideismo (falsa doutrina) - "Aqueles que tem opiniões estranhas sobre a graça de Cristo, não cultivam o amor, não se preocupam com o órfão, o estrangeiro e a viúva e desprezam o prisioneiro, o liberto, o faminto e o sedento." Ismirn VI,02
  • Sacramento do Batismo - "Sem o Bispo não é permitido Batizar ou celebrar o ágape." Ismirn VIII,02 "Vosso Batismo vos sirva de escudo." Policarp VI,02
  • Sacramento da Eucaristia - "Anseio apenas pelo pão de Deus que é a carne de Cristo e quero beber apenas de seu sangue, prova de amor inexaurível, pelo que não sinto prazer nos alimentos comuns." Rom VII,03 "Há na Eucaristia uma só carne de Cristo e um só cálice do elemento de seu sangue." Filadelf IV,01 "Eles repudiam a Eucaristia porque não podem crer que a Eucaristia seja a carne de nosso Redentor Jesus Cristo..." Ismirn VII,01
  • Sacrifício eucarístico - "Achegai-vos do único templo de Deus e do único ALTAR e do único Senhor Jesus Cristo." Magn VII,01 "Um único ALTAR assim como um só Bispo." Filadelf IV "Quem não esta junto ao ALTAR privado esta do Pão de Deus." Efésios V,01 "Quem esta dentro do santuário puro é, mas aquele que permanece do lado de fora é imundo i é aquele que procede sem Bispo, presbitério ou diácono." Tral VII.02
  • Sacramento do Matrimônio: "Convém que aqueles homens e mulheres que se casem, efetuem sua união com assentimento do Bispo de modo que sua união seja feita no Senhor e não na carne apenas." Policarp V,01
  • A Santa e vivificante Cruz - "Somos guindados pela alavanca da Cruz." Efésios IX,01 "(As ervas daninhas) não são ramos de sua cruz." Tral XI,01 "Pela Cruz, Cristo vos chama a sua paixão, como membros dela que sois." Id, id "Como pregados em carne e espírito a Cruz de Cristo." Ismirn I,01
  •  A imortalidade da alma - "Meu espírito imola-se por vós, não apenas agora, mas quando a Deus chegar." Tral XIII,03 "Não me impeçais de viver, não queirais que morra eu, não me prendais a este mundo, não tenteis seduzir com a matéria quem tem sede de Deus. Deixai que eu receba a luz pura, pois quando lá tiver chegado serei pleno... corre dentro de mim uma água viva que murmura: Vem para teu Pai." Rom VI,02 sgs
  • Ressurreição da carne - "Antes exercessem o amor ao invés de disputar e talvez assim obtivessem acesso a boa ressurreição." Ismirn VII,01
  • O celibato - "Se alguém pode permanecer na castidade, para a glória da carne do Senhor, permaneça também humilde." Policarp V,02 Alude ainda as 'Virgens que são viúvas.' em Smirn XIII.01
  • Adoração Dominical - "Aqueles que viviam na antiga ordem das coisas, tendo chegado a uma nova esperança, não observam mais o sábado mais o dia do Senhor, no qual nossa vida levantou-se por meio dele, da morte." Magn IX,01
  • As heresias - "Aqueles que para granjear fama, misturam Jesus Cristo, consigo mesmos são como aqueles que misturam vinho licoroso com veneno mortal." Tral VI,01 "Os lobos tem afastado muitos da unidade. Apartai-vos destas ervas daninhas que Jesus Cristo não plantou porque elas não pertencem a seu Pai... E aquele que caminha em ensinamentos estranhos, não tem parte na paixão do Senhor." Filadelf II,02/III,01 e sgs
  • Os judaizantes: "Tolice ter Cristo na boca e judaizar. Não foi o Cristianismo que acreditou no Judaismo mas o Judaismo que acreditou no Cristianismo." Magn X,03 "Se alguém vos interpreta judaismo, não creiais pois é melhor ouvir o Evangelho de um circunciso do que a Torá de um incircunciso." Filadelf VI,01
  • Ética, o amor - "O começo é a fé, o fim é o amor." Efésios XIV,01
  • Ética, a paz - "Coisa valiosa é a paz." Efésios XIII,01
  • Ética, a mansidão - "Diante da ira sede mansos... e da ferocidade pacíficos." Efésios X,02
  • Ética, a humildade - "Face ao orgulho permanecei humildes." Id,id     


sábado, 18 de abril de 2009

Todo poderoso - Hierarquia de atributos

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Os hebreus - por serem uma gente carnal - acreditavam que o poder fosse o mais nobre e eminente dentre os predicados divinos e por isso costumavam referir-se a Deus como o Todo Poderoso. Gn 17,1 Assim os maometanos, para os quais a divindade é ante de tudo onipotente, a maior parte do paganismo antigo e a religião de modo geral.

Alias a ideia de onipotência esta frequentemente relacionada com a ideia perniciosa de milagres, de modo que para a gente rude e iletrada o poder de Deus é medido pelo número de milagres que executa em favor de seus adoradores. Raramente eles consideram a Divindade em si mesma sob outros aspectos como o amor, a bondade, a benignidade, a verdade, a justiça, etc E serviriam de bom grado a ala ou a jave ou mesmo a trimurti hindu caso tais deuses se mostrassem mais milagreiros do que os santos de nossa religião, aos quais amiúde dirigem-se com o objetivo de obterem graças ou favores de caráter imediatista.

É exatamente desta mentalidade 'irreligiosa' ou melhor supersticiosa, que os leva a encarar o Sumo Bem como um milagreiro ou taumaturgo e a querer utilizar-se dele como um 'meio' para obterem coisas que os pentecostais, os heréticos, os embusteiros e os charlatães tiram farto proveito, adquirindo farta clientela entre os nossos e convertendo a Instituição Cristã numa espécie de tenda de milagres. Cristianismo para eles é sinônimo de pajelança.

Nós no entanto é que somos culpados e responsável por tão triste estado de coisas uma vez que não ensinamos os nossos a considerar Deus no conjunto de seus atributos, insistindo doentiamente a respeito de sua onipotência. E no entanto a concepção teológica do Evangelho é muito mais rica, ampla e profunda.

Por que então os antigos padres optaram por apresentar a divindade como Toda Poderosa?

De fato os padres estavam afastados por apenas dois séculos e meio da Era apostólica com seus portentosos prodígios. Afastados em menos de um século da Era dos Mártires cuja resistência a dor - Ora compreendida em termos puramente psicológicos - era encarada igualmente como divina e coevos face ao triunfo da igreja sobre o paganismo antigo. Roma sequer havia caído e do islã não havia sequer sinal... Viviam portanto os padres niceno constantinopolitanos um momento triunfalesco e só podiam atribuí-lo a santa divindade.

Não estava em poder deles adivinhar ou conhecer o futuro e considerar que tal apreciação não seria sempre adequada ou conveniente. E que em outras conjunturas, épocas, Idades e Eras, teria a mãe Igreja de explorar outros atributos divinos. Tal o sentir de nossa Idade, que é mais madura, além de passar por uma grande crise.

Na própria medida em que a igreja vai se educando a luz do Evangelho e se tornando mais civilizada tende a aprofundar a consideração de Deus, de amplia-la, de aperfeiçoa-la enfim. Desprendendo-se dos conceitos limitados que recebera do judaísmo e que mantivera face ao declínio do paganismo antigo.

Consideremos portanto os atributos da divindade em seu conjunto antes de examinarmos o tema da onipotência divina.

Sabemos assim que acima do poder divino está a Sabedoria ou inteligência divina a qual cognominamos Onisciência. Por isso já o Salmista dizia: "FIZESTES TODAS AS COISAS COM SABEDORIA." SL 104,24

Da mesma maneira como os homens mais eminentes destacaram-se mais pelo brilho do intelecto ou pela compreensão do que pela simples força física, Deus é tanto mais glorioso e apreciável pela sabedoria com que concebeu as leis que regulam o universo, do que pelo poder que as sustenta.

Por outro lado também sabemos que acima da sabedoria de Deus está sua justiça, segundo esta escrito: "JUSTO ÉS EM TODOS OS TEUS CAMINHOS E SANTO NA TUAS VEREDAS TODAS." Sl 139,137

Afinal se não basta a um homem qualquer ser inteligente se não é justo ou Ético, como teríamos um Deus Ético caso não dispusesse sua sabedoria para a cominação da justiça?

A justiça no entanto é apenas uma categoria enquanto Bem.

A natureza divina, além dela, possui uma gama muito mais larga de Bens; enfim todos os bens imagináveis e possíveis.

Por isso é nosso Deus a Bondade Plena ou o Sumo Bem.

Eis porque declarou o Senhor Jesus Cristo: "UM SÓ É BOM: DEUS." Mt 19,18

Afinal é o Pai das luzes e todos os bens existentes, ainda que remotamente falando, dele procedem.

Dentre tantos elementos positivos e excelentes, destaca-se no Ser divino a misericórdia, conforme está escrito: "SOU EU O DEUS CLEMENTE E MISERICORDIOSO." Ex 34,6

Assim a Liturgia refere-se a ele como: Generoso, Magnânimo, Excelente, Filantropo, Benevolente, Amável e Amigo dos homens.

Por fim acima de todos os atributos acime está a Caridade que de todos os bens é o mais nobre porquanto: "DEUS É AMOR." I Jo 4,8

Amor porque como já fizemos observar reflete a relação entre Pai e Filho, relação marcada sobretudo pelo sentimento do Amor.

Dai um dos papas romanos mais recentes ter dito com plena razão: É Deus nosso Pai e nossa mãe. Assim o é.

Por isso os Cristãos de hoje são convidados a recitar: Creio em um só Deus Pai que é Todo amor.

Assim num Deus que perdoa bem mais do que setenta vezes sete vezes e que, a exemplo daquele Pai extremoso da parábola, esta sempre disposto a perdoar o Filho Pródigo, que a ele se volta contrito e arrependido.

É Deus amor e por isso não faz acepção de pessoas e para ele já não existe judeu, grego ou romano. Chines, indiano, árabe, russo, etíope ou peruano. Negro, indígena, caucasiano ou nipônico. Ele não se guia por critério de raça ou etnia e não considera as separações e distinções arbitrárias criadas pelos homens: Operários, mendigos, párias e sudras são todos igualmente acolhidos e amados por ele. Pois ele deseja que todos os homens sejam salvos e pela comunicação da verdade plena. Não alguns, poucos ou uma ínfima minoria, mas todos, o gênero humano, a espécie humana!


A soberania divina


Temos no entanto de considerar a Onipotência ou o poder de Deus.

Pelo simples fato de que, a partir do conceito de onipotência, desvinculado dos demais atributos divinos e considerado isoladamente, tem os homens sacado conclusões irreverentes e blasfemas.

Assim para os maometanos e para os sectários cristãos legatários de Calvino devemos compreender a onipotência divina como uma permissão para fazer o mal ou para pecar sem pecar. 

Os protestantes, como os juristas absolutistas (Estes pautados no Digesto), costumam declarar que Deus por ser onipotente ou soberano esta acima de suas próprias leis podendo fazer o que bem quer, inclusive o que a Lei dada aos homens, classifica como pecaminoso. Destarte embora a lei dada aos mortais estipule: Não matarás, a ele Deus é permitido não só matar a quem quiser (por meio de supostos castigos temporais ou catástrofes como imaginavam os estúpidos hebreus - Assim epidemias) como autorizar outros homens a matarem em seu nome! Tal os judeus, tal os calvinistas que os seguem em seus raciocínios carnais. O Evangelho no entanto declara que o Maligno, este sim, e não o Deus Bom, é assassino desde o princípio. Logo, como Deus haveria de ser imitador seu, e carniceiro e matador???

Todavia como o antigo testamento, numa perspectiva totalmente errada, apresenta deus como matador, mentiroso, etc Os bibliólatras assinam embaixo e apresentam da mesma forma o Deus do Evangelho, corrompendo-o.

Aqui porém a perspectiva é totalmente outra, sendo impossível que Deus faça o mal.

Não porque lhe falte forças para tanto.

Sendo Deus Onipotente não lhe falta força para fazer o mal, pecar ou prevaricar. Certamente Deus pode fazer o mal, mas não faz.

Agora por que não o faz?

Por que além de ser um poder, no caso cego; é Deus uma sabedoria, uma vontade, uma consciência que dispõem de um poder.

Assim não faz Deus o mal porque não pode querer fazer o mal?

Isto é que Deus não pode!

Agora porque não pode Deus querer fazer o mal?

Simples: Porque é Bom. Porque é o Sumo Bem. Porque esta imutavelmente fixo no Bem. Porque é perfeito...

Assim a perfeição leva-o a decidir-se pelo Bem e a imutabilidade a fixar-se no bem sem oscilação.

E amando o Bem apenas e amando-o imutavelmente desde toda eternidade odeia Deus o mal.

Logo como poderia praticar o que odeia?

E como poderia passar de um oposto ao outro sem mudar?

E como mudando e sendo mutável poderia ser divino?

Afinal não é o Deus dos apóstolos Imutável e sem sombra de variação?
Pode Deus mudar?

Certamente não pode porque deixaria de ser imutável.

Logo não pode pecar.

A menos que esteja fixado imutavelmente no mal e seja mau.

Assim Deus só pode ser Bom e fazer o que é Bom.

Sendo imutável constitui lei ou regra para si mesmo.

E a Lei que regula os homens só é boa porque regula a essência divina.

Não existe uma Lei para os homens e outra Lei para a divindade.

Impondo Deus as criaturas a mesma norma que regula a si mesmo.

Por isso a lei natural pode ser cognominada Lei divina. Não apenas porque procede de Deus mas porque esta em Deus.

Resulta de tudo isto não ser Deus livre.

Afinal liberdade implica alteração, e Deus...

Deus não se move porque sendo perfeito nada busca. Achando-se imutavelmente fixo no Bem.

Escolher equivale sempre, a no mínimo, poder realizar uma ação inferior ou menos perfeita. Nem isto pode fazer Deus. Não porque lhe faltem forças, mas como já dissemos porque lhe falte vontade.

Sendo absolutamente perfeito, Deus só pode realizar atos perfeitos no mais alto grau e jamais uma operação inferior ou imperfeita.

Assim o que corresponde uma virtude nas criaturas, na divindade corresponderia a uma aberração.

Gozam as criaturas racionais de liberdade para que após terem conhecido o mal por experiência, possam abandona-lo voluntariamente após terem tomado conhecimento do bem e da virtude, adquirindo méritos.

Foram criadas em estado temporário de imperfeição para que livremente possam tornar-se perfeitas por meio da correção da vontade.

Em Deus, que é absolutamente perfeito, a liberdade e a mutabilidade não fazem sentido algum.

Por isso declaramos que Deus não é livre para querer e menos ainda para fazer qualquer coisa e que nele não ha sombra de vontade caprichosa.

Deus poderia fazer o mal apenar se pudesse querer o mal. Agora como poderia querer o mal se é Santo e Bom? E como poderia pecar ou prevaricar sem atuar contra sua boa vontade? Como poderia atuar contra si mesmo sem mudar? Por isso declaramos que a perfeição, a imutabilidade e a bondade precedem o poder divino e regulam-no. Não sendo o Deus dos Cristãos, o Deus do Evangelho, o Deus de Jesus Cristo um poder cego e arbitrário. Mas consciência virtuosa e santíssima!

Não Deus jamais age de improviso, por capricho ou arbitrariamente como os homens. Todas as suas ações e operações são manifestações sapiíssimas de uma vontade eterna.
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Há Deus??? - O problema do ateísmo





Manifesto é o defeito comum aos mortais e que consiste em amar os extremos e oscilar entre eles.

Assim enquanto alguns multiplicam deuses ao infinito outros negam que haja qualquer Deus.

Tais os politeístas, tais os ateus.

A principal diferença aqui é que os politeístas são mais discretos e comedidos enquanto que os ateus fazem grande bulha ou gala em torno de seu ponto de vista, encarando-o inclusive como sinônimo de magnitude intelectual.

Qual o filósofo que não seja ateu? Perguntam eles.

Ora bolas: Swiburn e dentre os falecidos Antony Flew, Thibon, Ricoeur, Ellul, Jaspers, Maritain, Marcel...

Mas qual o cientista que não seja ateu? Indagam.

Neil de Grace Tyson, Collins, e dentre os já falecidos Gould, Fermi, Lemaitrê, Einstein, Planck...

Mas Diderot, Voltaire, Rousseau, Galileu, etc não eram todos ateus???

De modo algum - Diderot, Voltaire, Rousseau era todos deístas. Spinosa panteísta. Galileu positivamente Católico.

Stalin este sim, era ateu ou melhor ateísta. Paul Pot também o era. E é claro o Marquês de Sade... Além de um grande número de nazistas alemães. E no entanto os ateus não fazem, a mínima questão de anuncia-lo para que todos saibam!

Mas será que os ateus não podem ter uma ética elevada?

Penso que isto seja coisa que não se discute.

Claro que pessoas ateias podem viver uma vida Ética, mormente quando foram criadas num ambiente religioso, teísta, deísta, etc Afinal á Ética é produto da cultura...

Raramente alguém desconstrói por completo sua Ética apenas por ter abraçado o ateísmo.

No fim das contas as pessoas que se converteram ao ateísmo continuam vivendo como sempre viveram, como espíritas, Católicas, Budistas, etc

Assim o que temos de investigar não é se existem bons ateus ou ateus 'éticos' mas se o ateísmo é capaz de produzir uma Ética sua que corresponda a nossas aspirações mais nobre e elevadas ou se o ateísmo pode dar suporte ao humanismo.

Caso em que temos de considerar as opiniões dos 'idiotas' do Dostoevsky, do Scheller, do Kant, do Locke, do Descartes, do Bacon e por ai afora...

Não pretendo ao menos num primeiro momento, entrar no mérito das tais provas clássicas a respeito da existência de Deus.

Mas questionar os ideólogos ateístas e perguntar-lhes sobre o que nos podem oferecer de concreto em termos de Ética, de comportamento, de ação, de princípios e valores, de bem e mal enfim.

É uma demanda muito importante e penso que deva ser satisfeita.

Caso neste domínio Deus seja necessário, então certamente precisará existir e então certamente existirá. Afinal o problema de nossa espécie e civilização é antes de tudo ético, não técnico. Técnica temos...

De fato vangloria-se o ateísmo, acompanhado pelo materialismo, de ter dado colossal impulso a ciência ou a técnica. Em que pese o fato de Darwin e Newton não terem sido ateus e tampouco Kepler e Da Vinci. Não perderei tempo malhando em ferro frio. Quem quiser constatar quão poucos ateus fizeram ciência remeto as obras de Poggendorf, ide a elas!

Quanto a ciência ou a técnica no entanto ousarei tecer uma observação ou melhor reproduzir uma - Discutível é o valor de uma ciência sem consciência. 
O espírito da frade acima - O qual faz positivista bater com a cabeça na parede - remonta ao grande Sócrates.

Ouso perguntar destarte: Que fez o ateísmo pela consciência do homem, com o intuito de eleva-la?

Eliminemos Deus do plano da Ética.

Podemos conceber qualquer tipo de lei universal e externa ao homem em seus domínios?

Existirá algum imperativo categórico que transcenda aos indivíduos?

Haverá algum critério objetivo em termos de bem e mal, vício ou virtude, crime ou santidade?

Temo que aqui a resposta possa ser apenas uma: Não.

Afinal como poderá haver lei se não há legislador algum?

E como poderá existir algo de externamente universal exceto em termos de materialidade?

Como poderá ser universal se é individual?

E como haveria de ser objetivo se restam apenas mentalidades separadas cada qual com sua subjetividade fabricando princípios e valores não só distintos uns dos outros mas até mesmo opostos???

Afinal sem Deus que elemento unificador resta em termos de Ética?

Sem Deus há nações, religiões, clubes, agremiações, indivíduos... cada qual com suas leis e lei alguma comum.

Excluída a existência do numinoso temos um multidão de seres, de pessoas, de indivíduos alienados uns dos outros.

Cada individuo é lei para si mesmo e nada para os demais.

Humanidade para além dos domínios da Biologia é coisa que não existe. Quebrou-se o espelho em milhões de fragmentos minúsculos. Em termos de idealidade estamos completamente isolados uns dos outros. Até podemos formar grupos porém jamais um grupo que englobe todos os seres humanos.

Em termos de Ética jamais haverá acordo, mas conflito aberto.

Por via alguma poderá fugir, o ateísmo, a uma solução individualista e relativista em termos de ética.

Tanto a noção de bem quanto a noção de mal é relativa ao individuo, tendo cada qual o direito líquido e certo de produzir a sua ética ou a sua moralidade em oposição a ética do rabanho...

Quando chegamos exatamente aqui, precisamente neste ponto o ateísta encara-me curiosamente e pergunta: Sim, mas qual é o problema? Perceba que o ateísmo é libertador!

Libertador???

Pois sim...

Perceba com Sartre como somos ilimitadamente livres para fazermos o que bem quisermos ou o que bem entendermos???

Qualquer coisa?

Digo, aquilo que você considerar bom.

Cada qual pode fazer aquilo que considera bom?

Exatamente.

Mas e se estiver equivocado?

Como poderá equivocar-se se é padrão de autoridade para si mesmo?

Neste caso sempre estará certo?

Ao mesmo para si.

Ótimo, e se por acaso considerar que o estupro seja bom, poderá neste caso estuprar? E se considerar que a tortura seja boa, poderá torturar? E se considerar o assassinato, o rouco, o engano... como coisas boas?

Julgo que não devamos fazer causar dano ou prejudicar outras pessoas.

Mas e se o julgar de modo diferente?

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Acaso sua opinião não é válida apenas para si mesmo?

Certamente...

Neste caso a opinião do assassino, do estuprador, do ladrão... também será válida para cada um deles e isto pelo simples fato de cada qual minimizar seus próprios crimes ou defeitos.

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Agora considere quais seriam os resultados caso semelhante teoria, sobre o direito de assassinar, torturar, estuprar, roubar, trair, etc fosse levada a sério pelos elementos de uma determinada Sociedade?

Imagine só com quanta alegria e contentamento seria a boa nova de Sartre recebida por todos os psicopatas e celerados que povoam o submundo da criminalidade???

De fato o ateísmo parece libertar algo que existe nos homens, mas não o homem mesmo.

Que o homem tenha direito de conquistar seu espaço, de realizar-se, de afirmar-se enquanto pessoa; longe de mim negar. Que seja livre e que tenha direitos essenciais e objetivamente fixados, e inalienáveis, digo a mesma coisa...

E no entanto se este homem compreender que sua liberdade implica - para ser plena ou absoluta -suprimir as liberdades alheias ou rivais?

E se este homem acreditar que tem o direito de abater os demais seres humanos, de domina-los, de subjuga-los, de oprimi-los, de escraviza-los em benefício próprio?

E caso este homem esteja persuadido de que os demais sendo-lhe inferiores não possuem direito algum?

E se este homem pensar que pode matar, torturar, estuprar, roubar e enganar impunemente compreendendo que tais ações criminosas para ele constituem um direito???

Você continuara dizendo que a falta de um Deus, o árbitro supremo pertence a ele, enquanto indivíduo???

Bela doutrina esta do individualismo especialmente quando posta no acesso de tarados, psicopatas ou de pessoas com instintos perversos; as quais bem poderiam vir a perpetrar tais ações conscientemente e a justifica-las metafisicamente em nossos tribunais apelando a 'benção' da liberdade, da liberdade ilimitada e absoluta é claro.

Claro que diante disto você ateu procurará, e não duvido apenas sorrio, reformular, reformar, reeditar ou colorir a sua doutrina ética, polindo-lhe as arestas (Mas a que custo).

Não é coisa nova.

Também J S Mill homem genial e de convicções agnósticas (Sequer era ateu!) consagrou seu engenho ao polimento da doutrina pragmática (formulada pelo deísta Benthan) buscando torna-la mais humana e aceitável. Afinal era necessário estabelecer que satisfação, prazer ou felicidade deveria prevalecer... E lá vai nosso positivista genial, tomar empréstimos logo a quem? Aos odiados essencialistas Sócrates, Platão, Aristóteles, Jesus, etc os quais eram igualmente deístas ou religiosos declarados.

Que resulta disto, que sai da forja de Mill?

Segundo o pensador inglês o que deveria prevalecer - Veja bem! - era o máximo grau de felicidade estendido ao máximo número possível de pessoas possível, seja a nação ou a humanidade. Quem não percebe aqui que nosso homem avança já pelo terreno do personalismo ou mesmo do socialismo? Formulando que a felicidade geral da nação deve prevalecer face ao ideal de felicidade traçada por um indivíduo? Sacrifica nosso autor o idolatrado individualismo ao pragmatismo imprimindo-lhe uma conotação social...

Mas isto não será excelente?

E no entanto tem pés de barro...

E por que?

Porque quando Sócrates, Platão, Aristóteles, Sófocles, Jesus e outros mestres dos tempos passados afirmavam o primado já da pessoa, já da Sociedade, cada qual em seu espaço; afirmavam-no em nome de um Legislador supremo, e portanto enquanto algo essencial, universal, objetivo e imutável; de modo algum como algo relativo e questionável. Era algo que até podiam ser discutido sobriamente como pessoas de boa fé, mas que no fim das contas deveria ser aceito sob pena de determinados prejuízos espirituais...

Queremos dizer que a Ética essencialista podia ser afirmada e imposta face a todos os homens e culturas em nome de um poder Supremo, e isto a ponto de exigir submissão e ser capaz de controlar os caracteres mais difíceis, obstinados e problemáticos, com raras exceções. Tratava-se aqui de um princípio interno, que se introjetado com sucesso exigia fidelidade e auto controle, o que vai muito além da ação militar ou policial i é duma coerção externa.

As pessoas não deixavam de matar por temerem a prisão, mas por temerem sansões e punições espirituais ou por temerem poluir a si mesmas e grande coisa é temer violar uma lei divina e contaminar a consciência. Se o homem estiver persuadido de que as coisas funcionam assim certamente buscara controlar a si mesmo.

Naturalmente que há o outro lado da moeda... E que como tudo quanto é humano, esta ética possa sofrer abuso e grave abuso, degenerando numa moral judaizante, equivocada, maniqueista, puritana, repressora.. Com as imagens danosas e prejudiciais do inferno, dos castigos eternos, do fogo, etc e a decorrente elaboração de complexos, traumas, bloqueios, etc E é claro que temos de reformula-la numa perspectiva verdadeiramente ética e humanista (que é a do Evangelho) considerando Freud e seus colaboradores...

O abuso no entanto nem tolhe o uso nem torna a coisa abusada desprezível em si mesma.

Consideremos então se é possível recuperar o essencialismo ético, recolocando-o nos trilhos indicados por Jesus ou pelos antigos mestres gregos, como Aristóteles.

Mesmo porque, sempre que Mill afirmar sua teoria Ética em seu próprio nome, como J S Mill qualquer individuo sempre poderá discordar dele não? Acaso discordar não é direito líquido e certo do homem face aos juízos, opiniões ou teorias formuladas por outro homem?

Neste caso qualquer degenerado, tarado, psicopata poderia encarar o pensador inglês e argumentar: Compreendo perfeitamente mas julgo ou continuo julgando que as aspirações do indivíduo são tudo e que devam prevalecer sempre face a ideia de 'bem estar geral' ou social formulado por você?

Mas quem é que haverá de discordar de J S Mill, quem discordará??? Antes dele Max Stirner e após ele Ayn Rand como imensa horda de seguidores, todos individualistas. E ciosos quanto a suas dignidades individuais.

Tal seu caso. Você até poderá declarar pomposamente - E nem sei com base em que... - que o 'Direito de um termina onde começa o direito de outro'. Trata-se certamente de uma frase bastante bela e diria essencialmente verdadeira. No entanto como passará aos olhos do outro como formulação puramente humana ou opinião individual, ele sempre poderá dar com os ombros (A pretexto de qualquer coisa) e declarar: Compreendo, mas discordo e opino que...

Você poderá teimar obstinadamente e declarar em seu próprio nome que nós seres humanos devemos nos identificar uns com os outros tendo em vista a similaridade de condição. Assim se o outro ao ser ferido sofre e não gostaríamos de ser feridos, devemos nos abster de ferir! Mais se ao ser enganado o outro sofre devemos revelar-lhe a verdade! Não, não devemos fazer ao outro o que não queremos que façam a nós; melhor ainda - Façamos ao outro tudo quanto aspiramos que nos faça! Absolutamente nobre, mas... Mesmo assim... Assistiria a qualquer individuo o direito líquido e certo de dizer que não esta de acordo, que não concorda, que não aceita e que tudo isto não passa de besteira...

E que outro indivíduo estaria acima dele? Que autoridade superior seria capaz de convence-lo? Mas... Entre homens livres não há autoridade superior no plano da imanência, e tampouco Deus. Logo, a qualquer um é defeso manter sua opinião!

Até posso ver e antever a ideia que lhe passa pela cabeça:

Como dez cabeças pensam mais do que uma, deve o individuo submeter - Ao menos quanto as coisas comuns - suas decisões a sansão da sociedade em que vive (Seja cidade, província, nação ou país), especialmente numa perspectiva democrática e conformar-se com o veredito comum, o veredito da lei.

Eis o que dizem e declaram os juristas ateus, materialistas e positivistas - Kelsen, Alf Ross, etc - alegando que as leis formuladas pelo Estado devam ser sempre acatadas não em nome de uma Lei natural, a qual não existe (Não pode existir Lei natural sem que haja um Deus legislador!), mas enquanto ato positivo realizado pelo corpo social, ou seja, enquanto algo formalmente autoritativo.

Aqui passamos de um extremo ao outro.

Pois face a bela solução do direito puro ou positivo, alias encarado como algo supra social ou neutro (!!!) somem-se tanto o individuo com suas pretensões toscas quanto a pessoa com seus direitos inalienáveis engolidos pelo estado. Pelo que chegamos a mais vil estatolatria, encarando o estado ou o parlamento como um organismo divino que jamais é capaz de errar!

E no entanto este mesmo estado - e numa perspectiva democrática, não totalitária - decreta que um Sócrates beba cicuta e que um Jesus seja crucificado. Aplaudamos!!!

Que dizer então sobre os estados totalitários governados por um Hitler, por um Stalin ou por um Bush??? Obedecer sem questionar a instância legislativa superior, eis a norma, regra e lei. Desobediência civil ou resistência nem pensar, afinal quem é ou o que é a pessoa humana face ao novo legislador supremo dos 'outros' neo ateus, o Estado???

Negada uma onipotência transcendente temos duas opções apenas: Indivíduos pretensiosamente onipotentes como Ed Geyn ou um estado onipotente nos termos da Alemanha Nazista ou da Inglaterra absolutista dos Tudors... Tais as opções éticas dadas aos ateus ou fornecidas pelo ateísmo seguido numa linha escolástica de coerência.

Afinal no fim das contas o significado não é dado pelo que você formula - E você até pode formular conceitos bastante nobres e elevados, por que não? - e sim por quem ou em nome de quem a tese é formulada. Pois caso tenha sido formulada por você individuo, sempre poderá ser negada! Outro porém será sentido do discurso caso apresentado em nome de um princípio supremo como a consciência Universal ou a alma do mundo!

Percebem como Hamurabi, Manu, Tages, Licurgo, Labarna, Numa, o suposto Moisés e até Maomé quando impuseram seus códigos legais em nome de seus deuses???

Quem é o homem ou o indivíduo para que legisle face aos demais exceto se tem força para coagir e dominar?

Qual o estado ou grupo social que tomando uma decisão qualquer sejam impermeável ao erro?

Assim sua solução extremista e radical, de apelar ao estado, sequer abalará os paladinos do individualismo, os quais com boas razões apresentarão os pecados cometidos pelo Estado: Os campos de concentração, os expurgos, os holomodores, os campos de cultivo, as invasões e guerras imperialistas, os julgamentos corrompidos (Como o de Sacco e Vanzetti) etc. Lançarão os crimes deste Leviatã em face de seus servos, para em seguida darem com os ombros e declarar: Até compreendo seu ponto de vista, mas... Como individuo livre que sou, discordo e sustento a tese oposta: A liberdade do individuo é ilimitada, absoluta, total; podendo ele fazer tudo quanto desejar ou o que bem quiser!

Agora aprecie a derradeira pedra adicionada a construção pelo francês Ch Foulcault: Com que direito internamos nossos psicopatas e histéricos em clínicas e hospitais, afinal de contas, quem sabe se no fundo, no fundo tudo isto não passa de um controle político tendo em vista a erradicação dos elementos questionadores e inconformados da Sociedade??? Enfim os verdadeiros gênios acham-se em nossos presídios psiquiátricos após terem queimado, esquartejado, torturado, estuprado, etc no exercício de suas liberdades. Tudo isto não nos faz lembrar as teorias de Raskolnicoff sobre o direito do homem superior fazer tudo quanto quer, inclusive assassinar? Obviamente que o critério de genialidade - Esta é do policial Porfírio - é individual, logo...

Observe o leitor amigo a que extremos de moralidade chegaram os ateus! Uns sustentando a onipotência da Sociedade ou a estatolatria, e consequentemente eliminando a razão, a livre vontade, a consciência e a pessoa! E outros, situados no extremo oposto, forjando opiniões a respeito da liberdade dos alienados e declarando que não temos o menor direito de prende-los! Resta-nos esclarecer se podemos prender os verdadeiros criminosos, i é, os assassinos, os torturadores, os estupradores, os fraudulentos, etc???

Admitidos os pressupostos da ética ateia, segundo o qual o individuo é lei suprema para si mesmo, não; exceto se os convencermos de que cometeram crimes e de que devam arrepender-se. Do contrário se afirmam obstinadamente que cometeram ações lícitas, discutir o que, se o homem é a lei suprema de si mesmo e as leis sempre podem estar equivocadas não passando de preconceitos impostos pelo poder??? Claro que dispondo do poder sempre poderemos prender e punir tais sujeitos! Mas e convence-los de que cometeram um crime ou uma monstruosidade, conseguiremos convence-los partindo do individualismo??? Temo que não... O sujeito continuará sentindo-se lesado em seus direitos e oprimido??? E é torturador, estuprador, assassino, ladrão... Feito vítima por obra e graça da doutrina individualista...

Afinal, do ponto de vista do individualismo a única diferença considerável se dá no sentido de quem possui a força ou tem as armas. Assim os criminosos são apenas arbitrariamente declarados criminosos, quanto na verdade limitaram-se a agir livremente ou no exercício da tão afamada liberdade! Afinal, se Deus inexiste a liberdade é tudo... Se Deus não existe absolutamente tudo me é permitido - E assim o é! Explica-me como você, homem igual a mim, pode decidir em meu lugar e regular minha vida? Você é lei apenas para si e não para mim... Eis os tarados e criminosos convertidos em mártires face a um poder ilegítimo e arbitrário!

Se de fato há uma ética, é como já se disse sem sansão. Coisa de contrato social que possa ser revisto. Adere quem quer... E quem não quer aderir mas continuar prevaricando e acometendo os semelhantes?

Ah Madame Holland foste sábia quando exclamaste: Liberdade, liberdade; quantos crimes se cometem em teu nome!

E no entanto os neo ateus - dominados pelos elementos da cultura - ao menos e suma maior parte, não fazem escolástica a partir de seus princípios como a liberdade individual ilimitada. Apenas Sartre, Camus, e alguns outros fizeram alguns ensaios difíceis de serem lidos, como aquele da peça em que o filho degola serenamente a própria mãe e depois, já não me recordo bem, senta-se na poltrona da sala para fumar ou beber, alguma coisa assim.

Todavia no exato momento em que romperem com a herança negativa do positivismo (em torno da ética) e aceitarem o desafio de elaborar uma Ética propriamente sua, veremos o que resultará disto! E como saíra essa nova ética sem Deus!

Pois no momento exato em que reconhecermos ao individuo o direito de causar dano ao semelhante ou de cometer verdadeiros crimes em nome da liberdade, a sociedade estará por um fio e a civilização definitivamente condenada. Cindida a humanidade em dois campos, teremos a um lado o pesadelo de Hobbes i é a luta do homem (convertido em lobo) contra o homem nos termos de uma guerra total; e a outro o sonho de Hobbes i é o domínio absoluto do Leviatã.

Digo por fim, a guiza de conclusão, que semelhante dilema - terrível - só será capaz de ser superado a partir do velho conceito de Lei natural, essencial, universal, superior ao homem e imutável; além de racional. Recuperamos nosso elemento unificador perdido e iniciamos um diálogo prenhe de possibilidades ou caminhamos para o caos! Estabeleceremos novamente o necessário equilíbrio entre as prerrogativas e exigências da pessoa e as exigências da Sociedade ou sucumbiremos enquanto projeto de civilização, o que será imensamente trágico.

Temos de retornar imediatamente aos antigos gregos, aos socráticos, a Aristóteles, a Jesus, aos salmanticenses - Vitória, Bañez, Cano, Soto, Suarez... - antes que seja tarde demais.

No entanto caso não exista um Deus...