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A consciência histórica do Cristianismo

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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Prefácio




A HISTÓRIA É A MESTRA DA VIDA - Cícero




É a palavra História de origem grega e significa 'investigação' ou 'pesquisa'. 

História é a ciência que investiga o passado do gênero humano.

Por passado do gênero humano queremos dizer ações mais importantes executadas pelos homens numa determinada sociedade, as quais em certo sentido sobrevivendo a seus próprios autores repercutiram até o tempo presente.

Tais ações causaram maior ou menor impacto na medida em que alteraram as condições de vida de certo número de pessoas influenciado a conduta delas.

A História sagrada é um recorte que diz respeito a vida e a obra de Jesus Cristo e de seus apóstolos.

Já a História eclesiástica diz respeito as situações porque passou a Igreja desde os tempos apostólicos até o tempo presente ou seja a Idade Contemporânea.

Em sentido mais largo abarca não apenas a História das Igrejas apostólicas - Isto é, que foram fundadas pelos próprios apóstolos - mas até mesmo a História das Heresias, do cisma romano, do surgimento e desenvolvimento do protestantismo e do espiritismo, da afirmação do capitalismo e do comunismo, do advento e ascensão das diversas culturas de morte. Tudo isto diz respeito a História da Igreja uma vez que a heresia - Seja ela qual for - consiste numa relação de negação face a determinado mistério da fé, e não se pode negar qualquer 'fato' sem antes questiona-lo. Enquanto crítica aos elementos essenciais da fé, a História da heresia constitui um departamento da História da Igreja e do Cristianismo.



Cristianismo - a religião histórica por excelência


March Bloch em sua 'Apologia a História' aludiu ao Cristianismo como sendo a religião histórica por excelência ou como uma religião de historiadores.

E a razão disto é bastante simples.

Para o povo Cristão, a Encarnação do Verbo equivale a entrada de Deus no domínio finito do tempo e do espaço.

Na medida em que "O Verbo se fez carne e habitou entre nós." tornou-se Deus Emanuel, ou seja companheiro, parceiro, alguém que esta próximo e caminha junto conosco e não uma entidade distante e afastada.

Passa o Deus transcendente a partilhar com os mortais das unidades finitas do tempo e do espaço pelo simples fato de tornar-se também Imanente ou 'verdadeiro homem' em tudo semelhante a nós menos na maldade.

Desde então, para os Cristãos o mistério da Encarnação, e consequentemente o mistério do tempo converte-se no eixo, centro, foco e chave da História humana.

Foi justamente por isto que a História Ocidental foi cindida em duas grandes Eras, a que precede e a que sucede a manifestação do Deus encarnado.

Na encarnação cruzam-se dois mistérios: O mistério de Deus e o mistério do tempo. Ambos entrelaçam-se na pessoa de Cristo e formam um grande todo.

Daí o fascínio exercido pela História sobre a mentalidade Cristã desde os tempos mais remotos, o qual levou Hegesipo a escrever suas 'Ypomnémata' ou memórias, cerca de 180 desta Era. Sexto Julio Africano a compor sua Chronographiai - A primeira História Universal elaborada por um Cristão, alias dedicada mais a história profana ou gentílica do que a História da Igreja, a qual dá muito pouca atenção -  cerca de 220, Hipólito a editar seu Chrosnicon vinte anos depois (240), e Mar Eusébio de Cesarea a elaborar sua 'Pantadope História' ou História universal, traduzida para o Latim e ampliada por Jerônimo de Stridon. 

Todas estas Histórias universais tiveram escopo salientar por quais modos teria Deus preparado as diversas culturas - Egipcia, Babilônica, Persa, Grega, Romana, Fenícia e Hebraica - para sua futura vinda, já por meio de comunicações sobrenaturais, oráculos e profecias; já por meio do cultivo da via racional ou da Filosofia.

Só para constar foi Eusébio a quem pela primeira vez ocorreu a feliz ideia de estabelecer um quadro sincrônico dos fatos históricos acontecidos em diversas culturas distintas. Assim em seus 'canones' dispôs em colunas paralelas os principais eventos ocorridos na Mesopotâmia, no Egito, na Palestina, Fenícia, Grécia e Roma, conforme o critério da simultaneidade. 


A produção Histórica Cristã -


Cento e trinta anos após Hegesipo ter dado o primeiro passo em direção da historiografia Cristã e composto seu ensaio, o já citado Eusébio Pânfilo, Bispo de Cesareia, compôs sua obra máxima a assim chamada 'História Eclesiástica', propondo-se a narrar circunstanciosamente tudo quanto ocorrera da ascensão do Salvador até o Édito de Milão (313) sob a governação de Constantino César.

Eusébio soube dispor de dupla vantagem: Ter pleno acesso a biblioteca organizada por Orígenes e Pânfilo em Cesareia marítima setenta anos antes e ser uma espécie de 'ministro de cultos' ou mesmo secretário do Monarca para assuntos da natureza religiosa. De maneira que acabou tendo acesso a todos os arquivos existentes - Eclesiásticos e profanos - coletando documentos de natureza antiquissima tombados por seus predecessores e mandando trazer outros tantos de todas partes do Império. Estava portanto muito bem qualificado e preparado.

Nem nos devemos admirar de que a maior parte dos documentos que ele pode consultar - como o 'Logion Kuriakon Ecsegéseis', de Pápias, Bispo de Hierapolis e ouvinte de S João; as já citadas memórias de Hegesipo, as Hypotposeis de S Clemente, o Elenchos de S Justino, as obras de Ariston, Milciades, Apolinário, Melitão, etc - estejam atualmente perdidos. De modo que só temos acesso a tais fragmentos graças a ele, Eusébio.

Eusébio também mostrou-se bastante capaz de compreender o valor das cartas ou das correspondências para a História, antecipando-se a muitos de seus coetâneos. Daí ter compulsado as cartas de Irineu, Clemente, Orígenes, etc as quais tampouco temos acesso.

Eis porque sua História eclesiástica é fonte única para nós e consequentemente o registro Cristão mais importante após o Novo Testamento e os escritos dos Padres Apostólicos - Didaké, Clemente Romano, Inácio, etc

Não fossem os esforços de Eusébio tudo quanto diz respeito aos três primeiros séculos desta Era seria absolutamente misterioso para nós em termos de Cristianismo, achando-se os Cristãos na mais completa penumbra e obscuridade a respeito de suas origens. Outros atribuem a invenção das estruturas sincrônicas a Sexto Julius.



Bibliografia historiográfica do Cristianismo - (Oriente)


A partir de Eusébio a moda ou 'mania' de compor obras sobre a História da Igreja - A qual comportava por assim dizer a História duma sociedade que era eminentemente religiosa - pegou e o número delas acabou multiplicando-se-se ao infinito. Tanto que os alemães reuniram uma autêntica biblioteca intitulada 'Cronistas' Bizantinos na qual o principal assunto é obviamente a igreja de Bizâncio, então capital da parte remanescente do antigo Império romano.

Gelásio de Cesaréia sucessor de Eusébio compôs a biografia de seu ilustre predecessor e a continuação de sua História eclesiástica. Sua obra foi continuada por homens ainda mais habilidosos assim Sócrates e Sozomeno, dois intelectuais bizantinos - O primeiro jurista - que teriam vivido na primeira metade do século V, e que parecem ter baseado suas obras, nas obras de Tucidides, Éforo, Teopompo e Políbio. 

Teodoreto - Bispo de Cirro e amigo de Leão, o grande de Roma - continuou as obras de ambos até cerca de 475.

Entrementes Filipe de Sides (Ortodoxo) publicou sua alentada Christianiké em 36 volumes - A maior História eclesiástica de que se tem notícia - resumidos pelo patriarca S Fócio na "Biblioteca" e o ariano Filostorgo sua História em 12 volumes, resumida pelo mesmo S Fócio.

A primeira tentativa de legar a posteridade uma série de biografias dos 'homens base' do Cristianismo ou seja dos Bispos, mártires e doutores dos primeiros séculos foi composta por Jerônimo de Stridon em 392.

Ele tomou por base a obra homônima (Viribus illustris) de Suetônius - Sendo influenciado também pelas 'Vidas de Cornélio Nepos e pelas 'Vidas paralelas' de Plutarco de Queronea - e alistou 135 personagens.

Outros tantos personagens foram acrescentados pelo monge Genádio de Marselha (século V), por Isidor de Sevilha e por Idelfonso de Toledo (Estes dois últimos salientando em especial os escritores da Espanha). 

A História de Gelásio de Císico, acrescenta alguns registros a de seu homônimo Gelásio de Cesaréia. João Diacrinômenes completa Teodoreto até cerca de 510 e Basílio da Cilicia até 540 embora as Histórias de ambos principiem em 440. A Chronographia de João Malalas atinge 563. Zacarias Bispo de Metilene adiantou sua Historia até 570, partindo de 450.

Mais tarde no século VI - cerca de 530 - Teodoro, o leitor - Uniu as três Histórias eclesiásticas de Sócrates, Sozomeno e Teodoreto numa só; ele acrescentou quatro livros de sua própria autoria os quais mais tarde foram resumidos pelos cronistas bizantinos.

A tripartida foi traduzida para o latim por Epifânio dito, o monge e - mais tarde - associada a História de Eusébio (Traduzida e reformulada por S Rufino de Aquiléia) constando a tripartida dos latinos de quatro volumes: Eusébio traduzido por S Rufino mais a tripartida de Teodoro traduzida por Epifânio. Posteriormente alguns copista acrescentaram um quinto volume, o já citado Chronicon de Jerônimo. Total: Quatro volumes > Eusébio + Sócrates + Sozomeno + Teodoreto; avançando a 475.

A outra Tripartida, mais recente, foi elaborada por Anastácio, o bibliotecário com base nas Histórias de Sinkellos, Teophanes e Nicéforo. 

A 'Crônica de Arbela' foi composta em 530 por Massihhazek com base em registros muito mais antigos que chegam ao século II e é quase tão importante para a História do Cristianismo quanto a obra de Eusébio. A 'Crônica de Edessa' também é vital para o conhecimento de nossas raízes pois suas fontes chegam até o ano 130 d C. A 'Crônica de Alexandria' talvez composta por Aniano ou por Panodoros também apresenta documentos que remontam ao século II.

João de Éfeso leva sua História até 585 ultrapassando em quinze anos a de Zacarias, e suprindo exatamente o que falta para este período. Evágrio o escolástico narra os eventos sucedidos até 594. Outro autor de importância foi João Malalas i é o retórico, cuja História se estende até o reinado de Justiniano. 

A partir daí seguem os historiadores da Diaspora: Joshua de Zuqnin ou Amid, que levou sua narrativa até 755, João de Nikiu, Mar Iacobus de Edessa, Agapios, Dinisius de Tal Mahre, Cirilo de Edessa, Mikail, Yahya de Antakia, Denis Bar Saliba, Bar Hebraeus (Abu Faraj), Abduisho Soba, Giorgios abd el Amin (Elmacin), etc que descreveram a vida das comunidades Ortodoxas sob o jugo do Islã e dos califas dos infiéis.

Moshe de Khorene escreveu na História dos armênios. Samuel Anetsi foi quem pela primeira vez elaborou uma Cronologia da Armênia. Sebeos de Bragatunis escreveu uma narrativa valiosa sobre os impérios romano e sassânida bem como sobre o aparecimento do Islã.

S Fócio foi o primeiro dentre os Cristãos a quem ocorreu a feliz ideia de transmitir uma resenha de cada livro lido por si juntamente com a biografia do autor e apreciações críticas em seu 'Myriobiblion' ou Biblioteca, que consta de 280 sessões. Então ele merece ser considerado como o legítimo pai ou pioneiro dos estudos patrísticos.

Os autores da Suidas seguindo os passos de S Fócio preservaram o essencial da cultura greco romana, reduzindo a Biblioteca de Bizâncio a uma imensa Enciclopédia literária, cujos elementos cristãos não são nada desprezíveis. Segundo alguns especialistas a Suidas seria uma epítome do grande Dicionário bio bibliográfico escrito por Hesíquio de Mileto. 

Os de Bizâncio seguiram sua tradição de modo que, Imperador após Imperador, ano após ano, século após século sucederam-se os Bispos e monges cronistas até a queda da capital em 1453. Estevão o Cronógrafo, Constantino Porfiriogenetes, Giorgios Sinkellos, Giorgios Hamartolos, Nikephóro; Batrak, Teófanes; o confessor, Simeão; o logotheta, Girgis Cedrenus, Teodor Balsamon, Nikephóros Calixtino, Mikail Pselles, Anna Comeno, Glyka, Pakimeros, Teophylactus de Simocatta, Nikitas Akominatus, Dimitri Kidones, Gregórios Akindines, Nikephoros Gregoras, Zonaras, Genádios Escolástico, Leon Khalkondiles,... Foram alguns dos que deixaram relatos. Os três primeiros levaram adiante a tarefa de compor Histórias universais e Sinkellos adotou o modelo de Eusébio, dispondo sua narrativa em tabelas sincrônicas. Já os monges alexandrinos Aniano e Panodorus haviam vulgarizado o uso de tais tabelas no século V.

Nestor, o cronista compôs a primeira História dos russos e Helmond de Plun a Crônica dos eslavos onde refere a conversão dos eslavos polabios. Mar illa de Nisibis compôs o Kitab al azmina ou Chronographiae, valiosa quanto ao novo império persa. 


Bibliografia historiográfica do Cristianismo - (Ocidente, até 625)



Os ocidentais principiaram a escrever suas Histórias com Aulus Orosio, amigo pessoal de Agostinho de Hipona. Compôs ele uma alentada 'História contra os pagãos' objetivando corroborar e ampliar a 'Cidade de Deus' de Agostinho. Este havia se limitado a focalizar a História do Império romano, Orosio aventura-se a focalizar as Histórias dos Babilônicos, Cartagineses e Gregos antes de chegar aos romanos.

A quem interessar-se mais por estes dois autores recomendamos este outro artigo de nossa autoria:

http://diariodeumbobodacorte.blogspot.com.br/2017/05/o-sentido-da-cidade-de-deus-em.html

Sulpicio Severo escreveu uma História universal até o ano 400. Próspero de Aquitânia levou sua crônica até 455. O espanhol Idácio estendeu sua narrativa até 468, Marcelim Comes continuou até 534, Vitório de Tununes, o confessor, chegou a 566 e João Biclaro completou a série, levando sua História até 590. Essas narrativas dizem respeito ao tempo em que os reinos dos bárbaros entretinham relações diplomáticas com Bizâncio e ao tempo em que os bizantinos ainda dominavam a Palestina. A partir daí a fonte de informação passa a ser a Tripartite de Anastas.

Apenas os gregos continuam a manter cronistas e a elaborar Crônicas periódicas.

A própria Cidade de Deus de Agostinho (415) representa já um monumento historiográfico pelo simples fato de referir os acontecimentos de seu próprio tempo buscando compreende-los em conexão com fatos do passado longevo e reportando-se a fontes tão antigas quanto Terentius Varro.

A narrativa de Isidor de Sevilha chega a 615.

O escritor carolingio Aymon de Halberstadt compôs a última universal da Igreja - dos quatro primeiros séculos - em 853. Adão de Vienne registrou a história de Carlos Magno e seus sucessores em sua Crônica. Assim os 'Annales' de Flodoardus de Reims. Assim a famosa Vita Carolus de Eignhart, as 'Histórias' de Freculfo e a Crônica de Regino abade de Prum, bastante importante quanto aos sucessores de Carlos Magno e mesmo quanto a História da Bulgária, o que não deixa de ser surpreendente.

A História dos visigodos composta pelo já citado Isidor chega a 625. Jordanes e o abade Cassiodoro de Vivarium escreveram as Histórias dos Godos e invasões bárbaras. Gregório de Tuors escreveu a História das Gálias (Hist Francorum) em dez volumes, Gildasius e Beda de Jarrow escreveram a História dos reinos da Inglaterra desde quando a fé lá teria sido introduzida por S Jose de Arimateia. Paulo, o diácono compôs a História dos Lombardos, Kosmas decanus de Praha, escreveu a Chronica Boemorum, a primeira História dos tchecos.

Após este tempo (século X) a historiografia latina reverteu ao regionalismo. Desde então, por mais de meio milênio os ocidentais (Até cerca de 1350) escreveram apenas as histórias de seus mosteiros, igrejas, vilas ou cidades (Assim a Chronica de Evesham de Dominic de Evesham, Chronica de Farfa por Gragório da Cataniae, a "História da Igreja de York de Hugo o Chantre, a "História da abadia de Vézelay" de Hugo de Poitiers, A "História da diocese de Hamburg" por Adão de Bremen, A "História dos Bispos de Liége" por Heriger de Lobb, A 'Historia mediolanensis' de Landolfo, a Crônica Salernitana de Romualdo Guarna, o "Exordius" de Simeão de Durham, etc) raramente de seus países e ignoraram por completo as 'Histórias universais' que pretendiam partir da criação do mundo ou de um passado remoto envolvido pelas brumas da mitologia, substituindo tais narrativas pela reprodução dos primeiros capítulos do livro do Gênesis e desembocando já na Era Cristã, a partir de Augusto. 

De modo que a Introdução ou proêmio seguia quase sempre este plano: Primeiros Capítulos do Gênesis + Breve referência ao Augusto e ao nascimento de Cristo seguindo pelos Atos dos Apóstolos + O relato da conversão do pais em questão e da fundação da cidade ou mosteiro

Outra solução possível era resumir a Tripartida de Epifânio até chegar onde queriam.

A bem da verdade buscavam conservar o título (História do mundo) e até revelavam certa abrangência ou amplitude - Copiada - quanto ao Império romano. Como se pode inferir a partir de sua leitura, eram 'universais' apenas em sentido Histórico, quanto ao passado anterior a queda do Império romano. Após a queda do Império o foco geográfico de tais históricas se ia restringindo cada vez mais até que - no que se refere a época dos autores ou aos séculos imediatamente anteriores - assumia proporções bastante modestas, fossem diocesanas, citadinas, regionais e mais raramente nacionais; predominando sensivelmente as narrativas feudais sobre determinado mosteiro ou igreja. Exemplo clássico neste sentido é a 'Chronica' de Richard Pictaensis conhecido também como Richard de Poitiers, a qual a partir do século VII concentra-se quase que exclusivamente nas Gálias i é na atual França.

A mais ampla das Histórias do século XI abarca apenas o Norte da França, Alemanha, Bélgica e Holanda. Tal a "De diversitate temporum" de Alpert de Metz.

Nem é preciso dizer que esta reversão da História universal  - Cujas raízes chegavam a Homero e Hesíodo - a uma história regional e isolada em seu próprio tempo, indica por si só uma crise cultural bastante grave, assim a destruição das grandes Escolas e Bibliotecas pelas invasores germânicos e árabes (Não nos esqueçamos dos Persas em 610) a partir dos séculos IV e VII. De que resultou a destruição das Bibliotecas de Cesarea, Atenas, Alexandria, Antioquia, Roma e Cartago.

A própria inexistência de uma Unidade mais ampla já política, já religiosa (desde 1054) e consequentemente de meios de transporte e comunicações transcontinentais, tornavam impossível uma ideia em termos de conjunto ou de mundo, o qual por sinal, desde 640 estava cindido em três regiões estanques: Cristã, islâmica e gentílica, cada qual com sua lingua e cultura predominante. Dificilmente algum Cristão daquele tempo leria - mesmo se conhecesse árabe - Ibn Fadlan, Ibn Battuta, Makrisi, Al Masudi, Al Biruni ou qualquer outro Cronista muçulmano. Como muito dificilmente um muçulmano devoto leria Sigeberto de Gembloux, Chronicon de Scottus Mariano ou a Crônica de Hermann Contractus. Que pensar então sobre a China de Sema Kuan???

Seja como for Anastácio, o bibliotecario, seguindo o modelo de Jerônimo pode compor o 'liber pontificalis' ou livro dos Bispos de Roma até seu tempo.

O modelo de História nacional mais acabada de que dispomos corresponde a 'Gesta Friderici imperatoris' de Otto de Freising, o qual escreveu também as 'Duas cidades' continuando as obras de Agostinho e Orósio; ele floresceu no tempo de Mar Hugh Bispo de Jhalaba e ainda esta cheio de espírito Ortodoxo.

Glaberus escreveu sobre a França, a Escócia e o Sul da Itália em 1040. Ditmar de Merseburgo escreveu a Gesta dos imperadores alemães e Lamberto de Heresfeld as controvérsias entre o Império e o papado ao tempo de Henrique IV

William de Malmesbury que floresceu pelos idos do século XII compôs os "Atos dos reis de Inglaterra." Foi seguido por Geoffrey de Monmouth, autor da "Historia regum Britanniae", Willian de Newbury autor da "Historia rerum anglicanorum", João de Worcester com a "Crônica das crônicas", Henrique de Huntingdon autor da "Historia anglorum" e Simeão de Durham com sua "Historia regum anglorum et dacorum". Os monges ingleses obtiveram destaque nesta área porque foram herdeiros de uma tradição irlandesa cujas raízes penetram na antiguidade clássica. cf Th Cahill

Eadmerus
foi quem transplantou esta tradição a Albion no século X. Compondo ele mesmo uma narrativa bastante procurada durante a Idade Média.

Orderico Vitalis, monge inglês, foi o único que ensaiou, pelos idos do século XII, uma verdadeira História supra nacional, englobando as histórias da Inglaterra, França, Itália e Palestina e procurando estabelecer relações. 

Guilherme, Bispo latino de Tyr, consagrou seus esforços a escrever a Historia das Cruzadas, que é de grande valor. Já antes dele Fulcher de Chartres, testemunha ocular da primeira Cruzada havia composto um relato em três livros sobre ela.

Martinho de Opava, dito Troppaus, foi quem, quase mil anos depois de Eusébio introduziu o modelo das tábuas sincrônicas entre os latinos. Numa coluna referia as ações dos Bispos de Roma e noutra as ações correspondentes dos Imperadores realizadas no mesmo ano.

Hemming Decanus, monge de Worcester parece ter sido um dos primeiros a arquivar e restaurar documentos, isto pelos idos de 1100.

Sampiro, monge lionês, tomou sob seu encargo registrar a História dos cristãos hispânicos que viviam sob o domínio muçulmano (mozarabes). Henrique de Latvia foi quem pela primeira vez compendiou a História da Estônica. Thomas, o diácono, de Split compôs a primeira História dos croatas. Saxo gramático, arcediago e secretário de Absalão de Lund foi o primeiro a compôr uma História da Dinamarca. Pero López de Ayala foi o primeiro cronista Castelhano. João de Fordun parece ter sido o primeiro a escrever uma Crônica sobre a Escócia. 

O presbítero Froyssart de Valenciennes (sec XIV) parece ter sido o primeiro a ultrapassar com sucesso o limites da História local e regional em suas 'Crônicas'. Foi talvez o primeiro a relacionar o que  estava acontecendo nos principados alemães, França, Inglaterra, Itália, e fazer esboço de uma História continental ou européia.

Giovanni Villani foi quem pela primeira vez introduziu a estatística nos escritos históricos. Jean Le Bel parece ter sido pioneiro na 'História oral' recorrendo sistematicamente a entrevista.

A História universal da Igreja foi retomada somente em 1469 por Antoninus, Bispo de Florença. Sua narrativa vai da criação de Adão até sua própria época.

Vinte anos depois Hartmann Schedell de Nuremberga publicou sua "Crônica da História do mundo" (1493).

As antigas culturas do Novo Mundo e sua conquista pelos europeus foram compendiadas por: Pedro Mártir de Anghiera, Sepulveda, Juan Diaz, Francisco de Aguilar, B Las Casas, B de Sahagun, Toribio de Benavente, Francisco Lopez de Gomara, Motolinia, Juan de Torquemada, Gaspar de Carvajal, Pedro de Los Rios, Garcilaso; el inca, Murúa, Juan de Castellanos, Gregorio García, Pedro Aguado, Francisco Cervantes de Salazar, Salazar y Mendoza, Chimalpahin, Blas Valera, Pedro de Valencia, Jeronimo de Zamora, Mendieta, Diego de Landa, Diego Duran, Ovalle, Gonzalo F Oviedo, Tamayo de Vargas, Rivadaneyra, Piedrahita, Oviedo Y Baños, Pero Fernández del Pulgar, J Guevara, Pedro Lozano, Acosta, Fernão Cardim, Simão de Vasconcelos, Vicente do Salvador, Antonil, etc 

Como cronistas reais de Portugal obtiveram destaque os cistercienses Bernardo de Brito e Antonio Brandão. Na Espanha Zurita, Ocampo, Morales, Padilla, Bernáldez, Lobera, Pedro de Vallés Juan de Mariana SJ, Na Suíça destacou-se Aegidius Tschudi. Na França Mézeray autor da "História da França desde Faramundo". Na Inglaterra John Dryden.

Entrementes Marmol Carvajal compôs as relações sobre a África, Pedro Chirino a relação das Filipinas, Mateo Ricci a primeira relação sobre a China - Sucedida pela do Pe Alexandre Rhodes - João Rodrigues ("História da Igreja no Japão"), Vallignano Fróis forneceram ao Ocidente as primeiras informações sobre o Japão e Bouillevaux o primeiro a revelar-nos o esplendor da divilização Kmer. Baltazar Telles compôs a "História geral da Etiópia".

Sayce foi quem pela primeira vez investigou as relíquias da civilização Hitita. Dempster inaugurou as pesquisas no campo da estruscologia sendo sucedido pelos padres Lampredi e Lanzi. O Pe V Scheill, G Contenau e L Wooley destacaram-se como assiriólogos. F Lennormant investigou as civilizações asiáticas. J F Champollion, E Brugsh, Chabas, Weygall, Drioton, Montet, etc destacaram-se no campo da egiptologia. Winckelmann iniciou as escavações em Pompeia. Brasseur de Bourbourg revigorou as investigações sobre o antigo Império Azteca.

Os estudos no campo da paleontologia e História primitiva foram iniciados pelo católico Boucher de Perthes e posteriormente, cultivados com sucesso por dois sacerdotes, o Pe Henri Breuil e o Pe Teilhard Chardin. Este foi responsável pela exumação dos restos do sinantropus em Chu ku tien e aquele responsável pelo mais completo estudo já elaborado sobre as pinturas parietais de Altamira, Lascaux, etc

Richard Simon pode ser apontado como pai da Crítica Bíblica. Desenvolvida no século seguinte por Jean de Astruc e pelo Pe Geddes. No século XX o Pe Rolland de Vaux obteve destaque decifrando e classificando os 'rolos do Mar morto'.

Frederic Le Play foi pioneiro do campo da Sociologia.

Já então vivia Maquiavel e operava o principio da separação de poderes e da secularização de modo que aos poucos a História cindiu-se em duas partes: História política ou profana das nações e História religiosa ou eclesiástica.

Durante este período foram compostos diversos catalogos de escritores eclesiásticos por Sigebert de Gembloux, Honorato de Autun, Adelso de Melk e mais esmeradamente pelo abade Thritemius já no século XV.

O primeiro historiador protestante foi o médico Otto Von Brunfels. Sua obra 'Virorum Illustrium'  foi editada em 1527. É obra importante mas incipiente.

A primeira obra moderna que por assim dizer aprofundou o sentido universal da História eclesiástica, foi as 'Centurias de Magdburgo' cujo principal objetivo era apontar as inovações doutrinais introduzidas na Igreja pelo pontificado romano no decorrer dos séculos precedentes.

Procurando dar a Flacius - O organizador das 'Centúrias' - competente resposta o Cardeal Cesar Baronius, da ordem do oratório, editou sua monumental obra, intitulada "Annales eclesiástici", em 1588, compondo doze Tomos in folio sem chegar ao fim (Foi continuado por Theophylus Raynald)

A exemplo de Mar Eusébio ele pode consultar os arquivos e Biblioteca do Vaticano e apesar de seus erros, demonstrou que os reformadores protestantes estavam equivocados a respeito dos princípios fundamentais do Cristianismo, além de estabelecer as sucessões dos Arcebispos e Patriarcas das Igrejas apostólicas.

Após Baronius ter confrontado com bastante sucesso os centuriadores e apontado a deficiência da argumentação deles os protestantes perderam por assim dizer o 'sentido' geral ou universal da História Cristã passando a compor preferencialmente a gênese de sua própria fé, tais as inúmeras Histórias da Reforma protestante, que amiúde partem de M Lutero ou do século anterior. Assim as relações de Melanchton, Peucer, Hospinian, Chytraeus... 

Mosheim já no século XVIII foi o primeiro autor protestante a retomar o plano dos centuriadores e produzir uma História universal do Cristianismo sob a ótica do protestantismo, sempre com o intuito de atacar a igreja romana. No entanto ele parece ter sido o primeiro a ultrapassar a ideia absurda segundo a qual as doutrinas Católicas haviam sido inventadas pelo Papa romano, levando suas críticas até a Igreja Católica Ortodoxa propriamente disto e salientando o papel de Constantino como corruptor da fé, e consequentemente fazendo escola até hoje.

Da mesma maneira como os centuriadores do século XVI haviam arremetido contra o papa, apresentando-o como fabricante 'in totum' da fé Católica, ficando por explicar como havia uma fé Católica Ortodoxa, antes da criação do papado; Mosheim arremeteu contra Constantino acusando-o de ter paganizado a Igreja e portanto de ser o legítimo pai do Catolicismo Ortodoxo. É a partir de Mosheim que a historiografia protestante se torna oficialmente ao menos, anti patrística, ousando increpar os padres do século IV ou da idade de ouro da igreja, apresentando-os como cúmplices de Constantino e seus sucessores.

Harnack foi quem, século e meio depois, teve honestidade suficiente para corrigir o erro de seu colega e reconhecer que todos os elementos da fé Ortodoxa e Católica poderiam ser detectados nos escritos dos padres apostólicos, reportando a fé da igreja inimiga no mínimo ao ano 100 desta era, como sempre haviam argumentado os polemistas da igreja romana. O que nos remete há duzentos anos antes de Constantino e trás novamente a toma o equivoco dos centuriadores: Se o papado - criado no século XI - não podia ter inventado a fé Católica, como Constantino, sendo posterior a ela em duzentos anos, poderia te-la inventado.

Conveniente observar que a Apologética protestante 'ortodoxa' continua obstinadamente atrelada ao modelo traçado por Mosheim e portanto em oposição marcada face aos estudos religiosos no domínio da antiguidade Cristã.

Quanto a História universal ficou nas mãos dos romanistas que a ela dedicaram-se com autêntica voracidade a começar por Alexandre Noel ou como se diz Natalis Alexandre de Paris (30 volumes), De Launnoy, Orsi, Saccarelli, Maimbourg (15 volumes), Fleury (20 volumes), e inumeros outros.

Os estudos sobre os padres da Igreja foram ativamente retomados por Margarin de la Bigne (que editou a primeira patrologia), Petrus Canisius, Roberto Belarminus, Louis Ellie Du Pin, Antonius Possevinus SJ, Aloisius Lippomanus, De Combefis, Bossuet, Richard Simon, D Remy Ceillier, Le Nain de Tillemont, etc Este movimento foi seguido de perto na Inglaterra pelos teólogos padrão do anglicanismo defensores do Episcopado como Wotton e Grabe, dentre outros.

As atas dos Sínodos latinos e de seus concílios, bem como as versões latinas dos Concílios Antigos ou Ortodoxos, foram reunidas e elencadas por Ruynart, Baluze, Hardouin, Daniel Huetius e outros polígrafos. Os quais forneceram materiais para que Hefele o material necessário para escrever a monumental História dos Concílios. Quanto aos Concílios latinos Sarpi e Pallavicini compuseram a História do Concílio de Trento. O protestante M Chemnitz também produziu uma em quatro volumes.

Mosheim teve por continuador a Pfaff. 

Antoine Arnaud foi o primeiro Ocidental a reconhecer a herança grega ou oriental da Igreja. Na sua 'Perpetuidade da fé da igreja Católica na eucarista' ele procurou recolher todos os testemunhos das igrejas orientais que estavam a seu alcance para lança-los contra um protestantismo já completamente dominado pelas concepções platônicas de Zwinglio. Um colega seu, Eusebius Renaudot publicou a primeira coletânea de Liturgias Orientais, ainda hoje empregadas por nossas igrejas Ortodoxas.

Ebed Yeshu o jovem, Abraão de Achel (Achelensis) e Jose Assemani foram os primeiros ocidentais a editar os textos dos padres sírios, siríacos e assírios criticamente. 

Levados pela mesma maré os eruditos protestantes retomaram a faina de reunir e elencar duas próprias fontes, daí os trabalhos de Saligius, Buddeus, Walchius, Tittmann, Niemayer e sobretudo Bretscheneider organizador do monumental 'Corpus reformatorum'. 

Entrementes os papistas - como Panvinus e Muratori - continuavam a desenterrar monumentos e a editar histórias eclesiásticas críticas cada vez mais gigantescas.

Ducreux (Os séculos do Cristianismo) e Rohrbacher compuseram suas narrativas com 30 volumes cada qual. Berault Barcastel escreveu mais uma dúzia de volumes sobre o tema; Stolberg (continuado por Kerz e Brischar) no entanto levou a palma, pois sua História eclesiástica assoma a 53 tomos (Até hoje a mais extensa)!!! Hemner e Kraus também editaram suas 'Histórias'. Hortig foi continuado por Doellinger. Danielou e Marrou - já no século passado - compuseram uma excelente História Crítica ou 'Nova História da Igreja'. Já próximo de nós Flichet Martin editou a sua em dezoito tomos. Entre as epítomes ou resumos destacam-se Alzog e Rivaux.

Convém citar como obra de excepcional valor a 'História dos dogmas' composta pelo ex sacerdote papista Joseph Turmel nos últimos anos do século XIX. Turmel passa por criador da corrente 'patrística', muito próxima a do convertido (Ao Catolicismo Ortodoxo) D Guetté cuja História eclesiástica, na perspectiva da Ortodoxia não deixa no mínimo de ser interessante. 

O Talmud e as sifras dos infiéis principiaram a ser estudadas por Lirano (De Lyra) tendo por pbjetivo esclarecer certos pontos obscuros e idiotismos contidos no Sagrado Evangelho. Tais estudos foram continuados pelo príncipe dos exegetas Xantos Pagnini, por seu legatário F Vatablius, por Sixtus Senensis, pelo anglicano Ligthfoot e pelo Dr Drach no século décimo nono. Dentre os protestantes destacaram-se nesta área: os dois Buxtorfius, Surenheim, Vitringa e Schoetthenius.

Os Bolandistas iniciaram a crítica científica a respeito da hagiografia ou das vidas dos santos, partindo das orientações de De Launnoy. Daniel van Papenbroeck é contado como um dos pais da diplomática, ramo da História que aquilata a autenticidade interna e externa de um documento. Também os beneditinos de S Maur Montfaucon, Mabillon, Poetavius, Calmet, etc dedicaram-se a copiar, analisar e publicar documentos antigos, mormente sobre a História da França. Mabillon destacou-se na área da paleografia que é a leitura de documentos antigos e Poetavius foi pioneiro na área da Cronologia. Calmet, a exemplo de Ambrósio Calepino foi Dicionarista.

Alias a primeira Enciclopédia propriamente dita foi elaborada por um eclesiástico medieval Vicente de Beuvais. 

Pe Duchesne estudou as origens do culto Cristão. Os Padres Batiffol Amman a vida cotidiana dos primeiros cristãos. Festugière as relações entre a Filosofia antiga e o Catolicismo nascente, via igualmente explorada por Wener Jaeger em "Paidea grega e paidea Cristã". John Lingard escreveu detalhadamente sobre a Igreja antiga da Inglaterra, Abraão de Achel ou Achelense dedicou-se a historiar a Igreja do Líbano, Síria e Palestina (Sendo continuado pelo prolifico José Assemani), Monceux a Antiga Igreja do Norte da África e Graff a da Peninsula Arábica e Yemen. Noris escreveu a história do pelagianismo, Newmann a do arianismo e Marcelino Menendez y Pelayo a dos Heterodoxos espanhóis. A Historia dos monges do ocidente foi escrita por Montalembert. A História da Eutáxia (litúrgia ou culto de adoração) por Prospero Gueranger. A História da ação social da Igreja ou da caridade por Baudrillart.

As Catacumbas de Roma foram meticulosamente analisadas e estudadas por Antonio Bosio, Ugonio, Boldetti, Marangoni, Aringhi, D Agincourt e De Rossi, dentre outros. Tais descobertas e estudos foram tão fecundos que Marucchi pode publicar uma obra intitulada: 'A igreja protestante perante a Igreja das catacumbas.' Ludwig Von Pastor compôs sua monumental 'História dos papas' romanos em 30 volumes e Jaffé editou as Bulas e enciclicas dos mesmos papas.

A personalidade de Lutero foi cientificamente deslindada pelos padres Hartmann Grisar e Hienrich Denifle, e um aluvião de documentos inéditos publicados. Os símbolos protestantes haviam sido publicados por Schaff (protestante) juntamente com os símbolos antigos e sido criticamente analisados por A Mohler na 'Simbólica'. O impacto da reforma protestante sobre a sociedade alemã foi exaustivamente analisado por Doellinger e sobretudo pelo padre Janshens na "História do povo alemão" primeira obra consagrada a História cultura e que acabou servindo de modelo a História de Lamprecht. 

Jean Paul Migne montou uma gráfica em que editou todos os padres da Igreja em centenas de volumes. Funk, Tixeront, Permanender, Bardewaver, Quasten, Nautin, Altaner, Trevijano, Frayssinous, etc editaram epítomes dos padres.

Entre os protestantes a Historia eclesiástica foi cultivada com sucesso por Gieseler, Neander, Tholuck, Préssense, etc

Do lado romano, o convertido Hurter, alistou todos estes escritores citados e outros tantos milhares em seu Nomenclator theologicus, que é uma espécie de enciclopédia de escritores ortodoxos, romanos e anglicanos principiando pelos padres da Igreja. (294 Psss)

Mesmo após o predomínio do positivismo e, em seguida do marxismo nos domínios da Historiografia, os Católicos não deixaram de fazer escola com Capefigue, Barande, F de Coulanges, Hanotaux, Georges Duby e outros na França; com  Crhistopher Dawson, Hilaire Belloc, Bede Jarreth, Lewis Whydhan, Will Durant e Paul Johnson na Inglaterra. O Norte americano Th Woods autor da monumental obra "De como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental". O irlandes Th Cahill autor de outra obra não menos interessante, intitulada: "A Irlanda salvou a civilização Ocidental".

Dentre os liberais ou incrédulos que faziam parte da comunhão dos luteranos, escreveram sobre tais assuntos: Paulus, Chr Baur e sobretudo Strauss. Todas estas obras compostas pelos alemães foram sistematizadas pelo incrédulo Francês Ernesto Renan em suas "Origens do Cristianismo".

Percebendo os liberais ou incrédulos que a quase totalidade dos argumentos favoráveis a instituição Cristã eram tomados da História, optaram por invadir este campo e declarar guerra ao Cristianismo, suas fontes e credenciais, produzindo uma História anti Cristã e portanto sectária. 

Nem erraram eles, nem errou Marc Bloch.

Religião essencialmente histórica ou de historiadores resolve-se o Cristianismo no campo ou terreno da crítica histórica adquirindo pujança e solidez sem iguais. 

Um Cristianismo tradicional passado de pai para filho legado familiar (A maneira de um imóvel, de um automóvel, de um sofá ou de uma mesa...)... Um Cristianismo pautado no sentimentalismo difuso, no emocionalismo desbragado, no subjetivismo crasso ou no fetichismo ingênuo... Um Cristianismo místico pautado em delírios de natureza patológica...Um Cristianismo imediatista interessado em milagres ou supostas 'graças'... Um Cristianismo popular ou festeiro ou um Cristianismo puramente exterior ou ritualista e formal... Não será capaz de resistir as críticas que contra ele se levantam a maneira de um dilúvio...

Nossa fé ou será pujante, ampla, profunda, consciente, esclarecida; ou não será.

A incredulidade, o materialismo e mesmo o ateísmo aumentam dia após dia porque os fundamentos postos ao nosso Cristianismo, ao Cristianismo contemporâneo são aqueles mesmos designados pelo apóstolo quando disse que haveriam de ser queimados e destruídos: palha, papel, madeira, estopa, etc

E é verdadeiramente impossível que tais bases não sejam pulverizadas com o passar do tempo vindo a desabar fragosamente tudo quanto esteja edificado sobre elas.

Disse Jesus: "O homem prudente constrói sua casa sobre a rocha."

Posta sobre a areia a casa vem abaixo e posta sobre a lama ou o barro afunda-se. Em termos de solidez tudo depende dos fundamentos. 

A rocha sobre a qual esta edificada nossa santa fé, a fé Ortodoxa e Católica é a rocha da História; logo é a demonstração histórica que devemos recorrer, certos e convencidos de que nem o judaísmo nem o islamismo se lhe podem equiparar neste terreno.

Portanto se a igreja é de fato fundamental a História da humanidade; a História também é fundamental para a subsistência da Igreja no mundo.

A Filosofia fornece-nos apenas um preâmbulo de natureza genérica, concernente a veracidade do conhecimento humano e a existência de Deus. O qual também pode ser aproveitado pelo judaísmo e pelo islã.

Por sua própria natureza ela é incapaz de ultrapassar o pórtico.

Por limitação de objeto ela mesma recusa-se a os umbrais e conduzir-nos ao santuário da Verdade que é o Verbo Encarnado Jesus Cristo.

A Filosofia se dá por satisfeita com aquilo que a razão nos oferece: Deus e a imortalidade (Dada por verdadeira, quanto a este último item a demonstração Ética). Não sente necessidade daquilo que definimos como fé.

Caso estejamos dispostos a prosseguir e a fazer a grande aposta de Pascal temos de escolher outro guia.

A partir daqui o guia ou pedagogo que nos acompanha é a 'mestra da vida' ou seja a História.

Eis porque principiaremos, a partir de hoje, a escrever a História da Instituição Cristã partindo de seus mais remotos primórdios que são as profecias, até o tempo presente ou seja o ano 2013.

Rogamos ao amigo leitor, que seja compreensivo, benevolente e tolerante quanto a forma, por vezes descuidada, tendo em vista nossas múltiplas ocupações e trabalhos. Fixe pois a mente nas informações comunicadas ou no conteúdo. Na noz e não na casca!

Que pelas intercessões da Sempre Virgem Maria e de todos os Santos Vitoriosos amigos seus, o Senhor e Deus Jesus Cristo nos abençoe e guarde em sua divina graça para toda a eternidade.

Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, Trindade Sante e Único Deus verdadeiro: como era no principio, agora, sempre e pelos séculos, dos séculos e séculos. Amin!!!






Santo Deus, Deus Forte, Forte Imortal tem piedade de nós e salva-nos com a tua graça!





Ps: As perguntas podem e devem se feitas nos comentários. Sintam-se a vontade e sem qualquer tipo de constrangimento.














sábado, 18 de abril de 2009

Pai





"Eis como deveis rezar: PAI NOSSO, que estais no céu, santificado seja o vosso nome." Mt 6,9



Não a maior revolução no que diz respeito a natureza divina não foi a afirmação e triunfo do monoteísmo, como acredita a maior parte dos homens, mas certamente a afirmação da Paternidade de Deus feita por Jesus de Nazaré há cerca de mil novecentos e poucos anos.

Ali menos uma mutação em termos de quantidade, o que é relativamente importante.

Importante é reconhecer que Deus seja um só, uma vez que esteja perfeitamente cônscio a respeito do caráter do Uno.

Afinal de bem pouca valia seria ficar com um Assur, com um Javé, com um Zeus ou com um Quetzalcoatle. E teríamos ai um Uno muito, mas muito desagradável.

Logo mais importante do que apresentar a divindade como Unidade é apresenta-la como correspondendo ao Sumo Bem.

Um deus malvado será sempre uma diabo ou demônio, jamais Deus.

Um deus rancoroso, colérico, vingativo, repressor, policial, etc jamais passará de imagem equivocada construída pelos homens, será sempre ficção, não Deus.

Ademais, se há algo que os homens adoram, a atribuir a divindade seus mais baixos instintos - Como o desejo de vingar-se - e de projetar nela os crimes que aspiram cometer. Concebendo assim deuses assassinos, impudicos, mentirosos, etc Claro que não há Deus algum em tudo isto.

Percebei agora como o altivo senhor javé devia ser suplantado ou morto para que o Deus verdadeiro triunfasse!

E o coveiro de javé outro não senão o Senhor Jesus Cristo.

E já declarei em diversas ocasiões que o mero 'homem' Jesus - Dado que não fosse igualmente divino - é certamente muito mais elevado que javé e ala em termos de moralidade ou ética.

Que pensar sobre um deus rancoroso que jamais perdoa ou limita sua misericórdia e sobre um Homem que manda-nos perdoar setenta vezes sete vezes???

Percebem como o dogma da paternidade de Deus comporta um elemento totalmente novo e revolucionário???

Busquemos então explora-la e compreende-la o quanto seja possível.

Antes de tudo devemos considerar que o vínculo entre Pai e Filho é vínculo natural concretizado por meio da geração. Por meio da geração o Pai comunica ao Filho sua própria essência. Eis porque a caninidade é transmitida somente por um cão e a felinidade comunicada apenas por um gato. Gatos não geram cães, cães não produzem gatos e ratos não engendram leões! Pois o laço existente entre pais e filhos é a comunicação da essência. Gerar é fazer existir dentro duma condição dada.

Assim a divindade excelsa só poderia gerar algo divino e não algo humano. Afinal somos criaturas e não entidades divinas!

Neste caso que geração há em Deus e de que modo somos ou nos tornamos filhos seus?

Calma lá, vamos por partes para ver se compreendemos.

Claro que Deus sendo Pai deve ter um Filho divino, eternamente gerado por si e da mesma essencial sua o co existencial. Agora quem será este tal Deus Filho que não o conhecemos por meio da razão?

Homem houve, uma apenas, que ousou apresentar-se como Filho Único de Deus o Pai, viver como um Deus sobre a terra e morrer segundo viveu. Tal Jesus de Nazaré para o Dr Binet Sanglé um doido varrido para bilhões de seres humanos exatamente aquilo que afirmava ou dizia ser. O Deus encarnado, a pessoa do Filho eternamente gerado.

Eis o candidato.

Examinem-no, pois não teme ser examinado.

Apontai seus crimes, pecados, maldades...

Direi apenas que os divinos Sócrates e Aristóteles com as mais excelentes doutrinas que amente humana jamais conceberá e após terem envidado um esforço colossal não puderam salvar o mundo antigo da catástrofe e da destruição.

O Cristianismo antigo é que retomou os ideais afirmados por estes dois grandes homens e levou-os adiante realizando-lhe ao menos em parte o plano traçado por eles. Tal a República bizantina dos séculos IV a X com uma plêiade de instituições destinadas a promover e resgatar a dignidade da pessoa humana em todos os sentidos: Orfanatos, Jardins de infância, Escolas, Universidade, Dispensários, Ambulatórios, Hospitais, Hospedarias, Asilos, Museus, Bibliotecas, etc Magnífica esta civilização bizantina em sua época de ouro ou desabrochar (século IV) e não penso que ficasse a dever qualquer coisa a Atenas, exceto quanto a forma ou estrutura democrática.

Além disto indicou ele como fundamentos da nova cidade ou da nova república, o amor ao próximo e a capacidade de identificar-se com o outro.

Entre o desequilibrado e o divino, aposto no último conceito.

Localizamos o Filho do Pai, eternamente por ele gerado.

Deus de Deus, pessoa ou Realidade divina com seu Pai e o Espírito Santo.

Eis o Filho Natural do Pai. Eis seu Filho único.

Neste caso por que teria ele o Cristo ensinado os Cristãos a evocar deste Deus como Pai?

Sendo Filho natural, partilha seu dote com os mortais e pela fé, esperança e caridade nos faz participar de sua natureza. Pelo Santo Sacramento do Batismo, aqueles que acreditam no Legislador e Mestre Jesus Cristo tornam-se filhos adotivos assumidos pelo Pai. Tornam-se filhos nele e por ele Jesus Cristo enquanto membros seus, cuja natureza e condição quis assumir ao Encarnar-se!

Somos filhos adotivos do Pai e por ele assumidos por intermédio do único Filho natural. Tal a dignidade dos Cristãos batizados!

Que implica isto?

Não somos meros homens apenas mas participantes doutra geração e duma geração ou princípio superior e incorruptível. Somos filhos do céu e não apenas da terra.

Por natureza filhos dos homens, dos ancestrais, dos antigos; designados simbolicamente pelo termo 'Adão'  fomos misticamente reformados por outro princípio comunicado por Jesus Cristo, por sua amizade, por sua comunhão, por sua unidade. Aproximou-se Jesus Cristo tal modo de nós ao fazer-se homem a ponto de poder viver naqueles que creem nele e de implanta-los com ainda mais intensidade em si mesmo.

Aparelhos que éramos, desligados da tomada e incapazes de trabalhar, podemos agora, após termos sido religados, trabalhar inalteradamente, pois ele Jesus, é nossa fonte inesgotável de energia.

Se antes, sem ele, como ramos separados da videira, nada podíamos fazer, como ele tudo podemos fazer e assim viver como ele viveu na observância da Lei moral.

Pela adoção filiar fomos como que reativados para o bem e para a virtude, podendo florescer em santidade e perfeição. Tal e qual deveria ser um filho de deus!

Refeitos, restaurados, recriados, reformados e revitalizados internamente pelo Cristo nos tornamos outros tantos Cristos cópias suas. Dai o nome Cristão, o qual para nós latinos sabe a aumentativo...

Doravante, enquanto filhos não somos servos porque são categorias diferentes. O servo teme seu senhor. O Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai, é outra relação, totalmente distinta. Por isso o apóstolo proclama: O amor lança fora o temor.

A quem no entanto devemos temer por ser capaz de remeter o homem ao juízo e a punição? Ao pecado e a maldade, isto é o que Jesus Cristo nos ensina a temer em verdade.

E quanto a Deus, que diz ele?

"Que pai humano ao ouvir o filho pedindo um ovo lhe dará uma pedra? Ou que ouvindo-o pedir um peixe lhe dará uma serpente? Que direis então do Pai e Deus celestial?"
Eis o que diz Jesus Cristo, querendo significar que de Deus procedem apenas as coisas boas e excelentes. Daí ser cognominado Pai das luzes.

Do homem é que procedem os males e pecados pelos quais a morte da mente entrou no mundo já dizia o livro greco judaico da Sabedoria.
Diante disto temer o que?

Certamente só nos resta pagar com amor aquele que nos ama e obedecer-lhe, e observar-lhe os mandamentos, os quais 'não são pesados'. 
E para poder observa-los regularmente e honorificar nossa condição adotiva, enquanto filhos de Deus, clamemos cheios de fé e esperança:

"PAI, PAI NOSSO QUE ESTAIS NOS CÉUS, SANTIFICADO SEJA O VOSSO EXCELSO NOME."


Há Deus??? - O problema do ateísmo





Manifesto é o defeito comum aos mortais e que consiste em amar os extremos e oscilar entre eles.

Assim enquanto alguns multiplicam deuses ao infinito outros negam que haja qualquer Deus.

Tais os politeístas, tais os ateus.

A principal diferença aqui é que os politeístas são mais discretos e comedidos enquanto que os ateus fazem grande bulha ou gala em torno de seu ponto de vista, encarando-o inclusive como sinônimo de magnitude intelectual.

Qual o filósofo que não seja ateu? Perguntam eles.

Ora bolas: Swiburn e dentre os falecidos Antony Flew, Thibon, Ricoeur, Ellul, Jaspers, Maritain, Marcel...

Mas qual o cientista que não seja ateu? Indagam.

Neil de Grace Tyson, Collins, e dentre os já falecidos Gould, Fermi, Lemaitrê, Einstein, Planck...

Mas Diderot, Voltaire, Rousseau, Galileu, etc não eram todos ateus???

De modo algum - Diderot, Voltaire, Rousseau era todos deístas. Spinosa panteísta. Galileu positivamente Católico.

Stalin este sim, era ateu ou melhor ateísta. Paul Pot também o era. E é claro o Marquês de Sade... Além de um grande número de nazistas alemães. E no entanto os ateus não fazem, a mínima questão de anuncia-lo para que todos saibam!

Mas será que os ateus não podem ter uma ética elevada?

Penso que isto seja coisa que não se discute.

Claro que pessoas ateias podem viver uma vida Ética, mormente quando foram criadas num ambiente religioso, teísta, deísta, etc Afinal á Ética é produto da cultura...

Raramente alguém desconstrói por completo sua Ética apenas por ter abraçado o ateísmo.

No fim das contas as pessoas que se converteram ao ateísmo continuam vivendo como sempre viveram, como espíritas, Católicas, Budistas, etc

Assim o que temos de investigar não é se existem bons ateus ou ateus 'éticos' mas se o ateísmo é capaz de produzir uma Ética sua que corresponda a nossas aspirações mais nobre e elevadas ou se o ateísmo pode dar suporte ao humanismo.

Caso em que temos de considerar as opiniões dos 'idiotas' do Dostoevsky, do Scheller, do Kant, do Locke, do Descartes, do Bacon e por ai afora...

Não pretendo ao menos num primeiro momento, entrar no mérito das tais provas clássicas a respeito da existência de Deus.

Mas questionar os ideólogos ateístas e perguntar-lhes sobre o que nos podem oferecer de concreto em termos de Ética, de comportamento, de ação, de princípios e valores, de bem e mal enfim.

É uma demanda muito importante e penso que deva ser satisfeita.

Caso neste domínio Deus seja necessário, então certamente precisará existir e então certamente existirá. Afinal o problema de nossa espécie e civilização é antes de tudo ético, não técnico. Técnica temos...

De fato vangloria-se o ateísmo, acompanhado pelo materialismo, de ter dado colossal impulso a ciência ou a técnica. Em que pese o fato de Darwin e Newton não terem sido ateus e tampouco Kepler e Da Vinci. Não perderei tempo malhando em ferro frio. Quem quiser constatar quão poucos ateus fizeram ciência remeto as obras de Poggendorf, ide a elas!

Quanto a ciência ou a técnica no entanto ousarei tecer uma observação ou melhor reproduzir uma - Discutível é o valor de uma ciência sem consciência. 
O espírito da frade acima - O qual faz positivista bater com a cabeça na parede - remonta ao grande Sócrates.

Ouso perguntar destarte: Que fez o ateísmo pela consciência do homem, com o intuito de eleva-la?

Eliminemos Deus do plano da Ética.

Podemos conceber qualquer tipo de lei universal e externa ao homem em seus domínios?

Existirá algum imperativo categórico que transcenda aos indivíduos?

Haverá algum critério objetivo em termos de bem e mal, vício ou virtude, crime ou santidade?

Temo que aqui a resposta possa ser apenas uma: Não.

Afinal como poderá haver lei se não há legislador algum?

E como poderá existir algo de externamente universal exceto em termos de materialidade?

Como poderá ser universal se é individual?

E como haveria de ser objetivo se restam apenas mentalidades separadas cada qual com sua subjetividade fabricando princípios e valores não só distintos uns dos outros mas até mesmo opostos???

Afinal sem Deus que elemento unificador resta em termos de Ética?

Sem Deus há nações, religiões, clubes, agremiações, indivíduos... cada qual com suas leis e lei alguma comum.

Excluída a existência do numinoso temos um multidão de seres, de pessoas, de indivíduos alienados uns dos outros.

Cada individuo é lei para si mesmo e nada para os demais.

Humanidade para além dos domínios da Biologia é coisa que não existe. Quebrou-se o espelho em milhões de fragmentos minúsculos. Em termos de idealidade estamos completamente isolados uns dos outros. Até podemos formar grupos porém jamais um grupo que englobe todos os seres humanos.

Em termos de Ética jamais haverá acordo, mas conflito aberto.

Por via alguma poderá fugir, o ateísmo, a uma solução individualista e relativista em termos de ética.

Tanto a noção de bem quanto a noção de mal é relativa ao individuo, tendo cada qual o direito líquido e certo de produzir a sua ética ou a sua moralidade em oposição a ética do rabanho...

Quando chegamos exatamente aqui, precisamente neste ponto o ateísta encara-me curiosamente e pergunta: Sim, mas qual é o problema? Perceba que o ateísmo é libertador!

Libertador???

Pois sim...

Perceba com Sartre como somos ilimitadamente livres para fazermos o que bem quisermos ou o que bem entendermos???

Qualquer coisa?

Digo, aquilo que você considerar bom.

Cada qual pode fazer aquilo que considera bom?

Exatamente.

Mas e se estiver equivocado?

Como poderá equivocar-se se é padrão de autoridade para si mesmo?

Neste caso sempre estará certo?

Ao mesmo para si.

Ótimo, e se por acaso considerar que o estupro seja bom, poderá neste caso estuprar? E se considerar que a tortura seja boa, poderá torturar? E se considerar o assassinato, o rouco, o engano... como coisas boas?

Julgo que não devamos fazer causar dano ou prejudicar outras pessoas.

Mas e se o julgar de modo diferente?

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Acaso sua opinião não é válida apenas para si mesmo?

Certamente...

Neste caso a opinião do assassino, do estuprador, do ladrão... também será válida para cada um deles e isto pelo simples fato de cada qual minimizar seus próprios crimes ou defeitos.

...........................................................................

Agora considere quais seriam os resultados caso semelhante teoria, sobre o direito de assassinar, torturar, estuprar, roubar, trair, etc fosse levada a sério pelos elementos de uma determinada Sociedade?

Imagine só com quanta alegria e contentamento seria a boa nova de Sartre recebida por todos os psicopatas e celerados que povoam o submundo da criminalidade???

De fato o ateísmo parece libertar algo que existe nos homens, mas não o homem mesmo.

Que o homem tenha direito de conquistar seu espaço, de realizar-se, de afirmar-se enquanto pessoa; longe de mim negar. Que seja livre e que tenha direitos essenciais e objetivamente fixados, e inalienáveis, digo a mesma coisa...

E no entanto se este homem compreender que sua liberdade implica - para ser plena ou absoluta -suprimir as liberdades alheias ou rivais?

E se este homem acreditar que tem o direito de abater os demais seres humanos, de domina-los, de subjuga-los, de oprimi-los, de escraviza-los em benefício próprio?

E caso este homem esteja persuadido de que os demais sendo-lhe inferiores não possuem direito algum?

E se este homem pensar que pode matar, torturar, estuprar, roubar e enganar impunemente compreendendo que tais ações criminosas para ele constituem um direito???

Você continuara dizendo que a falta de um Deus, o árbitro supremo pertence a ele, enquanto indivíduo???

Bela doutrina esta do individualismo especialmente quando posta no acesso de tarados, psicopatas ou de pessoas com instintos perversos; as quais bem poderiam vir a perpetrar tais ações conscientemente e a justifica-las metafisicamente em nossos tribunais apelando a 'benção' da liberdade, da liberdade ilimitada e absoluta é claro.

Claro que diante disto você ateu procurará, e não duvido apenas sorrio, reformular, reformar, reeditar ou colorir a sua doutrina ética, polindo-lhe as arestas (Mas a que custo).

Não é coisa nova.

Também J S Mill homem genial e de convicções agnósticas (Sequer era ateu!) consagrou seu engenho ao polimento da doutrina pragmática (formulada pelo deísta Benthan) buscando torna-la mais humana e aceitável. Afinal era necessário estabelecer que satisfação, prazer ou felicidade deveria prevalecer... E lá vai nosso positivista genial, tomar empréstimos logo a quem? Aos odiados essencialistas Sócrates, Platão, Aristóteles, Jesus, etc os quais eram igualmente deístas ou religiosos declarados.

Que resulta disto, que sai da forja de Mill?

Segundo o pensador inglês o que deveria prevalecer - Veja bem! - era o máximo grau de felicidade estendido ao máximo número possível de pessoas possível, seja a nação ou a humanidade. Quem não percebe aqui que nosso homem avança já pelo terreno do personalismo ou mesmo do socialismo? Formulando que a felicidade geral da nação deve prevalecer face ao ideal de felicidade traçada por um indivíduo? Sacrifica nosso autor o idolatrado individualismo ao pragmatismo imprimindo-lhe uma conotação social...

Mas isto não será excelente?

E no entanto tem pés de barro...

E por que?

Porque quando Sócrates, Platão, Aristóteles, Sófocles, Jesus e outros mestres dos tempos passados afirmavam o primado já da pessoa, já da Sociedade, cada qual em seu espaço; afirmavam-no em nome de um Legislador supremo, e portanto enquanto algo essencial, universal, objetivo e imutável; de modo algum como algo relativo e questionável. Era algo que até podiam ser discutido sobriamente como pessoas de boa fé, mas que no fim das contas deveria ser aceito sob pena de determinados prejuízos espirituais...

Queremos dizer que a Ética essencialista podia ser afirmada e imposta face a todos os homens e culturas em nome de um poder Supremo, e isto a ponto de exigir submissão e ser capaz de controlar os caracteres mais difíceis, obstinados e problemáticos, com raras exceções. Tratava-se aqui de um princípio interno, que se introjetado com sucesso exigia fidelidade e auto controle, o que vai muito além da ação militar ou policial i é duma coerção externa.

As pessoas não deixavam de matar por temerem a prisão, mas por temerem sansões e punições espirituais ou por temerem poluir a si mesmas e grande coisa é temer violar uma lei divina e contaminar a consciência. Se o homem estiver persuadido de que as coisas funcionam assim certamente buscara controlar a si mesmo.

Naturalmente que há o outro lado da moeda... E que como tudo quanto é humano, esta ética possa sofrer abuso e grave abuso, degenerando numa moral judaizante, equivocada, maniqueista, puritana, repressora.. Com as imagens danosas e prejudiciais do inferno, dos castigos eternos, do fogo, etc e a decorrente elaboração de complexos, traumas, bloqueios, etc E é claro que temos de reformula-la numa perspectiva verdadeiramente ética e humanista (que é a do Evangelho) considerando Freud e seus colaboradores...

O abuso no entanto nem tolhe o uso nem torna a coisa abusada desprezível em si mesma.

Consideremos então se é possível recuperar o essencialismo ético, recolocando-o nos trilhos indicados por Jesus ou pelos antigos mestres gregos, como Aristóteles.

Mesmo porque, sempre que Mill afirmar sua teoria Ética em seu próprio nome, como J S Mill qualquer individuo sempre poderá discordar dele não? Acaso discordar não é direito líquido e certo do homem face aos juízos, opiniões ou teorias formuladas por outro homem?

Neste caso qualquer degenerado, tarado, psicopata poderia encarar o pensador inglês e argumentar: Compreendo perfeitamente mas julgo ou continuo julgando que as aspirações do indivíduo são tudo e que devam prevalecer sempre face a ideia de 'bem estar geral' ou social formulado por você?

Mas quem é que haverá de discordar de J S Mill, quem discordará??? Antes dele Max Stirner e após ele Ayn Rand como imensa horda de seguidores, todos individualistas. E ciosos quanto a suas dignidades individuais.

Tal seu caso. Você até poderá declarar pomposamente - E nem sei com base em que... - que o 'Direito de um termina onde começa o direito de outro'. Trata-se certamente de uma frase bastante bela e diria essencialmente verdadeira. No entanto como passará aos olhos do outro como formulação puramente humana ou opinião individual, ele sempre poderá dar com os ombros (A pretexto de qualquer coisa) e declarar: Compreendo, mas discordo e opino que...

Você poderá teimar obstinadamente e declarar em seu próprio nome que nós seres humanos devemos nos identificar uns com os outros tendo em vista a similaridade de condição. Assim se o outro ao ser ferido sofre e não gostaríamos de ser feridos, devemos nos abster de ferir! Mais se ao ser enganado o outro sofre devemos revelar-lhe a verdade! Não, não devemos fazer ao outro o que não queremos que façam a nós; melhor ainda - Façamos ao outro tudo quanto aspiramos que nos faça! Absolutamente nobre, mas... Mesmo assim... Assistiria a qualquer individuo o direito líquido e certo de dizer que não esta de acordo, que não concorda, que não aceita e que tudo isto não passa de besteira...

E que outro indivíduo estaria acima dele? Que autoridade superior seria capaz de convence-lo? Mas... Entre homens livres não há autoridade superior no plano da imanência, e tampouco Deus. Logo, a qualquer um é defeso manter sua opinião!

Até posso ver e antever a ideia que lhe passa pela cabeça:

Como dez cabeças pensam mais do que uma, deve o individuo submeter - Ao menos quanto as coisas comuns - suas decisões a sansão da sociedade em que vive (Seja cidade, província, nação ou país), especialmente numa perspectiva democrática e conformar-se com o veredito comum, o veredito da lei.

Eis o que dizem e declaram os juristas ateus, materialistas e positivistas - Kelsen, Alf Ross, etc - alegando que as leis formuladas pelo Estado devam ser sempre acatadas não em nome de uma Lei natural, a qual não existe (Não pode existir Lei natural sem que haja um Deus legislador!), mas enquanto ato positivo realizado pelo corpo social, ou seja, enquanto algo formalmente autoritativo.

Aqui passamos de um extremo ao outro.

Pois face a bela solução do direito puro ou positivo, alias encarado como algo supra social ou neutro (!!!) somem-se tanto o individuo com suas pretensões toscas quanto a pessoa com seus direitos inalienáveis engolidos pelo estado. Pelo que chegamos a mais vil estatolatria, encarando o estado ou o parlamento como um organismo divino que jamais é capaz de errar!

E no entanto este mesmo estado - e numa perspectiva democrática, não totalitária - decreta que um Sócrates beba cicuta e que um Jesus seja crucificado. Aplaudamos!!!

Que dizer então sobre os estados totalitários governados por um Hitler, por um Stalin ou por um Bush??? Obedecer sem questionar a instância legislativa superior, eis a norma, regra e lei. Desobediência civil ou resistência nem pensar, afinal quem é ou o que é a pessoa humana face ao novo legislador supremo dos 'outros' neo ateus, o Estado???

Negada uma onipotência transcendente temos duas opções apenas: Indivíduos pretensiosamente onipotentes como Ed Geyn ou um estado onipotente nos termos da Alemanha Nazista ou da Inglaterra absolutista dos Tudors... Tais as opções éticas dadas aos ateus ou fornecidas pelo ateísmo seguido numa linha escolástica de coerência.

Afinal no fim das contas o significado não é dado pelo que você formula - E você até pode formular conceitos bastante nobres e elevados, por que não? - e sim por quem ou em nome de quem a tese é formulada. Pois caso tenha sido formulada por você individuo, sempre poderá ser negada! Outro porém será sentido do discurso caso apresentado em nome de um princípio supremo como a consciência Universal ou a alma do mundo!

Percebem como Hamurabi, Manu, Tages, Licurgo, Labarna, Numa, o suposto Moisés e até Maomé quando impuseram seus códigos legais em nome de seus deuses???

Quem é o homem ou o indivíduo para que legisle face aos demais exceto se tem força para coagir e dominar?

Qual o estado ou grupo social que tomando uma decisão qualquer sejam impermeável ao erro?

Assim sua solução extremista e radical, de apelar ao estado, sequer abalará os paladinos do individualismo, os quais com boas razões apresentarão os pecados cometidos pelo Estado: Os campos de concentração, os expurgos, os holomodores, os campos de cultivo, as invasões e guerras imperialistas, os julgamentos corrompidos (Como o de Sacco e Vanzetti) etc. Lançarão os crimes deste Leviatã em face de seus servos, para em seguida darem com os ombros e declarar: Até compreendo seu ponto de vista, mas... Como individuo livre que sou, discordo e sustento a tese oposta: A liberdade do individuo é ilimitada, absoluta, total; podendo ele fazer tudo quanto desejar ou o que bem quiser!

Agora aprecie a derradeira pedra adicionada a construção pelo francês Ch Foulcault: Com que direito internamos nossos psicopatas e histéricos em clínicas e hospitais, afinal de contas, quem sabe se no fundo, no fundo tudo isto não passa de um controle político tendo em vista a erradicação dos elementos questionadores e inconformados da Sociedade??? Enfim os verdadeiros gênios acham-se em nossos presídios psiquiátricos após terem queimado, esquartejado, torturado, estuprado, etc no exercício de suas liberdades. Tudo isto não nos faz lembrar as teorias de Raskolnicoff sobre o direito do homem superior fazer tudo quanto quer, inclusive assassinar? Obviamente que o critério de genialidade - Esta é do policial Porfírio - é individual, logo...

Observe o leitor amigo a que extremos de moralidade chegaram os ateus! Uns sustentando a onipotência da Sociedade ou a estatolatria, e consequentemente eliminando a razão, a livre vontade, a consciência e a pessoa! E outros, situados no extremo oposto, forjando opiniões a respeito da liberdade dos alienados e declarando que não temos o menor direito de prende-los! Resta-nos esclarecer se podemos prender os verdadeiros criminosos, i é, os assassinos, os torturadores, os estupradores, os fraudulentos, etc???

Admitidos os pressupostos da ética ateia, segundo o qual o individuo é lei suprema para si mesmo, não; exceto se os convencermos de que cometeram crimes e de que devam arrepender-se. Do contrário se afirmam obstinadamente que cometeram ações lícitas, discutir o que, se o homem é a lei suprema de si mesmo e as leis sempre podem estar equivocadas não passando de preconceitos impostos pelo poder??? Claro que dispondo do poder sempre poderemos prender e punir tais sujeitos! Mas e convence-los de que cometeram um crime ou uma monstruosidade, conseguiremos convence-los partindo do individualismo??? Temo que não... O sujeito continuará sentindo-se lesado em seus direitos e oprimido??? E é torturador, estuprador, assassino, ladrão... Feito vítima por obra e graça da doutrina individualista...

Afinal, do ponto de vista do individualismo a única diferença considerável se dá no sentido de quem possui a força ou tem as armas. Assim os criminosos são apenas arbitrariamente declarados criminosos, quanto na verdade limitaram-se a agir livremente ou no exercício da tão afamada liberdade! Afinal, se Deus inexiste a liberdade é tudo... Se Deus não existe absolutamente tudo me é permitido - E assim o é! Explica-me como você, homem igual a mim, pode decidir em meu lugar e regular minha vida? Você é lei apenas para si e não para mim... Eis os tarados e criminosos convertidos em mártires face a um poder ilegítimo e arbitrário!

Se de fato há uma ética, é como já se disse sem sansão. Coisa de contrato social que possa ser revisto. Adere quem quer... E quem não quer aderir mas continuar prevaricando e acometendo os semelhantes?

Ah Madame Holland foste sábia quando exclamaste: Liberdade, liberdade; quantos crimes se cometem em teu nome!

E no entanto os neo ateus - dominados pelos elementos da cultura - ao menos e suma maior parte, não fazem escolástica a partir de seus princípios como a liberdade individual ilimitada. Apenas Sartre, Camus, e alguns outros fizeram alguns ensaios difíceis de serem lidos, como aquele da peça em que o filho degola serenamente a própria mãe e depois, já não me recordo bem, senta-se na poltrona da sala para fumar ou beber, alguma coisa assim.

Todavia no exato momento em que romperem com a herança negativa do positivismo (em torno da ética) e aceitarem o desafio de elaborar uma Ética propriamente sua, veremos o que resultará disto! E como saíra essa nova ética sem Deus!

Pois no momento exato em que reconhecermos ao individuo o direito de causar dano ao semelhante ou de cometer verdadeiros crimes em nome da liberdade, a sociedade estará por um fio e a civilização definitivamente condenada. Cindida a humanidade em dois campos, teremos a um lado o pesadelo de Hobbes i é a luta do homem (convertido em lobo) contra o homem nos termos de uma guerra total; e a outro o sonho de Hobbes i é o domínio absoluto do Leviatã.

Digo por fim, a guiza de conclusão, que semelhante dilema - terrível - só será capaz de ser superado a partir do velho conceito de Lei natural, essencial, universal, superior ao homem e imutável; além de racional. Recuperamos nosso elemento unificador perdido e iniciamos um diálogo prenhe de possibilidades ou caminhamos para o caos! Estabeleceremos novamente o necessário equilíbrio entre as prerrogativas e exigências da pessoa e as exigências da Sociedade ou sucumbiremos enquanto projeto de civilização, o que será imensamente trágico.

Temos de retornar imediatamente aos antigos gregos, aos socráticos, a Aristóteles, a Jesus, aos salmanticenses - Vitória, Bañez, Cano, Soto, Suarez... - antes que seja tarde demais.

No entanto caso não exista um Deus...







Os ídolos 'Cristãos'



Os Cristãos, e mais particularmente os judaizantes e sectários, amiúde relacionam o termo ídolo com uma estátua, simulacro ou representação, querendo significar qualquer divindade pagã ou politeísta.

Evidentemente que as representações cultuadas no lugar do verdadeiro Deus são ídolos.

Divindades pagãs a exemplo de Astarte, Kemosh, Sobec, Zalmoxis, Atargatis, Cibele, Priapo, Pan, Unias, Tinias, Latona, Jano, Rovigo, Endovelico... São verdadeiros ídolos.

E no entanto o conceito de ídolo é bem mais amplo do que o simples conceito de estátuas ou de deuses convencionais.

E assim o conceito de idolatria.

A qual pode assumir diversas formas, algumas das quais bastante sutis.

Aos cristãos civilizados e nominais é sumamente agradável imaginar como 'vis idólatras' aos bosquímanos ou pigmeus curvados diante de seus postes, totens ou árvores sagradas.

A imagem de uma aborígene prostrado diante de uma tosca imagem talhada na rocha é convencional e bastante popular até.

Fácil é enxergar o veneno da idolatria em outras culturas e imaginar que somos puros porque vamos a liturgia todos os Domingos prestar culto ao Deus verdadeiro.

Damos um dia ou melhor algumas horas a Deus, vamos a Missa ou ao culto, rezamos, entoamos hinos de louvor, cantamos, salmodiamos, buscamos lisonjea-lo por meio de expressões pomposas e palavras bonitas, depositamos alguns cobres na caixinha e por fim retornamos a casa para viver como pagãos durante os outros seis dias da semana. Ouvimos o Evangelho no Domingo para esquecer-se dele de segunda a sábado e viver como de Cristo não existisse ou nada fosse.

Não, nós não temos buscado - ao menos a maioria de nós - viver o Evangelho, a Liturgia, a Missa sete dias durante a semana, trinta dias por mês e trezentos e sessenta e cinco dias ao cabo de um ano. Não temos buscado ser palavras vivas de Deus, prece continua ou louvor verdadeiro e nossa religião não tem passado de puro vanilóquio, de flatu vocis, de palavras vazias, de discurso sem conteúdo. Buscamos honorificar a Deus com nossos lábios, abrimos a boa para enaltece-lo, mas nossos corações... Não esta não é a religião de Cristo mas dos escribas e fariseus.

Mesmo quando adentramos nas belas catedrais e contemplamos o Redentor pregado na Cruz e sua abençoada mãe e seus apóstolos, o espírito venenoso do comodismo nos acompanha e contamina tudo.

Temos uma religião com hora marcada. Temos hora certa para ir a igreja e adorar a Deus. Não isto não é nada mal, a menos que não nos demos por satisfeitos e busquemos ir além.

Do contrário nós não somos melhores que os idólatras.

E por que?

Porque temos acesso ao Deus verdadeiro e não o tomamos a sério.

Mas como?

Deus não é nosso Legislador e não exerce seu domínio sobre nós.

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Sim caríssimo leitor, afinal não buscamos viver o Evangelho, mas cada qual, de segunda a sábado busca viver a sua maneira ou conforme seu critério, sem jamais reportar a consciência a Jesus Cristo.

Duvidas?

Quantas vezes ao lidar com o próximo, numa situação difícil perguntou a si mesmo: Neste caso que Jesus faria ou que orientação poderia tomar ao Evangelho???

Somos ouvintes e não praticantes da palavra e ser ouvinte não basta.

Afinal quem ouve as palavras sagradas do Verbo Jesus e não busca coloca-las em prática é como quem construiu uma habitação sobre a areia e não uma casa para a eternidade.

E no entanto ali mesmo nesta Lei que ouvimos ser recitada ou cantada a cada Domingo esta a vida eterna!

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Mas que o leva, professor, a tecer acusações tão séria e tão graves?

Observai leitor amigo: Temos não apenas pobres em quantidade mas miseráveis e muitos miseráveis.

E???

Os Sagrados Atos dos Apóstolos referem que na primitiva comunidade ou no embrião da Igreja Católica não haviam necessitados, e que os fiéis tudo tinham em comum.

Há portanto significativa diferença entre a igreja dos apóstolos e a igreja apostólica do tempo presente, os ideais entraram em declínio.

Antes não existia miséria entre os santos, depois foi apenas tolerada a contragosto, hoje é encarada como algo absolutamente comum - que hajam fiéis, servos de Jesus Cristo, adoradores verdadeiros, cristãos batizados, filhos de Deus, nossos irmãos passando fome, sede, frio, necessidade!

E no entanto somos todos filhos de Deus, membros da igreja, membros de Jesus Cristo e membros uns dos outros. Logo como permitimos que um membro nosso passe fome ou experimente necessidade? Como podemos deixar de nos sentir incomodados com isto? Como não sentir nojo da opressão que nos rodeia? Como deixar de reconhece-la como um fenômeno não Cristo ou melhor anti Cristão, tão anti Cristão quanto a heresia, tão anti Cristão quanto o arianismo, tão anti Cristão quanto a ateísmo, tão anti Cristão quanto o politeísmo! TAL O ESCÂNDALO DA MISÉRIA ENTRE OS CATÓLICOS!

E no, dirás tu, homem mau, que Jesus Cristo nosso Bem, disse aos apóstolos que sempre haveriam pobre no mundo.

Se sabes que o termo sempre é relativo aos apóstolos e a duração de suas vidas, saber alguma coisa.

Agora se sabes que eles, os apóstolos, sempre haveriam de encontrar pobre e oprimidos - como ainda hoje os encontramos - nos domínios da gentilidade, então desfizestes a xarada!

Nem disse que aqueles pobre seriam Cristãos, nem disse que tal estado de coisas (A miséria entre os Cristãos) haveria de perdurar eternamente; mas que ao percorrem as nações pagãs em busca de prosélitos os apóstolos jamais deixariam de encontrar pobres; e nós também.

Pois a tarefa de estabelecer a justiça eliminando a miséria é precipuamente Cristã e imposta pelo Santo Evangelho.

E no entanto esperas que a Igreja de Cristo tolere a miséria em seu próprio seio e que semelhante estado de coisas prolongue-se para sempre. Então que espécie de Cristão és tu?

Quem foi que te disse que podes ou deves encarar o teu irmão, filho de Deus e servo de Jesus Cristo como uma ameaça, como um concorrente ou como um rival? Quem te disse ou ensinou que a livre concorrência deva substituir ou suplantar a fraternidade? Quem te instruiu a não se preocupar com o teu semelhante? Quem te autorizou a desprezar o tem próximo? Quem te constituiu para que julgues ou condenes o outro? Quem te concedeu o direito de classifica-lo como inapto, frustrado, moleirão ou vagabundo???

Certamente que os gentios podem fazer tudo isto, e podem ser excelentes individualistas, darwinistas sociais ou egoístas! Mas tu oh Cristão??? Tu Ortodoxo para quem egoísmo e avareza constituem pecados diante de Jesus Cristo! Tu Católico que és chamado ao amor, ao perdão, a compreensão, a benignidade??? Quem és tu para viver a moda dos ateus, materialistas, pagãos e publicanos??? Tua insensibilidade reprovada pelo Evangelho te torna pior e mil vezes pior do que um politeísta!

Principia portanto, oh homem mau, elencando quais são as idolatrias que dispensam representações!

Sabendo que todas as vezes que no teu coração colocas qualquer coisa no lugar de Cristo ou acima de Jesus Cristo, és vil idólatra!

Quem ama mais a sua mãe, o seu pai, ou seu cônjuge, ou mesmo seus filhos ACIMA DE MIM, NÃO É DIGNO DE MIM!!!

Coisa nobre e excelente são os laços de amor, coisa nobre e excelente é a família, seja qual for sua forma; coisa nobre e excelente é o lar; no entanto se ousas colocar os teus entes queridos, os teus parentes, os teus amigos, qualquer ser humano, qualquer afeição como dia a 'Imitação de Cristo' acima do Mestre e Senhor Jesus Cristo não passas de vil idólatra com todas as tuas missas, rezas, orações, louvores, cânticos, e tudo mais!

Que dizer então daquele que colocas os 'bens' materiais, as coisas, os objetos acima da família, ou o que é ainda pior acima de Nosso Senhor Jesus Cristo???

Pois aquele tem um automóvel entronizado em seu coração, aquele um imóvel, aquela algumas jóias de brilhante, esta outra seus vestidos e este ainda sua moto!

Se qualquer coisa que não Jesus de Nazaré ocupa o centro do teu coração ou da tua vida permita chamar-te de facínora ou de fanfarrão!

Se o principal objetivo da tua vida consiste em obter bens e coisas materiais e não em obedecer e honrar o Senhor Jesus Cristo tua alma é pagã!

Certamente deves te esforçar por conquistar tua realização pessoal, teu espaço, teu conforto; mas sempre em absoluta conformidade com a Lei de Jesus Cristo, sempre de modo honesto, correto, decente, ético; e não 'custe o que custar' ou a qualquer preço.

Se pisas nos teus semelhantes e encara-os como meros objetos de modo algum és Cristão. Se acreditas que os fins sempre justificam os meios não és Cristão. Se julgas que podes enganar, trapacear, empregar a calúnia, denegrir, intrigar... certamente não pertences a Jesus Cristo!

Mas fulano de tal...

Mas fulano de tal ou não é Cristão ou é mau Cristão...

Não chegamos ainda ao fundo do poço, nem pusemos o dedo no fundo desta ferida ou melhor desta chaga purulenta que infecciona o corpo de Jesus Cristo fazendo alastrar a corrupção! Ainda não relevamos a gangrena a olhos nus! Ainda não expusemos o horror da putrefação! Ah membros cadavéricos e mortos do Senhor! Ah ramos cortados, secos e postos ao fogo! Oh partes necrosadas da igreja, que ja se acham em estado de decomposição!

Eis o que são aqueles que substituíram oficialmente e publicamente a Lei do Evangelho por esta nova Lei blasfema do mercado financeiro que justifica todas as ações e operações do Capital! Se vosso Evangelho é Mises, apartai-vos de Jesus Cristo e retirai-vos da Igreja a que poluis, ide para as trevas exteriores que é vosso lugar! Se vossos apóstolos são Menger, Haiek, Fridmann, Rotbarth, Rand, Molinari, Bastiat ou Stirner as únicas palavras com que voz posso brindar são estas: VÁ DE RETRO SATANÁS!!!

Se o lucro, o capital, o dinheiro, as necessidades financeiras, o espírito da avareza enfim; ocupam tem coração chegastes ao abismo mais profundo da vil idolatria! Idolatria em comparação com a qual a idolatria do Bosquímano, do Dieguito ou do Alacalufe é mera palha ou ponta de Iceberg. Se regulas tua vida pelos princípios da ideologia capitalista e não pelos sagrados princípios do Evangelho, és idólatra. Pois tua Lei é o interesse financeiro e não o serviço fraterno impulsionado pelo amor.

Mas Jesus Cristo jamais falou sobre economia...

Certamente. E no entanto a economia é atividade humana. E no entanto toda atividade humana deve ser regulada pela Ética. E no entanto a fonte de ética para os Católicos é o Evangelho, seguido pela tradição apostólica.

Mas, mas, mas... Cessa com este palavrório vão e abre o Evangelho:

"NÃO ACUMULEIS TESOUROS NESTE MUNDO... ANTES JUNTAI TESOUROS NOS CÉUS."

"NÃO PODEIS SERVIR A DOIS SENHORES - NÃO PODEIS SERVIA A DEUS E A MAMON (RIQUEZAS)"

"É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus."

Agora dizei-me qual seja o objetivo do sistema capitalista e calai a boca!

Pois se achar que a busca pelo 'lucro máximo' ou o acumulo ilimitado de bens materiais é perfeitamente compatível com as sentenças acima, bem... Então já é caso de psiquiatria - Charenton, Salpetriére e Bicetré estão esperando!

Poderia citar ainda a Pedro, Paulo, Tiago, João... com o objetivo de condenar a nova idolatria materialista ou o império do deus milhão!

E no entanto é coisa que facilmente se acha, como os oráculos dos antigos padres!

Mas por que raios não posso ser Bom Católico e Capitalista???

És teimoso!

E a ponto de querer conciliar Catolicismo ou a Lei de Jesus Cristo com materialismo!

Mas desde quando o Capitalismo é materialista?

Desde seus primórdios, desde sempre, desde que é irredutível a um controle ético ou humano, desde que não aceita ser regulado pela igreja.

Alias como não seria materialista se define o principal objetivo da existência humana em termos de acúmulo de bens materiais ou de dinheiro???

Como se alguém, sendo espiritualizado, pudesse consagrar sua vida a fim tão vulgar, tão baixo, tão rasteiro quanto juntar dinheiro ou fazer fortuna!

Bela espiritualidade essa!

Se você pensa mesmo que o homem foi feito para o Mercado e não o Mercado para o homem ou seja para a satisfação das necessidades humanas em geral, como pode ser contado entre os seguidores de Jesus Cristo???

Nosso coração esta inquieto oh Deus Santo até que em ti repouse!

Portanto se teu coração repousa na dinâmica do Mercado, sabemos qual seja o teu deus! Aquele a quem cultuas e obedeces!

Aos Cristãos a Lei do Evangelho, enquanto fonte mais pura e cristalina da vida Ética. Aos Católicos a LEI do amor e da justiça. Aos ortodoxos a LEI suprema da alteridade e da empatia!

Do contrário, colocando qualquer outra coisa no lugar de Jesus Cristo, tereis ídolos mesmo quando afetais tributar-lhe um culto espiritualizado, neo platônico e isento de representações.

Tal o mal do século - Uma idolatria dissimulada e sutil, isenta de formas, desprovida de representações, sem ídolos, estátuas ou imagens, afetando espiritualidade.

Há ídolos ai, ídolos que não percebemos, que não enxergamos, que não vemos! Ídolos invisíveis, enfiados nos corações!

Guardai-vos portanto de hostilizar os idólatras sinceros, de julga-los, de condena-los... Pois com a mesma medida que medirdes sereis medidos por Deus!

Olhai antes para dentro de vós mesmos e depois para esta sociedade que ainda ousa apresentar-se como Cristã... Refleti e fazei exame de consciência. Depois, apenas depois, com a consciência limpa e as mãos puras erguidas em direção dos céus, fazei galas de vossa Ortodoxia e recitai nossa profissão de fé imaculadamente! Não profaneis o símbolo santíssimo com vosso comodismo!