O verbo se fez carne...

O verbo se fez carne...

A mãe do Verbo Encarnado

A mãe do Verbo Encarnado

A consciência histórica do Cristianismo

A consciência histórica do Cristianismo

sábado, 12 de janeiro de 2019

CXVI - Atenágoras e os apologistas perdidos

CXV - Taciano, o assírio e S Melito de Sardes

CXIV - Aristides e Quadrato

CXIII - Os padres apologetas

CXII - O Pastor de Hermas e o fragmento muratoriano

Foi este pastor de Hermas citado como Escritura Santa por S Clemente de Alexandria, S Irineu, Tertuliano - De Oratione XVI - antes de aderir ao montanismo - e por Orígenes - in Comm a Mat 14,21 - o qual julgava ter sido ele escrito pelo Hermas de Romanos 16,14. Chegou ainda a fazer parte de certos códices bíblicos, como o Sinaítico, e, segundo Eusébio a ser lido publicamente em algumas igrejas tendo em vista a instrução elementar, além de ter sido citado por certo número de autores antigos. H Ecles III,3,6. S Atanásio - que o cita amiúde, diz que mesmo não pertencendo a Escritura Canônica, foi o Pastor, posto pelos Padres para ser lido pelos neófitos e catecúmenos.

Orígenes no entanto reconhece que muitos não o admitiam como inspirado - Livro dos princípios 4,2,8 - e o Fragmento muratoriano explica porque. Segundo esta lista de livros canônicos, era O Pastor uma obra recente - o Muratoriano foi escrito entre 160/170 - escrita em Roma, por Hermas, irmão do Papa Pio I, que comandou a Igreja romana do ano 140 ao ano 155. Alguns sugerem que teria sido começado a ser escrito nos últimos anos do século I - 99/100 - e terminado pelos idos de 145... Seja como for é evidente que não pertence ao período apostólico. Por isto embora chegasse a ter feito relativo sucesso no Ocidente, Jerônimo, pelos idos do século IV - Viris Illustribus X - declara que, no Ocidente, era lido por muito poucos, mas publicamente lido nas Igrejas da Grécia. Gelásio de Roma porém, meteu-o entre os apócrifos

Sabe este livro a um apocalipse, como o de Esdras. Revindicando, o autor, ter sido visitado por um anjo sob a forma de pastor após ter visto a Igreja sob diversas formas. É estruturado em três partes - Visões, parábolas e mandamentos. O tempo das composição, a divisão em partes, a forma literária, as crenças, etc tudo sugere que este livro tenha sido redigido por três ou mais escritores.


A linguagem é simples, vívida e repleta de detalhes sociais. Não deixa de conter em si uma espécie de biografia bastante realista tecida em torno dos atos de um homem simples, ex escravo, negociante mal sucedido, pequeno agricultor, casado, pai de família, com sérios complexos de culpa... Neste sentido é um recorte da vida e por si valioso. O tema principal é a sorte dos que pecaram após o Batismo e assim a Penitência, sacramento que os montanistas tinham em contra de blasfemo e que outros - sicut Clemente de Alexandria; Strom - abusam já... O autor posiciona-se ortodoxamente quando a isto e portanto a favor de uma oportunidade para os que, sendo já Cristãos, tornaram a pecar, isto desde que rompessem sinceramente com o pecado e não tornassem a cair.

Tem a Cristologia do autor ou dos autores dado origem a intenso debate entre os estudiosos. Os ortodoxos em especial ter se esforçado por justificar o autor, cuja Cristologia é adocionista e a Teologia, ao que parece diteísta. O que de fato nos faz pensar num autor judeu Cristã que tenha completado a obra de Hermas, irmão de Pio. Salvo tendo em vista um entendimento ultra rigorosa da disciplina do Arcano é no mínimo curioso que Hermas jamais faça uso do nome 'Jesus Cristo' ou da expressão Logos, mas apenas dos termos 'Salvador', 'Filho de Deus' e 'Senhor'.

De fato apos declarar que o Espírito Santo é o Filho de Deus, insiste: "Deus, o Pai, fez habitar na carne que ele escolhera, o Espírito Santo e eterno que tudo criou. Esta carne na qual o Espírito habitou, serviu ao Espírito, andando sempre no caminho da santidade e da retidão sem jamais contristar o Espírito. Ela se portou virtuosamente, participou dos trabalhos do Espírito e colaborou em tudo com ele. Comportou-se docilmente para o bem e por isso Deus a escolheu para companheira do Espírito... Para que essa mesma carne, que ao espírito havia servido irrepreensivelmente, obtivesse um lugar de repouso, e não perdesse a recompensa que merecido tinha por seus serviços. Toda carne em que o Espírito habitou e que for encontrada pura e sem mancha, receberá sua recompensa." Parab V, 59,5

Ao que parece este autor faltava a ideia clara de hipostase. Portanto imagina ele que o Filho, tomou posse de um ser humano, usando-o como instrumento seu. Este elemento humano a seu tempo, sendo completo e livre, salientou-se pela docilidade com que colaborou com o Espírito, merecendo ser ressuscitado e glorificado a guiza de recompensa por sua fidelidade. A partir dele os demais batizados também se convertem em templos ou tabernáculos do Filho/Espírito e os que se portarem docilmente, abstendo-se de pecar, tornam-se dignos do mesmo prêmio, do qual o Salvador ressurreto é primícias. Enfim o que temos aqui é uma Cristologia arcaica, não necessariamente uma heresia, exceto pelo diteísmo ou pela identificação do Espírito Santo com o Filho, alias, peculiar a certos membros da primitiva Igreja Romana.

Feita esta ressalva necessária, passamos a resenha doutrinal do escrito:

CXI - A carta de Barnabé e a Segunda 'clementina'

A - A carta de Barnabé

Eis outro documento que por muito pouco não acabou sendo incluído no Cânon do N Testamento. Afinal ela não foi apenas citada, diversas vezes, por S Clemente de Alexandria, nas Stromatas, mas objeto de comentário a parte em suas Hypotyposeis. Orígenes, já no século seguinte - em sua polêmica contra o falecido Celso - chama-a de 'Epístola Católica'. Ainda nos séculos IV, V e VI, foi incluída nos Códex Sinaítico, Alexandrino e Claromontanus. Por este mesmo tempo Eusébio situa-a entre os escritos disputados. Jerônimo por fim declara-a apócrifa, embora, paradoxalmente, chegue não apenas a cita-la como a atribui-la a Barnabé. Entre os latinos permaneceu como apêndice nos manuscritos do NT, após a epístola de S Tiago até a época dos Carolíngios. Já no Oriente, segundo temos em Nicéforo de Jerusalém, permaneceu como objeto de disputa - como os apocalipses de João e Pedro e o Evangelho dos Hebreus - até o começo do século IX. A partir do ano 1000 já havia sido descartada por todas as comunhões históricas do Cristianismo, isto a ponto de parte do texto original - a partir do cap XVIII - ter ficado perdido por um bom tempo.

Curiosamente este escrito, nem é de Barnabé, mas um tratado teológico anônimo. Afinal, como explica Quasten, durante algum tempo "Os escritores cristãos primitivos consideraram o gênero epistolar como sendo o único válido para comunicar instruções piedosas." in Patrologia I pg 94
A simples menção da reconstrução do Templo dos judeus por Adriano em 130 desta Era obriga-nos a situar sua composição cerca de 135/140. Temos além disso uma referência ao Apoc de Baruc, o que impossibilita de todo qualquer tentativa no sentido de situa-la antes do ano 100. Ora companheiro algum de Paulo poderia ter chegado ao ano 100 quanto mais ao ano 140 desta Era. Temos aqui mais uma obra pseudo epigráfica como III Coríntios, Laodicenses, Judas, etc

Quanto ao local de composição é algo a respeito de que ainda se discute, embora possamos atribui-la, com razoável segurança a tradição alexandrina e vincula-la tanto com a epístola canônica de Apolo aos Hebreus - cujo sentido desenvolve mais - e mesmo com Fílon. Há além disto marcada influência dos escritos essênios encontrados no Qumran e da Didaké - assim a sessão dos dois caminhos - o que fez com que alguns pesquisadores situassem sua composição na Síria Palestina, onde no entanto jamais fora citada. Não vou especular a respeito, apenas dizer que aquele tempo as ideias circulavam com certa rapidez entre Síria e Egito.

Na esteira da Epístola dos Hebreus e de Fílon temos aqui uma releitura alegórica do antigo testamento destinada a satisfazer a consciência Cristã, o quer certamente não deve servir como pretexto para impugnar uma possível origem judaica por parte do autor. Fílon e Apolo eram, um e outro, judeus e alegoristas. Como é sabido a ideia de uma circuncisão superior ou do coração remonta no mínimo ao profeta Jeremias. Não foi algo inventado por Jesus ou pelos Cristãos, mas algo que brotou da consciência pŕofética.


Resta-nos declarar que ela consta de vinte e um capítulos e passar a resenha doutrinal.

Divindade de Cristo - "Se o Senhor aceitou sofrer por nós, embora fosse O SENHOR DO MUNDO INTEIRO, ao qual disse Deus no ato da criação 'Façamos o homem a nossa imagem e semelhança' ... os profetas que tinham a GRAÇA DELE, profetizaram a seu respeito, e ele a fim de destruir a morte e manifestar a ressurreição teve de SE ENCARNAR E PADECER... Assim manifestou ele que era filho de Deus, com efeito, caso não se tivesse encarnado, como poderiam suportar os homens o brilho da sua glória, eles que não podem encarar os raios deste nosso sol que um dia cessará de existir, POR SER ELE MESMO OBRA DE SUAS MÃOS?... Por isso disse Deus, que deles PROCEDE A FERIDA EM SUA CARNE - Quando o pastor for ferido as ovelhas serão dispersas!" V,5;10 e 12
Profecia de Jesus sobre a destruição do templo - "Ele tinha revelado que aquela cidade, o templo e toda casa de Israel seriam derrotados... e sucedeu conforme ele tinha dito." X,05
Ofício apostólico - "A eles foi conferida a autoridade para anunciar o Evangelho, são DOZE para testemunhar as tribos, pois as tribos de Israel são DOZE." VIII,03
Conhecimento não é interpretação: "Meditai em vosso coração o SENTIDO EXATO da palavra que recebestes." X,11

Unidade ou concórdia - "Não vos isoleis, concentrando-vos em vós mesmos... mas associai-vos e laborai juntos pelo bem comum." IV,10
Liberdade/semi pelagianismo - "Por isso exulto na esperança de salvar-me." I,03

Necessidade das obras ao menos como fruto após a justificação - "É bom assim aprender as sentenças do Senhor que estão escritas e com ela conformar o procedimento , pois aquele que as põem em prática será glorificado no Reino de Deus, mas o que tomar o outro caminho com suas obras haverá de perecer." XXI,01
Condenação do Solifideismo ou da salvação pela fé somente - "Assim tomai cuidado e não imiteis certas pessoas que acumulam pecados declarando que a aliança esta garantida para elas..." IV.06 "Cada qual receberá segundo o que praticou. Caso seja bom, sua justiça o precederá, caso seja mal, diante dele irá o salário da maldade. Tomemos cuidado para não ficarmos tranquilos como chamados, adormecidos em nossos pecados, de modo que a maldade se apodere de nós e nos aparte do Senhor." IV,12 "Odiemos por completo as obras do mal caminho." IV,10 "Jamais abandones os mandamentos do Senhor." XIX,02 "Odeia totalmente o mal." XIX,11
Penitência - "Trabalha com tuas mãos para resgatar teus pecados." XIX,10

Sacramento do Batismo - "A casa de Israel não recebeu o Batismo que confere a remissão dos pecados." XI,01 "A água descemos cheios de poluição, e dela subimos para dar frutos, por ter o coração ocupado pelo Espírito e pela esperança em Jesus." XI,11 "Depois de nos ter renovado com o perdão dos pecados, fez de nós um novo ser, de modo a que tenhamos uma alma inocente, como se nos tivesse novamente criado." VI,11
Filiação divina: "Dele recebestes a semente plantada em vós mesmos." I,02
A Cruz vivificante - "É a respeito da cruz que ele fala por meio de um profeta: Quando serão cumpridas estas coisas? Quando um madeiro for estendido no chão e depois levantado e o sangue gotejar do madeiro. É o que ele diz sobre a cruz e sobre o que seria pregado nela." XII,01
Adoração dominical - "Farei do início, do oitavo dia, o começo do outro mundo. Eis porque comemoramos com solenidade o oitavo dia da semana, aquele no qual Jesus ressuscitou dos mortos e depois de se ter manifestado subiu aos céus!" XV,08

Juízo final - "O Filho de Deus que é Senhor julgará os vivos e os mortos." VII,2
Ética - "Não planejes o mal contra o teu próximo." XIX,03
"Ama teu próximo mais do que a ti mesmo." XIX,5

"Compartilha tudo com o teu próximo." XIX,8
"Não existes em dar esmola e jamais a dês murmurando!" XIX,11
"Não sejas avarento." XIX,06
"Não exerças a vingança!" XIX,04
"Julga sempre de modo justo." XIX,12
"Sê manso, sereno e auto controlado, segundo a instrução." XIX,04
"Não faças acepção de pessoas." XIX,04
"Não provoques a divisão, mas reconcilia aqueles que conflitaram entre si." XIX,12

"Não mates a criança no seio da mãe ou logo que tiver nascido." XIX,05
"Não sejas dúplice quanto o pensar e o falar." XIX,07
"Não cobices os bens do teu semelhante." XIX,06
"Não fique repetindo o nome sem propósito." XIX,05"Os que perseguem os bons, odeiam a verdade, amam a mentira, ignoram a justiça... desprezam o órfão, o estrangeiro e a viúva... apartam-se da mansidão, afastam-se da paciência... não tem compaixão do pobre, recusam ajuda ao oprimido. difamam e caluniam... mostram-se insensíveis face a dor alheia, defendem os ricos... são todos pecadores consumados!" XX,02


Até aqui a carta de Barnabé, ano 140.
B - Segunda epístola de S Clemente

A respeito desta obra, chamada indevidamente, segunda carta de Clemente, Eusébio é categórico: Jamais foi conhecida ou empregada pelos antigos, assim Jerônimo de Stridon em V Illustribus XV. Sugeriram alguns que fosse a carta do Papa Sotero de Roma aos coríntios mencionada por Dionísio (Harnack).

Com efeito não é ela uma carta, mas uma homília, a mais antiga homilia Cristã que possuímos. O próprio texto refere a precedente leitura de textos sagrados que agora haviam de ser explicados e XVII,03 evidencia-o muito claramente.

É o autor anonimo mas se supõem, devido a alusão a jogos e competições, que tenha sido anunciada por ocasião dos jogos istmicos. O que nos leva a concluir por Corinto como seu lugar de origem. Muito provavelmente foi este sermão arquivado junto com a carta de S Clemente e juntamente com ela transcrito, dando origem a confusão.

Mas quando teria sido elaborado?

Os grandes jogos istmicos nos situariam entre 130 e 140, o que por sinal está de acordo com o emprego de diversos Evangelhos apócrifos como o dos Egípcios e o de Tomé, posto que reflete uma situação anterior a controvérsia canônica suscitada por Marcion a partir de 150. O que nos levaria a Sóstenes, quarto Bispo de Corinto e provavelmente ouvinte dos ouvintes dos Apóstolos ou mesmo dos próprios discípulos do Senhor. O que confere a este Sermão imensa autoridade. Posto que os presbíteros e diáconos sempre pregaram em nome de seu Bispo. Enfim o que temos é um testemunho bastante claro a respeito da crença de uma Igreja legitimamente apostólica oito décadas após sua fundação. É um Isnad excelente.

Passemos assim a resenha doutrinal deste importante documento -

A divindade de Cristo - "Irmãos, devemos pensar Jesus Cristo como Deus e juiz dos vivos e dos mortos." Cap I
Encarnação - "Se Cristo, o Senhor que nos salvou, sendo primeiro Espírito se fez carne..." Cap IX
Igreja espiritual ou corpo místico - "Somente se fizermos a vontade de Deus nosso Pai pertenceremos a primeira Igreja, que é espiritual e existe antes do Sol e da Lua." Cap XIV

Obras - "Quando o confessamos? Quando fazemos o que ele diz, não desobedecemos seus mandamentos, e não o honramos apenas com os lábios, mas com o coração e o entendimento."  Cap III "Devemos confesa-lo com nossas obras, amando-nos mutuamente." Id, id
Esmola - "O Jejum é superior a prece, mas a esmola superior a ambos!" Cap XVI
Impecabilidade - "Como entraremos no Reino caso não mantivermos nosso Batismo puro e sem mancha?" Cap VI "Mantenhais a carne pura e o selo (Batismo) sem mácula e recebereis a vida eterna."
Cap VIII

Cooperar com a graça - "Combatamos assim irmãos meus com coragem!" Cap VIII
Penitência - "Enquanto estamos neste mundo, arrependamo-nos de todo coração das coisas mas que na carne fizemos, assim poderemos ser salvos pelo Senhor que no concede a oportunidade para o arrependimento." Cap VIII
Imortalidade - "Esperam-nos tempos de bem aventurança, irá para os céus encontrar os seus e depois será feliz por toda eternidade." Cap XIX
Juízo e ressurreição da carne - "Ninguém vos diga que a carne não será julgada ou que novamente não se levantará...  do mesmo modo como na carne chamados fostes na carne sereis julgados." Cap IX

 Até aqui a segunda clementina.


terça-feira, 6 de novembro de 2018

CX - S Policarpo de Esmirna e S Pápias de Hierapolis

Policarpo é nome de origem grega que significa 'muitos frutos'.

Segundo Irineu, na carta a Florino, citada por Eusébio, ele - Irineu - jamais havia esquecido as narrativas a respeito de como Policarpo se assentara aos pés de João, o teólogo e fora nomeado pelos apóstolos Bispo de Esmirna ( Tertuliano Praescr XXXII assevera ter sido ele sagrado por S João) Sendo portanto o 'anjo' daquela Igreja, citado no livro da Revelação, muito provavelmente composto por este João, não o apóstolo, mas o ancião, ou presbítero. Teria portanto sido companheiro de Pápias...

Já no livro 'Contra as heresias' assim se expressa Irineu: "Posso recordar eu, Policarpo, o qual foi ouvinte dos apóstolos e conviveu familiarmente com muitos dos que tinham visto o Senhor, o qual foi estabelecido Bispo da Ásia, na Igreja de Esmirna, pelos próprios apóstolos. Nos o conhecemos em nossa infância porque teve uma vida longa e era já muito idoso quando obteve a palma do martírio. Ora ele sempre ensinou o que aprendido tinha com os apóstolos." Adv Haeres III 02-04. Considerando que este Irineu faleceu cerca de 200/210, deve ter convivido com Policarpo entre 140/150.

Já pelos idos de 107 Inácio, outro ouvinte dos apóstolos, enviara-lhe uma elogiosa carta de despedida.

Sabemos ainda, diretamente por Irineu e Indiretamente por Hegesipo, que Policarpo veio a Roma pelos idos de 155, apaziguar os ânimos, devido a questão da data da Páscoa, que os asiáticos, com Polícrates, oficiavam ao 14 de Nisan, fosse qual fosse o dia da semana. E que sendo recebido pelo primaz Aniceto. Consta que nenhuma das partes cedeu em seu costume, mas que por deferência Aniceto entregou a presidência da Eucaristia ao 'Doutor da Ásia e Pai dos Cristãos'. É o que conta Eusébio na História.

Consta ter perecido pelo fogo, no estádio de Esmirna, em meados de 156, com pouco mais de cem anos - Admitido que servia a Cristo por 86 anos e se convertera aos 15 ou 16. Tendo nascido em 56 bem pode ter conhecido o apóstolo João - falecido pouco depois de 70 ou entre 70 e 80 - e certo número de discípulos do Senhor, como o já citado João, o antigo, provável autor do livro da Revelação.

Segundo Irineu Policarpo havia escrito certo número de cartas a diversas congregações e líderes, mas apenas uma chegou até nós, a que fora dirigida aos Filipenses. Segundo P N Harrison temos na verdade duas cartas fundidas numa só. (Primeira carta = Últimos caps e segunda carta = Cap Doze primeiros caps mas pode ser até IX 02 esta última suposição é minha!)

Assim, no que tange a carta maior (aos nove ou doze primeiros caps) a datação corresponderia ao ano 130, o que é absolutamente plausível.

Segue a resenha doutrinal do documento -

A Encarnação do Senhor: "Quem não confessa que Jesus Cristo veio na carne é o anti Cristo." VII,01
O pecado - "Somos todos devedores do pecado."  VI,02
A graça - "Sabeis já que pela graça justificados fostes, não por obras, mas pela graça de Deus comunicada por Jesus Cristo." III
Necessidade do Cristão fazer boas obras - "Caso nossa conduta seja digna dele, com ele reinaremos por mercê da fé." V,02 "Até pelos pagãos deveis ser aplaudidos por vossa conduta irrepreensível e obras santas, para que o nome do Senhor não fique exposto a zombarias." XI,02
A esmola - "Quando façais o bem não o deixeis para depois uma vez que: 'A esmola preserva da morte'" XI,01
Acesso a perfeição ou impecabilidade - "Aquele que tem o amor dentro de si está distante do pecado." III,03
A vivificante cruz - "Quem não aceita o testemunho da cruz é do maligno." VII,01
Ortodoxia - " Guardando a fé imutável."
XI,01

Imortalidade consciente - "E o beato Paulo, pois nenhum deles correu em vão, mas conduzidos pela fé e pela justiça tomaram posse do lugar que lhes estava reservado junto do Senhor porque padeceram." IX,01
Ressurreição da carne - "O que afirma que os mortos não ressuscitam esse é o primogênito do maligno." VII,01

Imitar Jesus - "Fiquei feliz por vós, porque recebestes os imitadores do Amor verdadeiro." I,01
Amor ao próximo - "Ela, a fé, é a mãe de todos nós, seguida pela esperança e precedida pelo amor a Deus, a Jesus Cristo e ao próximo." III,03
Avareza - "É a avareza um tipo de idolatria."
XI,01
Evitar o pecado - "Vos exorto para que eviteis a avareza... e vos guardeis de todo mal."
XI,01





Da Carta sobre o martírio de Policarpo, enviada pela Igreja de Esmirna a Igreja de Filomélio em 156:


Trindade excelsa - "Pelo eterno e celestial sacerdote Jesus Cristo, teu amado Filho, pelo qual glória seja dada a ti, com ele e o Espírito Santo, agora, sempre e pelos séculos dos séculos, amém."
XIV,03Igreja Católica - "Ele lembrou-se da S Igreja Católica espalhada por toda terra." VIII,01
Imortalidade consciente - "Com eles
(os mártires) possa eu ser admitido HOJE na tua presença, como um sacrifício deleitoso." XIV,02
Reverência aos Santos - "Mesmo durante o tempo de sua vida era já reverenciado devido a santidade de sua vida." XIII,02
As relíquias dos Santos - "Mais tarde pudemos nós recolher seus ossos, mais preciosos do que pedrarias e mais valiosos do que ouro, para coloca-los em conveniente lugar e quando possível ali nos reunir jubilosos para comemorar a data de seu martírio."
XVIII,02
Adoração dominical - "Era o dia do Sábado maior."
VIII,01


 

II - S Pápias de Hierapolis


Segundo G Bardy é S Pápias 'Uma das figuras mais misteriosas da antiguidade Cristã... e as poucas notícias que temos sobre ele, tem dado lugar, por parte dos pesquisadores, a intermináveis controvérsias.' in D T C XI sec part, 1944/47.


A respeito dele testifica Irineu ter sido ouvinte de S João e amigo de Policarpo Adv Haeres V,33,04. Eusébio, corrigindo, declara que fora discípulo, não do Apóstolo João, mas de João, o antigo ou ancião, ou ainda Presbítero. Floresceu entre 70 e 140 e é dado por mártir.

Interessante, misterioso e controverso é Pápias avaliado por Eusébio como sendo uma mentalidade medíocre, talvez porque ouvinte, não ao apóstolo, mas de um discípulo chamado João, muito provavelmente autor do livro da Revelação, admirador da literatura apocalíptica judaica, assim judaizante. Teria este discípulo longevo do Senhor, amiúde confundido com o apóstolo homônimo, se instalado - tal e qual o apóstolo - na Ásia menor e conquistado um bom número de adeptos. Como derradeiro ouvinte do Mestre deve ter atraído a sua localidade certo número de peregrinos e idoso pode ter confundido as coisas e atribuído ao Senhor o quanto lerá nos tais apocalipses dando origem a corrente milenarista ou quiliasta, de que Pápias se fez porta voz e que tanto exasperou os padres gregos...

Penso num ancião esclerosado, que ao fim da vida, agregando resíduos judaicos a fé - como apostasia, milênio, conflagração universal, anti Cristo, Besta, demonismo, inferno, etc - prestou um imenso deserviço a igreja, obscurecendo a simplicidade da autêntica escatologia Cristã e lançando as sementes de futuras dissenções intermináveis, e o fim de tudo isto é uma seita chamada 'apocalíptica' presente em todos os setores da Cristandade, particularmente nas seitas bíblicas ou carismáticas onde a leitura do livro da Revelação ultrapassou a leitura dos Santos e divinos Evangelhos. Tudo isto é a um tempo trágico e patético...

Bem Pápias pertence a esta corrente, assim Irineu, Tertuliano e os elderes que o seguiram devido a antiguidade de seu testemunho, adiciona Eusébio. Podemos dizer assim que Pápias fez, e faz escola e compreender ao mesmo tempo a exasperação de Eusébio.

Como não sabia discernir muito bem entre as fontes autenticamente Cristãs e as fontes hebraicas e fosse filho da cultura, inserido numa cultura de oralidade, compilou ele uma espécie de 'Puranas' do Cristianismo nascente, adicionando narrativas apócrifas já escritas, visões, etc inclinando-se para o miraculoso até o fantástico. Tinha porém boa vontade, pelo que convém ouvi-lo:

"Para ti não hesitarei, adicionar as minhas explicações, o que outrora ouvi eu dos antigos, e cuja lembrança bem guardei, estando seguro de sua veracidade. De fato eu não me comprazia, como a maioria das pessoas, no muito dizer, porém buscava a verdade, não me satisfazia com boatos, mas com aqueles que narravam os mandamentos do Senhor, frutos da verdade. E se sucedia, conhecer eu algum dos que tinham ouvido os antigos, eu me informava a respeito do quanto haviam dito eles, o que havia anunciado André, Pedro, Filipe, Tomé, Tiago, João, Mateus ou qualquer outro dos discípulos do Senhor, assim Aristion e João, o antigo, discípulos do Senhor. Eu não julgava que as coisas conhecidas através do relato escrito, não fossem tão úteis quanto as que ouvimos, por meio da palavra viva e permanente." Eusébio H E III, 39, 1-4Caso prestemos máxima atenção a estas palavras constataremos que há nelas certo vigor e solenidade. Pápias era apenas crente, não tolo e se foi enganado, enganado foi pelo velho presbítero judaizante. Ousarei dizer que apesar de sua crença tosca no milenarismo, era este Pápias homem genial por ocorrer-lhe por a tradição oral no acesso de todos, dando-lhe forma escrita, o que a seu tempo deveria ser um tabu! O fruto de suas pesquisas foi uma obra composta de cinco tomos intitulada 'Exegese ou explicação das palavras do Senhor', pelo fato de acompanhar Mateus e Marcos quanto a opção preferencial por Logias, assim o dito Evangelho de Tomé que temos por apócrifo.

Salvo falta de memória minha foi Pápias repetidamente citado por diversos autores, assim Cláudio Apolinário, Ecumênio, Victor de Cápua, André de Cesaréria e aproveitado por outros tantos - inclusive por Eusébio - até o século XVI, quando cessando de ser copiada, provavelmente devido aos defeitos citados por Eusébio, desapareceu, e com grave dano para a consciência Cristã.

Não vou reproduzir aqui o testemunho favorável a crença
milenarista, pois ainda que não constitua uma Heresia, choca-se com a piedade. O milênio consiste numa intuição a respeito do futuro ou da Era Cristã, mal compreendida ou assimilada pelos hebreus. A Igreja, Reino de Cristo ou cidade de Deus é que concretizará esta era ou período no mundo presente na medida em que nele encarnar-se inspirando uma vida - alias social e política - pautada na Lei de Jesus Cristo ou no Evangelho. Este triunfo, ao menos ético, senão credal, da Instituição Cristã é que corresponde ao milênio, correspondendo os mil anos a uma cifra simbólica que não deve ser matematicamente considerada i é ao pé da letra. Será o derradeiro estádio da História humana, iluminado pela graça de Cristo.

Portanto não devemos esperar nenhum tipo de cataclismo, de evento cósmico ou de mudança radical, mas a expansão paulatina de Pentecostes ou do cenáculo por meio dos Santos Sacramentos fixados por Jesus Cristo.

Tampouco mencionarei ipsa verba os estranhos relatos sobre a morte de Judas, o traidor. Tomou ainda alguns relatos as filhas de Filipe, virgens e profetizas que se haviam instalado em Hierapolis e ali morrido. Segundo tais relatos, Justo Bársabas, teria ingerido veneno mortal e permanecido incólume por antes ter invocado o nome do Senhor. Também a mãe de Manaim teria sido trazida novamente a vida.

Importa conhecer o que ele disse sobre a Escritura canônica, particularmente a respeito de nossos Evangelhos.

A respeito de S Mateus, registrou:

"Ele reuniu ordenadamente, na lingua hebraica, as palavras de Jesus e cada qual interpretou-as conforme sua capacidade." apud Eusébio H EPor hebraico devemos compreender o aramaico, assim o original de S Mateus. A expressão 'logoi' ou palavras parece excluir a parte narrativa deste Evangelho, que muitos, como Jerônimo de Stridon, julgam derivar do Evangelho dos Hebreus. Interpretar aqui, suporta traduzir, indicando que já circulavam versões gregas deste Evangelho.

Já sobre Marcos, declara:

"Marcos, tendo sido amanuense de S Pedro escreveu fiel, porém desordenadamente, tudo quanto recordava das palavras e ações do Senhor. Ele não tinha ouvido o Senhor nem o seguido, mas tomou as lições de Pedro, o qual costumava relata-las conforme a necessidade, não segundo a ordem exata. Assim Marcos não se equivocou, mas registrou segundo havia ouvido e recordava, e sua preocupação era apenas uma - Não omitir nada nem inventar coisa alguma." Junta Eusébio que ele também se referiu a Primeira Carta de S João e a uma das Cartas de Pedro e que conhecia a narrativa da Pecadora perdoada (João VIII), cuja fonte seria o Evangelho dos Hebreus.


Resta explicar porque ele não testemunhou a respeito do quarto Evangelho. Uma vez que parte dos racionalistas como Baur, foram levados a situa-lo na segunda metade do século II, justamente, devido a esta omissão. Uma vez que alguns insistiam indevidamente que S João e João, o antigo eram a mesma pessoa. A prova de que não eram é que Pápias - apud Irineu - conheceu o livro da Revelação. Agora a respeito de que tenha conhecido o Evangelho de João, não temos evidência alguma. Como podia ter conhecimento de uma obra e não da outra, dado que tenham saído da mesma pena? A hipótese mais plausível, como já dissemos, é que ele não conheceu o Apóstolo autor do núcleo daquele Evangelho - morto entre 70 e 80 - mas um discípulo de nome João, autor do Apocalipse. O que confirma do mesmo modo a Tradição, segundo a qual a I Carta de S João, fora escrita antes do quarto Evangelho e para servir-lhe de prólogo, o que explica que sua circulação fosse anterior e mais ampla já que a redação definitiva do quarto Evangelho foi elaborada pela comunidade joanina cerca do ano 90 desta Era.

Aos que quiserem saber mais sobre esta grande controvérsia, em torno da autoria e valor do Livro da Revelação, recomendamos nossa obra - "Foi o livro da Revelação escrito por S João, o apóstolo?"

Eis tudo quanto temos a dizer sobre Pápias de Hierapólis e sua obra.